quarta-feira, 30 de março de 2011

Notícia do Dia Atualidades

31 de março: 47 anos do golpe militar de 1964.

Capistrano: O golpe de 1964 e a intervenção americana no Brasil

O Centro de Estudos e Pesquisas África/América do Rio Grande do Norte – CEPAARN realizou, nos dias 23 e 24 de março de 2004, no auditório do SESI, em Mossoró, um seminário sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar implantada no Brasil. Esse seminário teve o objetivo de preservar a memória nacional e mostrar as novas gerações os danos causados pelo golpe militar, ao Brasil e ao povo brasileiro. Por Antônio Capistrano*

Muitos lutaram intensamente por Liberdade e Democracia

Os temas escolhidos para os dois dias de atividade foram: 1) O golpe no contexto latino-americano, a expositora foi à professora Maria da Conceição Pinto de Góes (UFRJ); 2) 1964 - o golpe militar no Brasil, o expositor foi o professor Moacir de Góes (UFRJ), ex-secretário de educação do governo municipal de Djalma Maranhão; 3) A ditadura militar – os anos de chumbo, expositora professora Zuleide Faria de Melo (UFRJ) – dirigente nacional do PCB; 4) A anistia e a Nova República, expositor vereador Hugo Manso; 5) O Brasil hoje, perspectivas para o futuro - expositor deputado estadual Fernando Mineiro.

Em todas as exposições os debatedores eram professores da UERN e sindicalistas. No encerramento foi exibido um vídeo com um emocionante depoimento da economista e combatente da luta armada Vera Magalhães, que faleceu recentemente. No próximo dia 1º de abril o golpe de 64, de triste memória, completa 47 anos. Aproveito a oportunidade para fazer uma pequena homenagem ao professor Moacir de Góes, uma das vítimas da ditadura militar, aqui no Estado. Faço essa homenagem reproduzindo parte da palestra proferida por Moacyr no seminário sobre os 40 anos do golpe, realizada também na Assembleia Legislativa. Palestra essa publicada pelo Sebo Vermelho com o titulo “A filha do tempo”. Reproduzo a parte que fala sob a presença americana no golpe, não só aqui, mas em toda América Latina, aonde ele diz:

“...Outra vertente importante do Golpe de 64 é a intervenção americana no Brasil. Aí teríamos de estudar “A Doutrina de Segurança Nacional” (depois transformada na “Doutrina da Contra-Insurgência”) manipulada pela Escola Superior de Guerra, e, a formação ideológica de oficiais das Forças Armadas Brasileiras em escolas e quartéis americanos; a distribuição de dinheiro da Embaixada Americana através do IBADE; a “Aliança para o Progresso”, implantada na América Latina pelos Estados Unidos como forma de intervenção branca para deter a influência da Revolução Cubana; e finalmente, a força naval americana estacionada no litoral do Espírito Santo, abril de 64, em condições de abastecer as forças armadas sublevadas em Minas Gerais e reconhecer o Estado de Beligerância, caso a crise institucional evoluísse para Guerra Civil. O derramamento de sangue e a divisão do Brasil em dois estados foram evitados por Jango que exerceu a política de não-resistência e não aceitou a Guerra Civil.

ditadura

Eram os tempos da Guerra Fria que, se possível, evoluiria para a guerra quente, segundo a “Doutrina do Dominó”, implantada pelos Estados Unidos na Ásia, o que determinou as divisões da Coreia e do Vietnã.

Aqui, na nossa América Latina, farta foi à safra de Golpes de Estado, manipulada pelos EUA: Guatemala (1954), Paraguai (1954), República Dominicana (1964), Bolívia (1971), Chile (1973), Uruguai (1973), Argentina (1977), Peru e Equador também sofreram intervenções e deposições de Alvarado e Rodriguez, respectivamente.

Quando este quadro sombrio já está desenhado, desenvolve-se, a partir do Chile de Pinochet, com o apoio da CIA, a famigerada Operação Condor que ignora fronteiras nacionais e vai abater os combatentes que resistam pela democracia nos seus exílios onde se encontrem ou nas suas pátrias de origem.

Suspeita-se que as misteriosas mortes de Jango, Juscelino e de Lacerda, os lideres da Frente Ampla, tenham a ver com a mão invisível da Operação Condor. Também comenta-se que o assassinato de dez líderes do Comitê Central do PCB, em 1974, tenha sido o preço a pagar para que a Ditadura começasse a fazer a “abertura lenta, segura e gradual. Esses homens não haviam pegado em armas, mas, articulavam-se, politicamente, em defesa da democracia. Luiz Maranhão era um deles”.

Portando, o 1º de abril, por coincidência, o dia da mentira, os democratas brasileiros não tem nada a comemorar, apenas lembrar os danos causados ao nosso país e ao nosso povo pelo nefasto golpe militar de 1964 e do papel sujo desempenhado pelo imperialismo norte americano, desestabilizando as nascentes democracias em todo o mundo.

*Antonio Capistrano foi reitor da UERN é filiado ao PCdoB


domingo, 27 de março de 2011

Reflexões

A escrita e a relação com o conhecimento

Por Chico Braun

Caro leitor, gostaria de iniciar o texto dessa semana refletindo sobre o exercício da escrita e sua relação com o conhecimento. A escrita pode ser entendida como um momento em que nos posicionamos perante o mundo e as coisas e devemos ter o cuidado de lembrar que escrevemos para alguém e não para si próprio. Os textos que venho escrevendo com o título “Reflexões” é parte de um exercício de semanalmente, dedicar-me a escrita e a reflexão de algum tema relacionado ao “estranhamento” que podemos produzir perante o mundo.

Esse estranhamento parte da necessidade de não nos esquecermos de fazer perguntas, de percebermos o conhecimento como algo que precisa se fazer, se reinventar e para isso se faz necessário fazer perguntas. Sócrates já sinalizava uma questão importante para percebermos isso quando disse: “Quando descobri todas as respostas do mundo, mudaram-se as perguntas”.


Perguntar, estranhar o mundo em que vivemos, pode ser a chave para mudanças que necessitamos fazer enquanto sociedade, enquanto indivíduos. Se queremos tornar nossos filhos cidadãos, indivíduos que possam participar de um projeto de transformação social, político e mesmo econômico, precisamos ensiná-los a estranhar, a fazer perguntas, a saber que as coisas, os sistemas sociais, o conhecimento, os conceitos sobre a sociedade sedimentados na cultura ocidental, precisam muitas vezes serem reavaliados e questionados para que possamos seguir enquanto humanos que nos propormos a ser.

A partir do século XVIII, inventou uma percepção de humanismo baseado numa racionalidade que classificou o mundo e mesmo os indivíduos, o mundo tornou-se um jardim da ciência que através do saber científico classificou as coisas dentro do seu desejo, sujeitando os indivíduos a essa ordem de conhecimento, onde o mundo é explicado e justificado pela razão baseada na ciência.

O conhecimento ganhou estatuto de verdade, os saberes passaram a exercer um poder percebido em nosso mundo, para tratar do corpo doente o saber médico se constituiu nesse espaço de saber, o juiz representa um saber constituído nas leis, os educadores constituem um saber sobre a educação e os psiquiatras sobre a loucura e posteriormente os psicólogos sobre a psique (alma) humana. O ser humano foi sujeitado a um discurso de ciência, esquadrinhado e classificado pela ciência que se colocou como uma verdade (como podemos perceber na obra de Michel Foucault).

A escola moderna foi obra desse processo de sujeição e com o decorrer desse processo a escola deixou de perguntar. Foi culpa da escola? Dos professores? Da sociedade? Deixarei essas perguntas em suspensão para na próxima semana tratarmos da escola e sua relação com o conhecimento e como ela deixou de fazer perguntas, de estranhar o mundo.



Notícia da Semana Atualidades

"O futuro da sustentabilidade passa pelo Brasil"

Ex-presidente americano Bill Clinton diz que o País tem muito do que se orgulhar no campo ambiental, mas alerta que não dá para descarbonizar sozinho

Edson Franco, enviado especial a Manaus

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“Quando falo em um evento como esse, tento montar e apresentar um quadro para que as pessoas desenvolvam seus próprios pensamentos.” Foi exatamente isso o que o ex-presidente americano Bill Clinton fez em sua participação no Fórum Mundial de Sustentabilidade, em Manaus. Cerca de meia hora atrasado, ele subiu ao palco ao lado do empresário Nizan Guanaes, que fez uma bem pronunciada apresentação em inglês.

Depois, por cerca de uma hora, o ex-presidente desfilou números, falou da sua experiência à frente do governo americano, lembrou histórias no mundo e revelou alguns projetos nos quais a Fundação Bill Clinton está envolvida.

Começou jogando para a torcida ao dizer que não imagina um futuro sustentável “sem passar pelo Brasil”. Ele afirmou que os brasileiros têm muito para comemorar no campo ambiental. Um exemplo é o fato de, segundo Clinton, o País ter mais de 80% de sua energia vinda de hidrelétricas.

Apesar disso, ele lembrou que o Brasil não pode construir o seu futuro sustentável sozinho. Depende de aprender com exemplos externos e fazer alianças. E, como todo mundo por aqui parece concordar, precisa contar com o apoio e a participação dos brasileiros. Lembrando o cartaz convocando americanos para a guerra, Clinton resumiu a questão ao dizer: “O mundo precisa de você”.

O ex-presidente não escapou da questão nuclear, tema preponderante em Manaus. Não foi categórico em defender ou condenar a construção de usinas, mas levantou pelo menos um senão. “Se for construir uma usina e não tiver onde enterrar os dejetos radioativos por milênios, você está com um problema na mão.”

Clinton estava tão pouco acessível durante a sua visita a Manaus que a primeira pergunta lida no palco por Ana Paula Padrão foi feita pelo governador do Amazonas, Omar Aziz. O ex-presidente respondeu a mais uma meia dúzia de questões, nenhuma feita por jornalistas.

Energia

O Fórum Mundial de Sustentabilidade chega ao último dia sem perder energia. A movimentação ainda é intensa no hotel Tropical e a expectativa é grande para acompanhar a apresentação da estrela do dia, o ex-presidente dos EUA Bill Clinton. Às 15h30, ele faz uma palestra na qual irá elencar o que há de humanístico na sustentabilidade.

O consultor ambiental Fabio Feldmann abriu os trabalhos deste sábado falando de políticas públicas sustentáveis. Lembrou a dificuldade que foi a aceitação inicial do rodízio de veículos em São Paulo (“Chegaram a fazer adesivos com frases contra a minha mãe”), falou sobre a força que os verdes ganharam após o desempenho de Marina Silva na eleição presidencial do ano passado, defendeu licitações sustentáveis (“É absurdo o governo deixar de comprar lâmpadas econômicas”) e, assim como Arnold Schwarzenegger, disse que o discurso ambientalista precisa ganhar contornos mais sedutores para “tocar os corações”.

Após o discurso de Bill Clinton, sobe ao palco o senador Eduardo Braga, que vai falar sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia. Fechando o dia aqui no hotel Tropical, o organizador do evento, João Dória Jr., lê o manifesto “Por um Planeta Mais Sustentável”, às 17h30.

Mas o encontro não termina aí. Encerradas as atividades no hotel, o povo migra para o Teatro Amazonas, onde, às 20h30, acontece a Hora do Planeta, ação do WWF para alertar o mundo sobre o aquecimento global. Uma apresentação da Orquestra de Câmara do Amazonas e um show de fogos colocam ponto final no fórum às 23h.




segunda-feira, 21 de março de 2011

Reflexões

Carta à Obama

Por Chico Braun

A visita ao Brasil do presidente Obama, suscita alguns aspectos interessantes para uma reflexão. Exatamente para pensarmos a posição do Brasil no cenário internacional, lógico que não só do Brasil, mas, da América Latina.

O discurso simpático e sintonizado com a cultura e sociedade brasileira apontam para uma nova maneira de se relacionar com o Brasil e no seu discurso a democracia foi um ponto relevante e incisivo. Gostaria de apontar alguns aspectos que muitas vezes a política externa e interna dos Estados Unidos vem deixando de lado a democracia na forma de gerir a sociedade.

Nos anos 1990, Noam Chomsky no livro Segredos, Mentiras e Democracia nos alertava de alguns problemas da vida social como a inexistência de saúde pública pois, a saúde ficou a cargo das empresas de plano de saúde, atendimento médico somente para quem possui plano de saúde. Apontando também para uma terceira mundialização do país e criticando o trato que o Pentágono dá ao dinheiro público arrecadado através dos impostos, fazendo pesquisa criando novas armas e produtos (como a internet) e depois repassando a tecnologia para as grandes corporações explorarem a tecnologia sem nenhum investimento.

No tocante a democracia, as eleições presidenciais conta com o voto popular, porém, é o colégio eleitoral que define a escolha do presidente. Isso aponta para uma visão um tanto míope de democracia ainda que democracia seja hoje um conceito reduzido e vulgarizado, isso me faz lembrar as palavras de José Saramago, quando se referiiu a democracia como “uma santa no altar” ninguém quer debater o assunto com propriedade conceitual, nos limitamos resumir democracia através de “eleições onde escolhemos nossos representantes”.

Nesse sentido o Brasil e a América Latina, precisam escolher o caminho a percorrer para não se tornarem como disse o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano “tristes caricaturas” de uma política que muitas vezes se esquece da democracia em troca de interesses econômicos, de investidores e de corporações interessadas em reproduzir seus lucros esquecendo do bem comum e de sua importância social.

A América Latina precisa pensar qual caminho seguir para não repetir uma política equivocada, interessada apenas em seus interesses econômicos, mesmo que isso seja interferir na soberania de um país (os exemplos do Afeganistão, Iraque) fora outros como as restrições a Cuba. Esperamos que Obama possa voltar para casa levando lições da sua visita à América Latina, visto a semelhança vivida no passado colonial e que a diversidade étnica e cultural que a América Latina aprendeu a viver possa servir de aprendizado para um país que tem uma grande riqueza cultural, política, mas que precisa ver os demais como parceiros e não apenas como um negócio ou possibilidade de expansão dos lucros das grandes corporações.





domingo, 20 de março de 2011

Notícia da Semana Atualidades

Movimentos sociais realizam manifestação contra Obama


Movimentos sociais realizarão grande manifestação contra visita de Obama nesse domingo

Da Agência Petroleira de Notícias

“Obama, volte para casa! Tire as garras do pré-sal! Somos contra as guerras imperialistas!” São com essas palavras de ordem que o movimento social brasileiro irá para as ruas no Rio de Janeiro dizer que o presidente estadunidense não é bem-vindo em nosso país. Quem apostou na desmobilização das organizações e dos ativistas cariocas e brasileiros na semana seguinte ao Carnaval se enganou. A Plenária Unificada dos Movimentos Sociais contra a vinda do Obama reuniu mais de 150 pessoas no auditório do Sindipetro-RJ nessa noite de quarta (16).

Para denunciar o absurdo que é recebermos o representante maior do imperialismo com festa em nosso país, as principais organizações populares do Brasil decidiram realizar uma grande manifestação no domingo, 20 de março. A concentração será no metrô da Glória, a partir das 10h (a concessionária está divulgando que o Metrô fechará às 12h30, mas pode ser que antecipem). Na sexta-feira (18), às 16h, na Candelária, as mesmas entidades farão uma passeata convocando a atividade de domingo e informando a população sobre o papel nefasto que os EUA cumprem no mundo inteiro.

A eleição de um negro nos EUA gerou muitas ilusões recheadas de promessas de paz e respeito aos direitos internacionais. Mas a máscara não demorou a cair. Sob a direção de Barack Obama a política externa do imperialismo norte-americano continua a mesma em essência. E essa visita ao Brasil tem um objetivo especial, como revela o jornal O Globo, aliado fiel do imperialismo. Obama vem de olho no pré-sal brasileiro. Os EUA são enormes consumidores do óleo e não querem ficar reféns da instabilidade política dos países do Oriente Médio e da África. A meta estadunidense declarada é tornar o Brasil um grande e seguro exportador de petróleo para a América do Norte.

A idéia da manifestação de domingo é partir em direção ao centro do Rio com bandeiras, faixas e panfletos. Cada movimento e ativista levará seus materiais específicos explicando para a população porque somos contra a vinda de Obama. Essa atividade unitária nasce da necessidade de dar uma resposta unificada nesse momento.

É importante a presença de todos que querem um mundo sem guerras e defendem um Brasil livre e soberano. A imprensa divulga que Obama vem dar seu recado ao povo brasileiro. Nós queremos é que o povo dê seu recado a Obama! Vamos mostrar que a sociedade brasileira não está omissa, nem disposta a bater palmas para os EUA.

http://www.apn.org.br/

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/noticias/1533-movimentos-sociais-realizam-manifestacao-contra-obama

domingo, 13 de março de 2011

Reflexões


Pensamentos sobre a Ideia de Sustentabilidade

Por Chico Braun

Na última semana recebi uma correspondência que me fez pensar sobre a idéia de meio ambiente e como nas últimas décadas o discurso ambiental foi apropriado pela mídia, empresas e pelo próprio capital. Recordo-me que no início da década de 1980, fiz parte uma organização ambiental (nessa época não se falava em Ong) e a representação de ambientalista era de “quem não tinha o que fazer”, tratar do meio ambiente era tido como preocupação de desocupado.

Nos anos 1990, o meio ambiente tornou-se política pública, o Eco 92 tornou-se um símbolo da preocupação ambiental e dos destinos do planeta. A preocupação com a redução da emissão de gases, de CFC (cloro flúor carbono) começaram a fazer parte das políticas públicas e uma preocupação global com as alterações climáticas.

Nos últimos anos os discursos de sustentabilidade e preservação ambiental ganharam a mídia, contabilizando para as empresas uma oportunidade de marketing através do cuidado com o meio ambiente e na obtenção do ISO 14000 (qualidade ambiental). Todos os esforços acerca do cuidado com o meio ambiente é louvável e necessário para o equilíbrio da vida no planeta.

Retornando a correspondência que recebi, ela sugeria que ao me cadastrar eu poderia receber por e-mail minha fatura mensal e que estaria contribuindo com o meio ambiente. Isso me fez refletir até onde eu estaria realmente contribuindo com o meio ambiente? Cheguei a conclusão que se receber minha fatura por e-mail estarei ajudando o banco que me envia a fatura mensalmente pelo correios a reduzir uma despesa com o envio da correspondência e reduzir o custo de impressão da fatura.

Podemos com isso pensar que alguém vai imprimir a fatura, esse alguém seria eu, o cliente. Com isso o banco não teria mais o custo da impressão e envio da fatura, porque esse custo foi transferido para o cliente. Então cuidado com o discursos de sustentabilidade e meio ambiente as vezes ele pode iludir você e a reprodução do capital continua, a Mais-valia de Marx está mais viva que nunca.

Em muitos casos a sustentabilidade e o meio ambiente estão em pauta porque impulsionam a reprodução do capital...

Notícia da semana Atualidades

O Big One do Oriente?

Era início da tarde no Japão, quando um terremoto de 8.9 graus na escala Richter detonou a tragédia. O pior ainda estava por vir: um tsunami com ondas de até 10 metros devastou cidades, arrastou navios, matou e feriu milhares de pessoas

Luiza Villaméa

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A DESTRUIÇÃO
Sexta-feira 11, em Natori, nordeste do Japão: casas
e fazendas arrasadas por água e fogo
Com dez metros de altura, a extensa parede de água avançou sobre a costa nordeste do Japão, arrastando tudo o que encontrava pela frente. Nos portos, a onda gigante jogou embarcações e contêineres de um lado para o outro, como se fossem feitos de papel. Nas cidades, veículos de todos os tipos flutuavam por ruas alagadas, aeroportos foram invadidos por águas transformadas em lama negra por causa da quantidade de destroços que carregavam, enquanto as pessoas buscavam abrigo em áreas mais elevadas. Nos campos, plantações de arroz submergiram em segundos. O devastador tsunami, que chegou a engolir um navio e um trem de passageiros, foi provocado por um terremoto de 8.9 graus na escala Richter às 14h46 locais (2h46 em Brasília) na sexta-feira 11. Seguido por 94 réplicas de menor magnitude, mas que chegaram a atingir até 7.4 graus. Foi, até agora, o maior terremoto da história do Japão, que há 140 anos começou a registrar o fenômeno natural. Formado por quatro ilhas principais e três mil ilhas menores, o país do extremo leste da Ásia situa-se sobre três placas tectônicas cuja movimentação assombra seu cotidiano. São mais de cinco mil abalos por ano e um imenso temor: a possibilidade de ocorrer a qualquer momento o chamado Big One do Oriente, um terremoto de magnitude tão extrema que arrase totalmente o arquipélago.
“Nunca se sabe quando pode chegar o “daishinsai” (o grande terremoto)”, é uma frase que se ouve com frequência nos mais diversos pontos do país. Não por acaso, estrangeiros recém-chegados ao Japão logo aprendem o significado do termo “jishin” (terremoto). Da mesma forma, desde a pré-escola as crianças japonesas passam por treinamentos para aprender a se abrigar durante terremotos (leia quadro à pág. 84). Na cidade de Kobe, no centro-sul do Japão, existe até um museu a céu aberto para relembrar o pior tremor que havia atingido o país antes da sexta-feira 11. Trata-se do Kobe-ko Shinsai, um parque que expõe de forma permanente marcas dos estragos provocados pelo Hanshin Awaji Daishinsai em setembro de 1923, com 7.9 graus de magnitude na escala Richter. No parque encontra-se parte do antigo atracadouro de barcos da cidade tal qual ficou após o tremor de 1923 – com um grande fenda em sua estrutura de concreto e postes inclinados.
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O IMPACTO
Ondas de dez metros chegam às praias de Iwanuma, em Miyagi,
e colocam em alerta ilhas do Pacífico, partes dos EUA e Canadá
A cada tremor de terra, por mais bem preparado que o país esteja, volta à memória dos japoneses a ameaça de uma ocorrência com maior potencial destrutivo. O perigo é real. “Os grandes terremotos ocorrem de forma cíclica, como já está comprovado pela teoria do rebote elástico”, afirma o sismólogo João Willy Rosa, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília. “As placas tectônicas vão acumulando energia e, depois de um intervalo de tempo, essa energia culmina em um terremoto.” Para que o evento se repita, é preciso que se passe um determinado período de tempo. No Japão, estima-se que este período seja de 100 a 150 anos. O fenômeno, portanto, não tem data marcada para ocorrer, como lembra o sismólogo José Roberto Barbosa, da Universidade de São Paulo (USP). “Toda a região do cinturão de fogo está sujeita a grandes terremotos”, diz Barbosa, referindo-se à área de grande atividade vulcânica e de terremotos no Oceano Pacífico. “A ocorrência de um terremoto superior ao que acabou de ocorrer é sempre possível.”
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AS PERDAS
Tsunami destrói completamente zona residencial em Miyagi.
O alerta aos moradores havia sido dado horas
antes, permitindo uma fuga em massa
Como se sinalizasse a tragédia que estava prestes a chegar, na quarta-feira 9 a região já havia registrado um terremoto de 7.2 graus, que não causou grandes impactos. Dois dias depois, quando o tremor eclodiu, seguido pela grande onda, a vulnerabilidade da região e o potencial de propagação da tragédia ficaram evidenciados por alertas de tsunami emitidos por 50 países, da Austrália ao Canadá, passando pelo Chile e pela Costa Rica e por toda a costa oeste americana. As organizações Cruz Vermelha e Crescente Vermelho anunciaram que algumas ilhas da região podem desaparecer. No interior do próprio Japão, mais de 80 focos de incêndios resistiam à ação dos bombeiros. Chamas gigantescas devastaram o complexo petroquímico da cidade de Sendai, no nordeste do país.
Os maiores riscos, no entanto, vinham do setor nuclear, que produz 23% da energia consumida no Japão. Pouco depois do terremoto, embora ressaltando que não havia indícios de “materiais radioativos fora das instalações”, o governo declarou “estado de emergência de energia atômica”. Na cidade de Onahama, a cerca de 270 quilômetros a nordeste de Tóquio, o tremor causou falhas de energia e paralisou geradores da usina de Fukushima, impedindo o sistema de resfriamento de fornecer água suficiente para diminuir a temperatura do reator. Num primeiro momento, uma área de três quilômetros em volta da usina foi evacuada. Mais tarde, o círculo de proteção foi ampliado para dez quilômetros. A Agência de Segurança Nuclear do Japão admitiu a possibilidade de liberação de fumaça radioativa do reator de Fukushima. A medida, que seria inócua para os seres humanos e o meio ambiente, permitiria aliviar a pressão no reator que está 1,5 vez superior ao nível considerado normal. Já o nível de radioatividade na sala de controle da usina era mil vezes além do normal. Dos 55 reatores do país, 11 foram desligados por precaução. “Parar as centrais garantiu que não ocorressem explosões”, afirma o especialista em radiobiologia Eduard Rodríguez-Farré, integrante do Comitê Científico da União Europeia. “O lógico é que os reatores sejam mantidos parados até que sejam revisados um por um.”
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A DOR
Resgate de feridos em Tóquio e estrada destruída em Mito.
No porto de Onahama, carros, barcos e contêineres no mesmo cais.
Em Miyagi restou observar a destruição
Durante a madrugada do sábado 12, os moradores da capital, Tóquio, continuaram a sentir tremores de terra, como contou à ISTOÉ a carioca Manuela Leão, 25 anos. Estudante de engenharia eletroeletrônica na Universidade Cidade de Tóquio, ela desistiu de tentar dormir. “Durante um tempo os tremores pararam, mas agora, às 4h da manhã, começou a ter alguns terremotos fortinhos um atrás do outro”, diz Manuela. “Desisti de dormir por medo de ter um terremoto forte de novo.” Ao contrário do nordeste do país, Tóquio foi atingida pelo tremor, mas poupada da onda gigante. De acordo com o embaixador do Brasil no Japão, Marcos Galvão, a maioria dos 254 mil brasileiros que vivem no país mora em Tóquio. Não havia informações de vítimas na comunidade brasileira.
Relatos de sustos, porém, não faltaram. Moradora da província de Kanagawa, a 32 quilômetros de Tóquio, a modelo brasileira Suzy Shimada, da agência internacional Cinq Deux Un, estava no centro da capital quando a terra tremeu. Mais exatamente, ela passava pelo cruzamento de Shibuya, que é atravessado diariamente por três milhões de pessoas. “Eu vi os materiais da fachada de uma loja tremendo, olhei para os lados e as pessoas estavam em pânico. Os pés não ficavam firmes no chão. As árvores balançavam como num filme de terror. No prédio em construção em frente aos meus olhos, um imenso guindaste balançava como se fosse uma mola. Foi um pavor! Só via as pessoas gritando Sugoi – Kowaai, o que significa: Meu Deus! Que medo!” A modelo, que há quatro anos vive no Japão, contou que já havia passado por outros tremores de terra, mas jamais imaginara testemunhar algum de tamanha magnitude. “Um minuto depois o alarme soou, as pessoas saíam correndo dos prédios. Foi um desespero. Estava com o coração nas mãos. Eu só pensava no meu filho (Vitor, 5 anos) que estava na casa da babá, em Kanagawa. Só consegui contato com eles duas horas depois. Estava tudo bem.”
No Twitter, o cantor e compositor canadense radicado no Japão Blaise Plant fez um relato minuto a minuto do terremoto e seu impacto em Sendai, uma das cidades mais próximas do epicentro do terremoto:
15h07: A minha casa está um lixo! Eu estou bem! Foi assustador... o maior até agora!
16h47: Olá a todos! Parece que a situação se acalmou um pouco. Onde eu estou, os prédios estão danificados. Outdoors estão prestes a cair.
16h48: Peço a todos para se manter alertas... as coisas estão caindo... Ouvi que o tsunami parece muito grande na tevê.
16h49: Neste momento eu não posso ir para casa, o chão está tremendo.
17h16: Um monte de gente do bairro se reuniu para se manter aquecida.
17h24: Ainda grandes agitações... o tsunami parece realmente ter feito estragos... Parece que há mortes... mas eu não posso ter certeza sobre isso.
18h28: A cidade está em completo blecaute! Não consigo ver nada exceto luzes de carro!
18h41: Tenho que ir buscar meu primo na estação de Sendai...
18h50: Eu estou em pé no meio da cidade...
19h32: Graças a Deus vivemos em um país grande e organizado, onde todo mundo está ajudando uns aos outros!
Na virada da noite da sexta-feira 11 para o sábado, quando o cantor já estava abrigado em sua casa, a 144 quilômetros de Sendai, a cidade de Kesennuma continuava em chamas. Horas depois, o governo do Japão estimava que 378 pessoas haviam morrido e 547 estavam desaparecidas.
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O CAOS
As águas tomaram o terminal do aeroporto de Sendai.
No aeroporto de Narita, em Tóquio, a evacuação de passageiros.
Na Índia, estudantes acendem velas pelas vítimas do Japão
As ondas que varreram o Japão e provocaram perdas humanas também causaram estragos na economia do país. Na Bolsa de Tóquio, o índice Nikkey fechou a sexta-feira em queda de 1,73%, o menor nível em cinco semanas. Grandes empresas sentiram imediatamente o impacto dos tremores. Maior fabricante de carros do Japão, a Toyota paralisou a produção em três plantas industriais, o que deve causar prejuízos superiores a US$ 30 milhões. Na Nissan, quatro fábricas foram fechadas, sem previsão de retorno das operações. Trezentos milhões de celulares ficaram mudos no Japão. A economia global foi igualmente afetada. Na própria sexta-feira, o preço do barril do petróleo caiu 3%, enquanto as ações de algumas das principais seguradoras do mundo despencaram. Estima-se que o setor terá de desembolsar cerca de US$ 10 bilhões em prêmios decorrentes da tragédia. O pior, porém, é a ameaça que continua no ar. O “daishinsai” (o grande terremoto) está para chegar?
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PREVENÇÃO E TECNOLOGIA AMENIZAM OS ESTRAGOSPor que o Japão é o país mais equipado do mundo para enfrentar grandes tremores de terra
Nenhum lugar é tão suscetível a terremotos quanto o Japão. A cada ano, o país sofre cinco mil tremores de terra – ou 10% de todos os abalos sísmicos registrados no mundo inteiro. Na nação que deu ao mundo a palavra tsunami, quase que a totalidade dos terremotos
não deixa vítimas e sequer provoca danos materiais. De tempos em tempos, porém, os japoneses têm de enfrentar terremotos tão brutais que acabam por se transformar em tragédias de grandes proporções.

O da semana passada, que entrou para a história como o maior de todos os tremores já ocorridos no país, fez um número recorde de vítimas, mas o resultado seria pior se os japoneses não fossem os maiores especialistas do planeta na prevenção de terremotos. Dos sistemas de alerta até a construção de prédios, dos treinamentos periódicos ao atendimento de emergência, o Japão é a nação mais bem equipada para sobreviver a hecatombes como essas.
Não é exagero afirmar que o Japão está permanentemente de prontidão. Nas escolas, a partir dos 6 anos as crianças aprendem a enfrentar desastres sísmicos. Uma vez por mês, os alunos simulam situações de fuga e bombeiros são convocados para dar palestras centradas em assuntos como “sobrevivência em escombros”. Mas não apenas os jovens são treinados. No “Dia da Prevenção”, celebrado em 1º de setembro, os trabalhadores são dispensados para que possam participar de exercícios que ensinam procedimentos seguros em caso de terremotos. Quando uma tragédia está em via de acontecer, as autoridades agem com velocidade impressionante. Alertas sonoros são disparados nas cidades e as emissoras de tevê e rádio mandam mensagens ininterruptas para toda a população. O videomaker brasileiro Carlos Nonnenmacher, 42 anos, é testemunha dessa agilidade. Ele mora há três anos no município de Hamamatsu, que fica a seis horas de carro de Tóquio e que entrou em alerta vermelho assim que o terremoto eclodiu. Sua casa fica a apenas 300 metros de praia. “Poucos minutos depois dos tremores, a polícia foi a todas as casas, inclusive a minha, pedindo para irmos para os pontos mais altos da cidade.” Segundo ele, a praia possui barreiras de proteção que são acionadas quando há risco de um tsunami. Em outros lugares, existem comportas que se fecham para evitar a propagação das ondas.
Nos últimos 20 anos, o desenvolvimento tecnológico se tornou um aliado importante. Em pontos estratégicos do arquipélago japonês foram instalados 300 sensores que monitoram a atividade sísmica, além de outros 80 sensores aquáticos que indicam a altura, velocidade, localização e horário de chegada de um tsunami. A engenharia japonesa é a mais avançada do mundo na construção de prédios à prova de terremotos. Desde os anos 2000, os grandes edifícios são feitos com estrutura de aço no lugar de concreto, o que os torna resistentes a grandes tremores. Foram também os japoneses que criaram os sistemas de amortecimento instalados na base das construções, cuja função é absorver parte da energia dos tremores. Não é possível eliminar por completo os riscos, mas o Japão ensina que a prevenção é o caminho a ser seguido.
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sexta-feira, 11 de março de 2011

Notícia do Dia

Terremoto e tsunami no Japão deixam 300 mortos e 88 mil desaparecidos

Redação SRZD | Internacional | 11/03/2011 11h30


Foto: Reprodução de TVO Japão foi atingido por um forte terremoto nesta sexta-feira e o tremor de magnitude 8,9 na costa nordeste do país deixou ao menos 300 mortos e provocou um tsunami que ameaça outros países da costa do Oceano Pacífico, conforme informou o Serviço Geológico dos EUA. O terremoto, que aconteceu às 14h46 (hora local) foi o pior registrado no Japão em 140 anos, segundo a agência americana e o 7º pior da história.

Os abalos provocam um tsunami que chegou até áreas da cidade de Sendai e imagens de TV mostram a água arrastando carros e caminhões. Depois do tremor avisos de tsunami com ondas de até seis metros foram emitidos em todo o país. O Centro de Alerta de Tsnumanis do Pacífico também entrou em ação enviando alertas para vários países, já que existe possibilidade de ondas de até dez metros atingirem outros locais.

Logo depois do terremoto, ondas atingiram as Filipinas, conforme informou o sismólogo chefe do país. Além dela, Indonésia também sofreu com as ondas, mas não houve danos e o governo levantou o alerta, assim como a ilha de Guam, território americano do Pacífico. Nas ilhas Midway as ondas chegaram a 1,5 metro, segundo o centro. As ondas já chegaram ao Havaí também, mas a estação que faz o monitoramento afirmou que era impossível determinar a altura delas.
Mortes podem chegar a 300

Segundo a polícia da província de Miyagi, entre 200 e 300 corpos foram encontrados na região costeira de Sendai, todas vítimas do tsunami. O embaixador do Brasil no Japão informou que não há notícias de brasileiros entre as vítimas. Segundo ele, cerca de 17 mil brasileiros moram na região próxima ao epicentro, que aconteceu no Oceano Pacífico a 130 Km da península de Ojika, no Japão, e uma profundidade de 24 Km, considerada baixa.

Depois do terremoto, outros 52 fortes tremores de magnitude maior que 5 foram sentidos, segundo a agência americana. O governo japonês já emitiu alertas de réplicas.

Primeiro-ministro pede calma

Naoto Kan, primeiro-ministro japonês pediu calma à população, apenas de "grandes" os danos causados pelo abalo. Por causa dos tremores, incêndios foram registrados em pelo menos 80 lugares, conforme informou agências locais.

Em Tóquio, grandes prédios foram sacudidos e o governo pede para que as pessoas que moram nos arredores da capital deixem suas casas em direção ao centro da cidade. As linhas telefônicas ficaram abaladas, o trem-bala da capital e os dois principais aeroportos foram fechados temporariamente e o transporte coletivo entrou em colapso.

Para saber mais: http://www.sidneyrezende.com/noticia/124204+terremoto+e+tsunami+no+japao+deixam+300+mortos+e+88+mil+desaparecidos

quarta-feira, 9 de março de 2011

Reflexões

Algumas ponderações sobre o humanismo.
Por Chico Braun
O conceito de humanismo fundado no advento da modernidade a partir do século XV, provocou um deslocamento epistemológico no pensamento ocidental, transcendendo o conceito de teocentrismo medieval e a ideia de similitude (semelhança) que operacionalizavam a lógica do pensamento  e a forma de produção do conhecimento no período medieval.
O século XV viu surgir o humanismo calcado no conceito de antropocentrismo, valorizando o ser humano como centro do universo, inserindo no pensamento ocidental o racionalismo, elevando o pensamento e as práticas sociais a um estado de equilíbrio entre o homem e o universo. O ser humano era percebido como um ser natural, integrado ao mundo natural, o homem era percebido como um ser, onde a existência era percebida através do equilíbrio com a natureza.
O esboço de Leonardo Davinci, o Homem Vitruviano celebra o “homem universal”, ou seja, o ser humano em equilíbrio com o universo. No esboço de Leonardo, o homem dentro do circulo e do quadrado representam as formas perfeitas e a perfeição indica as formas universais ou somente o universo.
O Homem Vitruviano é uma metáfora para entendermos a concepção de humanismo inaugurada pelo Renascimento e como através do humanismo se tratou da possibilidade da procura da busca do aperfeiçoamento do ser humano em suas múltiplas dimensões. O universo representado como a perfeição é entendido como a representação da manifestação divina, portadora a partir de então do entendimento, do conhecimento e do equilíbrio entre a racionalidade e a fé nos preceitos divinos.
Esse equilíbrio baseado no indivíduo,  possibilitou o acesso ao campo racional e divino a uma gama maior de pessoas, inclusive posteriormente a criação de Gutemberg (inventor da imprensa).
 No entanto, o advento do pensamento ilustrado no limiar do século XVIII, provocou um deslocamento no conceito universal ou, no equilíbrio entre ser humano e universo, quando o racionalismo da ilustração desligou o ser humano do natural, tornando o humano um ser alienado ao mundo natural. Nesse momento, o ser humano passa a agir através da razão, tendo na ciência o sustentáculo da percepção do humano, que parafraseando Nietzchie tornou-se “demasiadamente humano”.
O universo passou a ser visto apenas pelas lentes da ciência, perdendo seu caráter divino, afetando o equilíbrio entre racionalismo e a perfeição do universo. O humanismo carregou-se dos discursos de ciência, da tecnologia, fazendo-nos gradativamente esquecermos que nossa jornada em busca do aperfeiçoamento humano passa pelo equilíbrio entre o racional e a emoção, esta segunda está no universo portadora dos ventos divinos do entendimento, da tolerância, da compreensão, da alteridade, da solidariedade, dos conceitos básicos que nos fazem humanos.
Precisamos olhar o mundo em que vivemos, percebendo que estamos irmanados por um principio universal, a simplicidade, a vontade de seguir a diante é o princípio do aperfeiçoamento humano. Precisamos olhar o universo como o princípio elementar básico das vivências e do equilíbrio entre o racionalismo, essencial para o aperfeiçoamento humano e o universo, sopro divino do conhecimento e da compreensão da trajetória humana.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Notícia da Semana Atualidades

premonição sob a luz da ciência

Estudo feito por um renomado psicólogo da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, reacende o debate sobre a capacidade humana de antever o futuro

Débora Rubin
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OUSADIA
Um dos melhores pesquisadores de sua geração, o psicólogo Daryl J.
Bem transgrediu as regras da academia ao estudar sobre premonição
Num diálogo do livro “Alice no Outro Lado do Espelho”, de Lewis Carroll, a continuação do clássico “Alice no País das Maravilhas”, a Rainha Branca diz à Alice que tem memória nos dois sentidos, para o passado e para o futuro. Tese que a menina considera um absurdo: “Ninguém pode acreditar em coisas impossíveis”, rebate. A soberana, no entanto, explica que é somente uma questão de prática e a aconselha a imaginar ao menos seis coisas impossíveis antes mesmo do café da manhã. Menos cético que a carismática personagem, o renomado professor americano Daryl J. Bem, um dos mais proeminentes pesquisadores de psicologia de sua geração, segundo o “The New York Times”, ousou deixar de lado a regra silenciosa que paira sobre o ambiente acadêmico, segundo a qual tudo o que foge de uma explicação racional deve ser solenemente ignorado. E desobedeceu a esse hermetismo em grande estilo, ao investigar a capacidade humana de antever o futuro, popularmente conhecida como premonição. Tal qual a Rainha Branca, ele crê na memória com a seta indicando para a frente.
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ESTUDO
O procurador aposentado Valter Borges montou um
instituto de pesquisa após a premonição da morte do filho
O mais recente estudo de Bem, publicado no “Journal of Personality and Social Psychology”, da Associação Americana de Psicologia, teve um efeito explosivo sobre a comunidade internacional. Menos por seu conteúdo, também bastante surpreendente, e mais pelas credenciais de seu autor, um notório professor de psicologia da Universidade de Cornell, Nova York, uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos. Ele tem mais de 70 artigos publicados e é formado em física pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Até então, os trabalhos sobre as chamadas percepções extrassensoriais, também conhecidas como ESP (sigla em inglês para extrasensory perception) eram considerados menores, pouco científicos. O de Bem e sua equipe quebraram essa escrita. Em sua pesquisa, Daryl J. Bem relata nove experimentos feitos com mais de mil universitários. Os testes, reproduções de estudos clássicos sobre percepção extrassensorial, eram extremamente simples (leia quadro na pág. 50). Neles, os participantes tinham que antever que tipo de imagem iria aparecer no computador ou em qual das duas janelas mostradas na tela iria surgir uma foto. Quando o conteúdo em questão tinha um teor erótico, os estudantes acertavam mais. “Isso entre pessoas comuns, escolhidas de forma aleatória. Meu palpite é de que se eu usar gente mais talentosa, melhor nisso, elas poderão prever qualquer foto”, disse o pesquisador, sem explicar o que quer dizer, ao certo, “gente mais talentosa”.
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CHOQUE
A funcionária pública Erilene Pereira anteviu
dois acidentes de carro, com o filho e o cunhado
Segundo Bem, em oito dos nove experimentos houve um índice de acerto acima do que é considerado coincidência ou obra do acaso. Também foi feito um teste no qual o aluno escolhia se queria arriscar mais nas respostas ou se desistia de tentar. “Os que aceitaram correr mais riscos foram os que tiveram mais acertos”, conta Bem. O psicólogo é cuidadoso ao tirar suas conclusões, mas acredita que todo mundo pode ter capacidades precognitivas, embora uns as tenham mais desenvolvidas do que outros. Também explica que as percepções extrassensoriais são fruto do processo evolutivo no qual antever situações de perigo ou propícias à reprodução se tornaram vantajosas ferramentas de sobrevivência. Isso ajudaria a comprovar a existência de premonições.
Outra pesquisa, feita com universitários brasileiros, mostra que pensamentos premonitórios rondam o inconsciente bem mais do que se imagina. Segundo o trabalho realizado em 2008 na Universidade de São Paulo, 71,5% relataram premonição através de sonhos (leia quadro na pág. 55). No Instituto do Sono, de São Paulo, 30% dos pacientes contam ter sonhado com algo que depois se concretizou. Apesar de ser comum e fazer parte da vida de muitos brasileiros, essa capacidade de antever o futuro ainda é encarada como um grande mistério. Poucos cientistas se dispõem a estudar o tema e, mais do que isso, se recusam a comentá-lo. Lá fora, não é diferente. O artigo produzido em Cornell foi recepcionado com duras críticas. Ray Hyman, professor de psicologia da Universidade de Oregon (EUA), disse ao jornal “The New York Times” que o trabalho é loucura pura. “É um embaraço para a categoria”, atacou. Uma das censuras recebidas foi pelo fato de o professor Bem ter avisado os estudantes de que se tratava de um teste de premonição, o que pode ter influenciado as respostas. O físico Rory Coker, da Universidade do Texas (EUA), um crítico contumaz do que chama “pseudociência”, também fez ressalvas ao colega pesquisador. “A ciência não ignora os fenômenos paranormais, o problema é que tudo o que se vê são estudos feitos para provar aquilo no que se acredita. Dificilmente há resultados significativos e poucos trabalhos são reproduzíveis”, disse à ISTOÉ.

Daryl Bem não é o único acadêmico a colocar a mão nesse vespeiro ao longo da história. Em 1934, o professor Joseph Banks Rhine lançou a primeira edição do livro “Percepção Extrassensorial” a partir de vários testes realizados na Universidade de Duke (EUA). Foi ele quem cunhou o termo “parapsicologia” como o nome da ciência que estuda tais fenômenos. Mais recentemente, em 2001, outro professor de psicologia e neurologia da Universidade do Arizona (EUA), Gary Schwartz, testou em laboratório cinco médiuns, entre eles o mais famoso da tevê americana, John Edwards. No experimento, que foi exibido no Brasil pelo canal pago History Channel, Edwards ficava separado de pessoas que queriam saber sobre seus entes falecidos. Eles não se viam, apenas se ouviam e, como no programa, Edwards apenas confirmava as informações. O índice de acertos, segundo o pesquisador, foi de 83%. Schwartz também já esteve na mira do implacável professor Hyman, de Oregon, que o acusou de forjar resultados. “Muitas vezes na história da ciência nós estávamos errados. Quando achamos que a terra era plana, quando consideramos que o sol girava em torno da terra e tantas outras vezes. Prefiro estar sempre aberto a qualquer possibilidade”, defende-se o professor do Arizona.
Para confirmar as teses dos estudiosos no tema, dezenas de relatos de premonições vêm a público diariamente, manifestados por pessoas comuns – que trabalham, estudam, têm filhos, professam uma religião ou não. Elas costumam ser atropeladas em seu inconsciente por um acontecimento, uma certeza, quase um clarão, que se impõe sobre sua lucidez e se materializa em realidade horas, dias, meses depois, deixando-as, normalmente, assustadas. Roteiro cumprido pela arquiteta Silvia Arruda, de São Paulo. Em fevereiro de 1986, ela sonhou com uma cena de quebradeira no Brasil. Gente falindo, perdendo dinheiro, corrida aos bancos e supermercados. No dia seguinte, o então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, anunciou o Plano Cruzado, que congelou o valor de salários, bens e serviços e provocou uma das maiores crises do governo de José Sarney (1985-1990). Vinte anos depois, um novo sonho premonitório, menos, digamos assim, coletivo. A arquiteta viu o então namorado com uma dançarina ruiva de cabelos cacheados. Contou para ele como quem relata uma curiosidade e foi ridicularizada. Pouco tempo depois descobriu que ele estava saindo com uma mulher tal e qual a do sonho. Detalhe: Silvia não é mística e nem sequer acredita em premonição. Ou, ao menos, não acreditava. “Não acho que seja algo sobrenatural, mas sim uma capacidade da mente em captar pensamentos e sensações não ditos”, afirma.
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VISÃO
A gerente de marketing Carolina Oliveira enxergou a separação de um
casal desconhecido, que aconteceu três meses depois
Colocar a mediunidade no mesmo pacote das experiências extrassensoriais é assunto delicado. “A parapsicologia não lida com questões transcendentais, como a comunicação entre vivos e mortos, mas sim com a aptidão humana de manifestar poderes incomuns nas relações consigo mesmo, com os outros e com o mundo material”, define o procurador de Justiça aposentado Valter da Rosa Borges, de Pernambuco. Nos anos 70, ele criou o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP) para tentar entender esses poderes incomuns, motivado por uma premonição que tivera anos antes. Em 1968, ele perdeu o filho Ulisses, de apenas 4 anos, vítima de um edema pulmonar agudo. “No dia em que ele faleceu, ao sair do apartamento onde eu morava, passei por uma alucinação auditiva. Uma voz me disse, por duas vezes, que meu filho ia morrer naquela tarde”, recorda.
“Não é um fenômeno religioso, não é loucura, paranoia, coincidência nem algo sobrenatural”, argumenta a parapsicóloga Márcia Cobêro, professora do Centro Latino-Americano de Parapsicologia (Clap). “É uma faculdade natural que todos têm, mas poucos se dão conta.” Segundo Márcia, a primeira reação das pessoas que têm premonições é achar que possuem um dom. O segundo passo é temer esse dom. Quando começou a ter premonições, o corretor de imóveis de Santo André (SP) Robson Leiva Lazarini ficou assustado e procurou ajuda na religião – primeiro católica, depois batista. Também criou o blog Sonhos Premonitórios (www.premonitoriosonho.blogspot.com), no ano passado. “As pessoas me mandam e-mails para tirar dúvidas. Não sou especialista, mas tento ajudar contando minha experiência.” Uma das que mais o impressionaram foi com um avião que tentava levantar voo no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, não conseguia, virava para a esquerda e batia num prédio baixo. No dia seguinte, foi buscar um cliente no aeroporto e ficou com muito medo que acontecesse algo com o jatinho dele. Quando o cliente aterrissou, respirou aliviado. Minutos depois, o avião da TAM, voo 3054, colidiu com o prédio da própria empresa após tentar arremeter num dia chuvoso. Lazarini ficou arrasado. “Mas o que eu posso fazer com esses sonhos? Ligar para a Anac e avisar? Não sei o que fazer com eles, então resolvi pelo menos registrar os mais recentes no blog.”
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REDE
O corretor Robson Lazarini conta suas premonições,
como a de um acidente de avião, em um blog
A paulistana Carolina Oliveira, 33 anos, gerente de marketing , também foi buscar ajuda para lidar com os eventos estranhos que rondavam sua vida. Há dois anos, ela passou a se sentir parte de um roteiro de filme do além. Luzes que acendiam logo após ela ter apagado, barulhos estranhos e fortes intuições do que estava para acontecer – a tal premonição. Quando morava na Itália, uma amiga apresentou um casal e ela, na mesma hora, sem nenhuma informação, viu os dois se separando em pouco tempo. A amiga negou e disse que eles se davam muito bem. Três meses depois, aconteceu o rompimento. “No começo eu tinha muito medo”, recorda Carolina. “Por isso procurei o espiritismo.” Hoje, ela atribui todos os acontecimentos aos espíritos que a guiam e ajudam no dia a dia. E garante que a vida ficou melhor ao saber lidar com esses episódios.
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REAL
A arquiteta Silvia Arruda anteviu a traição
do namorado e o advento do Plano Cruzado
“Não existe, até hoje, um estudo que comprove como isso acontece biologicamente. É metafísico e não sabemos como se dá. Mas é inegável que é importante como um processo de autoconhecimento”, destaca o neurologista Luciano Ribeiro, do Instituto do Sono, de São Paulo. Foi essa preocupação que levou a psicóloga Fátima Regina Machado a fazer sua tese de doutorado “Experiências Anômalas na Vida Cotidiana”, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 2010. Segundo ela, o objetivo era justamente chamar a atenção da comunidade acadêmica e dos profissionais da saúde para a importância das percepções extrassensoriais. “Compreendê-las é auxiliar o ser humano a lidar com elas”, destaca. Afinal, argumenta a psicóloga, mesmo sendo um tema marginalizado pela academia, são eventos que “insistem em acontecer” desde que o mundo é mundo.
Na vida da funcionária pública alagoana Maria Erilene Pereira, premonições e fortes intuições insistem em acontecer há algum tempo. Como quando, relaxando em uma rede, ela teve um insight com o filho mais velho, que havia saído com o carro à noite pela primeira vez. Erilene teve uma visão de um sinal próximo de sua casa. Sentiu um aperto no peito e ficou com receio de que acontecesse algo quando o filho passasse por ali. Ligou para ele e pediu que voltasse para casa. O jovem tentou acalmá-la, dizendo que estava tudo bem. Horas depois, ligou, aflito: havia batido o carro naquele local. “Tivemos sorte, só o veículo sofreu danos sérios. Ele ficou bem”, relembra. Muito pior foi o sonho no qual um de seus cunhados recolhia pedaços de um corpo após um acidente de carro. Dois meses depois ela perdeu um outro cunhado numa batida. E aquele do sonho, que recolhia os pedaços, foi o primeiro a chegar ao local do acidente. Os eventos ajudaram Erilene a cuidar de sua espiritualidade e se sintonizar mais com sua intuição. “Isso me ajuda a me conhecer melhor.”
Rory Coker, o físico americano que se dedica a denunciar os malefícios da pseudociência, acredita que tudo não passa de probabilidades. “Se toda vez que um parente meu sofresse algo eu sentisse, aí sim seria um fenômeno a ser examinado. Mas isso acontece muito de vez em quando e, portanto, fica dentro das estatísticas”, diz. No entanto, ele admira a coragem de pesquisadores como Daryl Bem. “É saudável que existam cientistas rebeldes que estão sempre imaginando como trilhar novos caminhos, por mais ­absurdos que eles soem aos nossos ouvidos.” Não à toa, Bem termina seu trabalho citando o diálogo da Rainha Branca e de Alice que abrem esta reportagem. O professor diz que 34% dos psicólogos que estão nas universidades concordam com Alice. E finaliza: “Quem sabe esse estudo não incentive os outros 66% dos meus colegas a investigar ao menos uma coisa anormal por dia.” Afinal, premonições são como as bruxas. Você pode até não acreditar nelas, mas que elas existem, ah, existem.
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Fonte: Revista Istoé edição: 2156

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Notícia da Semana Atualidades

A epidemia da liberdade - Parte 1

Como um saudável vírus, protestos contra ditaduras espalham-se pelo mundo árabe, causando transformações em uma região marcada pela repressão, a pobreza e a brutalidade

Claudio Dantas Sequeira e Luiza Villaméa

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REVOLTA
Em Sanaa, a capital do Iêmen, populares protestam contra
o governo e exigem a saída do presidente Abdullah Saleh

O coronel líbio Muamar Kadafi tornou-se o símbolo de uma geração de déspotas que, agarrados ao poder e alheios às necessidades de seus cidadãos, transformaram o Oriente Médio e o norte da África em uma das regiões mais autoritárias e desiguais do planeta. Em quatro décadas de reinado brutal, Kadafi, que se autoproclamou o “rei dos reis”, conseguiu reunir em torno de si todos os estereótipos de um ditador extravagante, sanguinário e opressor. Mais preocupados com as vastas reservas de petróleo e gás natural do país, ao longo das últimas décadas, os líderes ocidentais preferiam ver o ditador líbio apenas como uma espécie de déspota excêntrico. Suas enfermeiras ucranianas, suas roupas coloridas ou mesmo a insistente obsessão em montar tendas luxuosas onde quer que fosse serviram de combustível para conversas animadas no pragmático mundo da diplomacia internacional. Nos últimos anos, Kadafi chegou a estabelecer relações para lá de cordiais com primeiros-ministros ou presidentes defensores da democracia, como o britânico Tony Blair ou mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na última semana, no entanto, as imagens de corpos humanos destroçados por armas de grosso calibre, os relatos de ataques aéreos contra manifestantes desarmados e o desespero de milhares de estrangeiros em fugir do caos que tomou conta da Líbia fizeram o mundo recordar, sobressaltado, que Kadafi não passa de um ditador sanguinário, considerado um louco psicopata até mesmo por seus pares. Nesses últimos dias, ele não mediu esforços para tentar sobreviver à contaminação da onda libertária que vem tomando conta do norte da África e do Oriente Médio. Estima-se que até sexta-feira seus mercenários e soldados ainda leais ao seu comando tenham matado ao menos duas mil pessoas. Como um vírus que se espalha pelo ar, o desejo de melhor qualidade de vida, de libertar-se de regimes opressivos e cruéis e, pelo menos um pouco mais de democracia está transformando a região de forma absolutamente inédita. Depois da Tunísia e do Egito, restam poucas dúvidas de que a Líbia será o próximo país a sucumbir a essa saudável epidemia. A queda de Kadafi, o ditador mais longevo e cruel da região, será emblemática e reforçará ainda mais uma certeza que parece dominar o mundo árabe: a de que não há antídoto contra os desejos de um povo cansado da opressão e da pobreza.

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COVARDIA
A artilharia pesada deixa um rastro de destruição na Líbia,
onde militares desertores doaram seus uniformes para a população

As consequências dessa contaminação em massa são absolutamente imprevisíveis. Estados Unidos e Europa estão agora debruçados na análise das consequências geopolíticas e econômicas dessas revoltas no mundo árabe. Afinal, o fornecimento de petróleo e gás tem sido garantido ao longo dos anos por relações clientelistas que incentivaram a manutenção de ditaduras. Agora, ninguém sabe como serão as novas relações com o Ocidente, se a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) manterá sua formação e política de cartel ou mesmo se teocracias ao estilo iraniano vão ocupar o vácuo de poder criado com a queda dos ditadores. Na quinta-feira 24, os opositores de Kadafi, por exemplo, tomaram importantes terminais petrolíferos situados a leste da capital Trípoli e o governo anunciou a paralisação de parte da produção, o que levou o valor do barril a tocar a barreira dos US$ 120. Na sexta-feira 25 mais da metade da produção de petróleo e gás líbio já havia sido paralisada. “As primeiras consequências já podem ser sentidas. O preço da energia está subindo, o que terá impacto adicional nos custos de transportes e, consequentemente no preço das commodities”, disse à ISTOÉ o economista tunisiano Saïd Kechida. Outra preocupação é com o êxodo de migrantes desses países para a União Europeia. Estima-se em 500 mil o total de pessoas que poderiam bater à porta dos europeus, num momento em que a recessão e medidas antipopulares alimentam protestos como os vistos em Atenas há poucos dias.

A única certeza por enquanto é de que a Líbia não será o último país a ser contaminado de forma avassaladora por essa epidemia de liberdade. Argélia e Iêmen caminham para uma situação-limite como a vista no país de Kadafi. No Bahrein – onde a primeira corrida da temporada de Fórmula 1 já foi cancelada –, após a repressão violenta de protestos pacíficos, o rei Hamad bin Isa recuou e tenta negociar com a oposição, mas poucos acreditam que as pressões para sua queda irão arrefecer nos próximos dias. O vírus libertário já começa a mostrar seus primeiros sintomas também no Marrocos, na Mauritânia e acredita-se que ele possa tomar conta até mesmo do Irã. Na tentativa de se vacinar, o governo da Arábia Saudita anunciou um pacote de US$ 35 bilhões em investimentos sociais, liberação de financiamento para a compra da casa própria sem juros e aumento de 15% a todos os funcionários públicos. “Os árabes perceberam que podiam sair às ruas. A revolta da Tunísia mostrou que era possível derrubar o regime e o Egito confirmou essa tese. A queda de Kadafi é questão de dias e será emblemática para que outros sigam esse caminho”, diz à ISTOÉ o cientista político iraniano Meir Javedanfar.

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FORA
Revoltados com o ataque a civis,
líbios exigem a saída de Muamar Kadafi

Mais do que a língua, a religião ou o fato de estarem flutuando sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, o que vem unindo os povos árabes neste início de 2011 é a busca por melhores condições de vida. Democracia nunca foi um valor exatamente prezado nessa região do mundo e na história recente não há o mais remoto registro de governos pautados pela liberdade de expressão, seja ela de ordem pessoal, seja de ordem política. O catalisador das revoltas foi muito mais a dissonância entre uma situação econômica decadente e a ostentação exacerbada de pequenas elites políticas ligadas aos ditadores. Soma-se a isso a corrupção endêmica que assola esses países aliada a uma repressão feroz e descomensurada a qualquer tipo de oposição. Confrontados com a escassez de trabalho em seus próprios países e a constante elevação dos preços dos alimentos, os árabes simplesmente foram às ruas pedir uma vida melhor. Tudo começou no dia 17 de dezembro, quando o vendedor de rua tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo em si mesmo depois que a polícia confiscou as frutas e vegetais que vendia nas ruas de Túnis. A autoimolação de Bouazizi não teve, ao menos diretamente, nenhum estofo ideológico. Foi apenas um grito desesperado contra as dificuldades de se ter uma vida digna.

Bouazizi tornou-se um mártir e símbolo do sofrimento dos milhões de dsempregados tunisianos. Rapidamente a revolta ganhou corpo, facilitada pelas novas tecnologias, reverberando pelas emissoras de tevê e angariando cada vez mais apoio entre outros grupos, como sindicatos e intelectuais. Da Tunísia, os gritos de liberdade se alastram com uma rapidez impressionante pelos outros países da região. Hoje, são famílias inteiras, com crianças a tiracolo, empunhando bandeiras e gritando slogans por melhores condições de trabalho e direitos sociais básicos. Foi assim no Egito e está sendo assim na Líbia. Movimento semelhante no último século só foi visto nas ex-repúblicas soviéticas na década de 1990. “As sociedades árabes estavam a ponto de explodir há anos. Que a faísca tenha saltado na Tunísia e o fogo tenha se espalhado pelo Egito foi uma coisa do acaso”, afirma Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio, com sede em Beirute.

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APOIO
Contrários ao ataque a civis, militares se
unem à população contra Kadafi

As dificuldades econômicas, as injustiças sociais e a concentração de riqueza não são os únicos fatores para justificar um movimento tão sincronizado no mundo árabe. Ao contrário de outras regiões do mundo controladas por déspotas e vivendo na iniquidade extrema, o norte da África e o Oriente Médio atingiram um grau de desenvolvimento relativo após o início maciço da exploração do petróleo, a partir da segunda metade do século XX. Os bilhões de dólares que permitiram que Kadafi, por exemplo, tenha participação acionária em empresas como a Fiat e o jornal inglês “Financial Times” também foram usados para construir uma infra-estrutura aceitável, produzir uma classe média intelectualizada e uma pequena burguesia nascida do comércio e dos serviços com as potências ocidentais que dependem diretamente das reservas naturais desses países. Assim, por mais injusta que seja a distribuição de renda, não há miséria generalizada, como em algumas regiões da África Sub-saariana, onde ditadores sanguinários como Robert Mugabe, no Zimbábue, continuam a governar seus países como se esses fossem suas propriedades particulares. Ainda é incerto se o movimento pode se espalhar para outras regiões do mundo com regimes semelhantes, como a China, a Coreia do Norte ou Cuba. Mas o certo é que os governantes desses países estão atentos a qualquer indício de revolta.

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Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/126147_A+EPIDEMIA+DA+LIBERDADE+PARTE+1?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Parte 2: http://www.istoe.com.br/reportagens/126165_A+EPIDEMIA+DA+LIBERDADE+PARTE+2

Como Montar uma Aula: Planejamento