domingo, 24 de abril de 2011

Reflexões

Usos da Simbologia Cristã

Por Chico Braun

A Páscoa é um período interessante, para observarmos uma verdadeira guerra de representações criadas entorno dela. De um lado, um comércio voraz que simplesmente nos faz tornar devoradores de chocolates, enquanto isso o capitalismo agradece pois, assim garantimos sua reprodução. Do outro lado pode-se perceber nos documentários (geralmente transmitidos por canais de TV paga) uma busca incessante por um Jesus histórico, que possa ser provado cientificamente, saem a procura de fragmentos, indício e pistas na maioria das vezes materiais para legitimar ou colocar em dúvida a existência de Jesus.

E nós ficamos no meio dessa guerra de representações, que em nome do consumo foram desconstruindo o sentido cristão da páscoa e principalmente a ideia de renovação, podendo ser entendida como a renovação de princípios, de valores, de amor a vida, o respeito ao próximo, de se renovar a cada dia. Devemos estar mais atentos a maneira como tratamos a Páscoa, isso não quer dizer que devemos abandonar o momento de compartilhar doces e chocolates, mas, ficarmos atento ao sentido da Páscoa e renovarmos nossos valores, aprendendo a respeitar o outro, a diversidade de idéias, de cultura, sermos menos intolerantes.

 A tolerância (no grego significa perdoar) é um bom ponto para refletirmos na maneira como os discursos de ciência se apropriam de conceitos, nas últimas décadas cresceram os estudos sobre intolerância o que é louvável. No entanto, se buscarmos no evangelho de Jesus já havia menção a tolerância o que demonstra que o conceito não é novo, talvez somente agora compreendido e que ainda temos muito que amadurecer.

Ciência e fé são campos que ainda não se entenderam, às vezes não se toleram, muitas vezes nem as religiões se entendem, mesmo as cristãs têm dificuldades com a diversidade de idéias e com a própria tolerância.
Um caso muito interessante dessa relação entre fé e ciência é sem dúvida, as polêmicas acerca do Sudário de Turim, que se tem como uma relíquia pois, acredita-se ser a mortalha que cobriu o corpo de Jesus após a crucificação. Desde os anos de 1970 ela vem passando por testes e investigada minuciosamente, inclusive com teste de carbono 14 para sua datação, foram estipuladas algumas datas como sendo um produto da Idade Média, mas não se consegue dizer como foi feito.

No Sudário de Turim, existe traços de sangue humano, de alguém supliciado (Torturado), a imagem gravada ficou impressa numa parte muito fina do tecido o que intriga os cientistas e pesquisadores do sudário. O que ocorre é que não sabem dizer se é verdadeiro ou uma falsificação medieval, o interessante é que isso não é o mais relevante, o que importa é o uso que as pessoas fazem dele, como alimentam suas crenças através do simbolismo que o sudário representa.

Isso também serve para demonstrar que a ciência não pode caminhar sozinha, deve procurar entender que certos fenômenos não compreendem o alcance científico, mas estão numa sintonia mais sutil, fluída e sensível.

Notícia da Semana Atualidades

O santo das multidões

Vaticano beatifica João Paulo II em tempo recorde e tenta estancar a crise da Igreja com o mais popular dos papas

João Loes
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Em 84 anos de vida, ele foi muitos homens em um só. O órfão que fugiu do nazismo, o operário que passou fome, o ator amador, o aluno de seminário clandestino, o intelectual profícuo, o cardeal de ideias arejadas, um dos responsáveis pelo fim das repúblicas socialistas, o católico que desceu do pedestal e se comunicou com as outras religiões, o homem que viajou o correspondente a 29 vezes a circunferência da Terra para propagar a sua fé. Também foi aquele que fechou os olhos para o escândalo dos padres pedófilos, o responsável por engavetar e retroceder os avanços conquistados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), lufada de modernidade nos ritos católicos, a voz contrária ao homossexua­lismo, ao aborto, à camisinha, ao sexo antes do casamento... Doente e alquebrado, expôs sua finitude em praça pública e morreu como mártir. Uma das personalidades mais influentes do cenário mundial no século XX e o papa mais importante e popular da história da Igreja Católica, João Paulo II, o homem que influiu tão concretamente nos destinos econômicos e sociais da humanidade, alcança no dia 1º de maio, em cerimônia de três dias que deve reunir mais de um milhão de pessoas em Roma, a hierarquia celeste católica e se torna beato em tempo recorde. O próximo passo é a santidade.
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CONTEMPORÂNEOS
Amigos em vida, Madre Teresa de Calcutá e 
João Paulo II devem se tornar santos em breve
Karol Wojtyla, 26 anos de pontificado, o primeiro papa não italiano em 455 anos, será beatificado seis anos após sua morte, em 2 de abril de 2005. É a beatificação mais rápida da história da Igreja Católica e a primeira vez que um sucessor , no caso Bento XVI, beatifica seu antecessor. Não há dúvida de que o Vaticano tem pressa de que a figura carismática e globalizada de João Paulo II alcance a esfera celestial, afirmam vaticanistas. E essa ansiedade está relacionada com a crise do catolicismo no mundo – principalmente na Europa. O Anuário Pontifício de 2011, divulgado pelo Vaticano em fevereiro deste ano e que leva em conta a variação nos números da Igreja Católica no mundo entre 2008 e 2009, comprova essa tese. Embora a Santa Sé tenha alardeado que o rebanho aumentou em 15 milhões de seguidores nesse período, o documento revela, de maneira cristalina, o encolhimento do catolicismo no Velho Continente. No berço do catolicismo, onde se concentram 10,6% da população mundial, apenas 24% se dizem católicos, um índice baixo se comparado às Américas, por exemplo, que tem 13,6% da humanidade e incríveis 49,3% de católicos. “Não é à toa que Bento XVI vem focando seus esforços e os da Cúria Romana no problema da fé católica na Europa”, diz Fernando Altemeyer, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Ter um aliado do peso de João Paulo II em uma missão como essa tem valor inestimável. Sua biografia, com pinceladas medievais, parece ter sido moldada para servir de inspiração para ovelhas desgarradas. “Um santo é a voz mais eloquente que a igreja dispõe no processo de evangelização”, afirma dom Dimas Lara Barbosa, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). As beatificações, assim como a de Karol Wojtyla, cumprem uma série de funções terrenas, além das espirituais de praxe. No pontificado de João Paulo II, por exemplo, houve uma preocupação em se canonizar santos dos Estados Unidos, para impulsionar a fé naquele país. O culto e a devoção a um personagem local acende a chama da religiosidade e atrai mais fiéis.
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MILAGRE
Invocando João Paulo II, a irmã francesa 
Marie Simon curou-se de Parkinson
Não é por acaso, portanto, que o processo de beatificação de João Paulo II se beneficiou de uma série de facilidades. “É evidente que a causa de João Paulo II foi priorizada”, reconhece Andrea Tonielli, vaticanista italiano do jornal “La Stampa”. Um exemplo: as regras estabelecidas pela própria igreja, determinando, entre outras coisas, que uma causa de beatificação só pode começar cinco anos depois da morte do candidato a santo, foram ignoradas, por ordem do papa Bento XVI, no caso de João Paulo II. “Será a primeira vez, em mil anos, que um papa beatifica seu predecessor”, afirma Tonielli. Os críticos foram rápidos em alertar para possíveis problemas em um processo tão corrido. Mas especialistas logo diluíram as dúvidas. A irmã Célia Cardorin, responsável pelas causas de Frei Galvão e Madre Paulina, explica: “O que acontece é que figuras mais populares geralmente têm testemunhos de membros importantes do clero, além do apoio político de dignatários de vários países.”
Faz sentido. Não são poucos os relatos de líderes políticos exaltando a figura de João Paulo II na Positio, documento sigiloso que é uma espécie de biografia do candidato, cuja função é apresentar sua fama de santo em vida e suas virtudes heroicas à Congregação para as Causas dos Santos, espécie de ministério desse assunto do Vaticano. Fama de santo é o que não faltou a esse polonês de olhos azuis profundos. Já no seu funeral, a multidão presente bradava: ‘Santo súbito!’ Sua espiritualidade transbordante, sua diplomacia inata, que conquistava milhões só com o simbólico gesto de beijar o chão de um país visitado, sua inteligência e fina ironia colocadas em segundo plano ante sua humildade missionária, sua disposição incansável em se desencastelar dos muros do Vaticano e participar do mundo como um agente transformador. Tudo isso embalados por um carisma autêntico, de efeito globalizante, tão próprio de seu tempo. João Paulo II é um santo para sua época, assim como houve outras gerações nos altares ao longo desses séculos de cristianismo (leia quadro à pág. 72), cada uma refletindo sua sociedade.
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DUPLA
O cardeal Joseph Ratzinger (à dir.), atual papa Bento XVI,
foi o parceiro intelectual e homem forte de João Paulo II
Ainda em vida, João Paulo II foi louvado, em inúmeras ocasiões, como grande liderança na arena internacional. Atribui-se a ele, por exemplo, pelo menos parte, a responsabilidade pelo fim de regimes ditatoriais de esquerda no Leste Europeu, como na sua Polônia e nas vizinhas Hungria, Tchecoslováquia, Romênia, Alemanha Oriental e, finalmente, na União Soviética. Trata-se de uma influência que ele construiu, com muito esforço, por meio de uma riquíssima produção intelectual e de viagens que misturavam religião e política. Foram 104 jornadas a 129 países, com distância total percorrida de mais de um milhão de quilômetros. Para efeito de comparação, o papa anterior que mais ti­nha viajado, Paulo VI, havia feito 12 viagens.
Só ao Brasil, João Paulo II, que ficou conhecido por aqui como João de Deus, veio em três ocasiões. A primeira, em 1980, foi a mais marcante. Ainda com o vigor de seus 58 anos e recém-eleito papa, ele arrastou multidões com a simpatia de um astro pop. “Na missa campal do Maracanã (RJ) cantou o refrão da música tema de sua visita com os fiéis”, lembra o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, representante oficial da CNBB na cerimônia de beatificação. Pouco se sabia, na época, sobre os rumos doutrinários do recém-eleito, assunto que viraria polêmica com o passar dos anos. “Apesar da imagem de conciliador e tolerante que passava para fora da igreja, internamente ele se mostraria extremamente conservador”, ressalva o padre jesuíta e teólogo João Batista Libânio. Na visita seguinte, em 1991, esse conservadorismo já havia se escancarado. João Paulo II havia revisto boa parte das mudanças progressistas colocadas em prática a partir do Concílio Vaticano II e fazia sentir a mão pesada da tradição sobre iniciativas locais que floresceram no final da ditadura militar. A força das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), por exemplo, formadas a partir da doutrina da Teologia da Libertação, uma interpretação à esquerda do catolicismo, se dissolveu. Pudera; Roma havia enquadrado praticamente todas as lideranças do movimento e substituído cerca de 300 cardeais e sete bispos brasileiros.
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JOÃO DE DEUS 
João Paulo II fez três visitas ao Brasil – 1980, 1991 e 1997. 
Em todas, como no Rio (1997), arrastou multidões

Não foi só no Brasil que as contradições do polonês se evidenciaram. Avesso ao comunismo e às ditaduras de esquerda dos quais fora vítima, enquanto apoiava o levante de trabalhadores poloneses contra o governo socialista do país, ele se alinhou à política de Ronald Reagan (1981-1989), presidente dos Estados Unidos, que dava suporte a movimentos supostamente democráticos contra governos legítimos com inclinações socialistas. “A trajetória do pontificado de João Paulo II na Europa, onde ele foi um campeão da liberdade, é completamente diferente da que escolheu seguir nas Américas”, explica o padre José Oscar Beozzo, estudioso da história da Igreja Católica na América Latina. “O preto e o branco não bastam para explicar a complexidade de seu papado.” Críticas a seu pontificado se estendem ainda ao que alguns entendem como intransigência e outros como coe­rência em assuntos como homossexualidade, sexo fora do casamento, fertilização in-vitro, aborto e uso de métodos contraceptivos. O papa polonês foi rigorosamente contrário a todos. “Compactuar com algo que ele não acreditava para não perder fiéis seria trair a missão que Deus havia lhe confiado”, valida dom Dimas. “O compromisso dele era com a fé da Igreja e isso bastava.”
No fim, nenhuma de suas opiniões lhe custaram a continental popularidade. Iniciativas históricas, como o encontro ecumênico da “Oração pela Paz” em 1986, na cidade italiana de Assis, o sofrimento público tanto depois do atentado sofrido em 1981 quanto no fim da vida, a profunda espiritualidade, que o fazia se mortificar com jejuns rigorosos e se flagelar com uma cinta de couro garantiram uma espécie de imunidade às críticas mais pesadas. Poucos momentos sintetizaram tão bem a devoção pelo polonês quanto seu funeral, em 8 de abril de 2005. Mais de 200 lideranças políticas de todo o mundo se reuniram na Praça São Pedro para acompanhar a missa de réquiem, transmitida ao vivo para mais de um bilhão de pessoas. Gritos de santo já eclodiam da massa de fiéis que testemunhavam a cerimônia, pedindo a canonização imediata. “Quando vi João Paulo II rezar o breviário na Catedral de Brasília, em 1991, já vi um santo rezando, e não só um papa”, lembra o Monsenhor Czeslaw Roskowski, padre polonês de 76 anos que foi aluno de Wojtyla na Polônia em 1968 e é hoje pároco da igreja São Judas Tadeu, em Brasília. O documento cabal que validou os anseios populares e testemunhos como o de Roskowski veio com a história da irmã Marie Simon, freira francesa curada da doença de Parkinson invocando o nome de João Paulo II – a primeira de muitas intervenções milagrosas do papa, que devem se multiplicar nos próximos anos.
Com mais um milagre reconhecido oficialmente, ele se tornará santo. Não há dúvidas de que isso acontecerá em breve. Segundo o postulador da causa, monsenhor Slawomir Oder, já foram recebidos mais de 1,5 mil relatos convincentes de milagres atribuídos ao santo padre. Entre 80 e 100 e-mails e cartas chegam diariamente ao seu escritório com histórias de graças alcançadas nos mais variados países, inclusive por não católicos que, por simpatia à figura de João Paulo II, pediram sua intercessão. Há notícias de bebês que nasceriam com má-formações, mas vieram ao mundo saudáveis, doentes cardíacos e que sofrem de câncer curados instantaneamente e casais dados como inférteis que tiveram filhos. Essas intervenções supostamente milagrosas, embaladas pela mística e o carisma desse polonês, fazem cair por terra todas as contradições e as sombras de seu pontificado. Até porque a função de um santo não é ser perfeito. O papel de um santo é ser um retrato de sua fé. E isso Karol Wojtyla tentou. Com todas as suas faces.
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domingo, 17 de abril de 2011

Reflexões

Olhares sobre o Passado: Usos e Percepções.

Por Chico Braun

Quando nos propomos a tratar de cultura, sejam as práticas sociais, (como as sociedades se organizam culturalmente) seus rituais, os símbolos produzidos para dar significado a própria existência, a maneira como vivem, como percebem o outro. Esses aspectos parecem constituir uma relação quase imperceptível com o passado, digo imperceptível, porque certos rituais estabelecidos na sociedade ocidental tem no passado um elemento fundador ou justificador de práticas culturais e sociais, produzindo um discurso que legitima um passado muitas vezes idealizado, servindo como suporte para inventar uma tradição, uma identidade.

Vou tratar de dois pontos já debatidos na historiografia brasileira, o dia de Tiradentes (21 de abril) e a Descoberta do Brasil (22 de abril). A começar pela Descoberta do Brasil, gostaria de apontar a Primeira Missa do Brasil, retratada por Victor Meirelles em 1860 e transformada em filme por Humberto Mauro em 1937, aqui podemos perceber como o passado foi utilizado para forjar um discurso do nascimento da nação brasileira, produzindo uma ideia de cultura e identidade nacional, herdeira da cultura lusitana (portuguesa), esses discursos insuflaram os debates intelectuais no Brasil entre os anos 1870-1930.

O passado colonial no Brasil foi o palco para a produção de uma identidade nacional baseado na ideia das três raças, conceito criado por Von Martius, botânico que em viagem pelo Brasil nos anos que atravessaram a Independência do Brasil. Martius via a natureza como único elemento original que o Brasil tinha para oferecer ao mundo civilizado, a população: nativos (indígenas), afrodescentes  (negros) e descendentes de portugueses (brancos) foram classificados como uma sub-raça em processo de degeneração.

Os ecos desse processo encontra-se no final dos anos 1920, quando Paulo Prado publicou em 1928, o livro Retrato do Brasil, argumentou que a miscigenação ocorrida no período colonial produziu um brasileiro triste, sem possibilidade de civilização, o passado de prado inventou um brasileiro cansado e triste.

A problemática da miscigenação só foi resolvida na década de 1930 com a publicação de Casa Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freire que se apropriou do passado colonial, mas, lançando um olhar diferente sobre a miscigenação, fazendo uso da Antropologia culturalista de Franz Boas, Freire positivou a miscigenação com a criação do brasileiro híbrido, fruto do encontro das “três raças” iniciada no período colonial brasileiro.

O hibridismo positivou o brasileiro miscigenado, agora alegre, disposto, hospitaleiro etc., alterando a percepção do passado colonial, agora percebido como o momento fundador de um novo brasileiro: o brasileiro híbrido. Cunhando uma ideia de identidade étnica e cultural onde o brasileiro de Freire se tornou um elemento da identidade nacional e da cultura brasileira, quando na literatura de Jorge Amado encontramos em Gabriela ou Pedro Arcanjo o arquétipo da teoria de Freire, tornando esse um discurso de passado que se tornou naturalizado, massificado pela literatura, cinema e televisão nos últimos setenta e oito anos desde a publicação de casa Grande & Senzala.

Agora lancemos um olhar sobre Tiradentes, não vou aqui fazer juízo de valores se foi ele realmente martirizado ou não, mas, tratar da maneira como a apropriação do passado legitimou práticas e criou signos de identificação. Isso ocorre com o quadro de Pedro Américo sobre o martírio de Tiradentes Esquartejado retratado em 1893, podemos observar nessa tela feita mais de um século após a morte de Tiradentes torna-se o momento em que se produz uma invenção do passado, que se materializa no pincel do artista, dando formas e cores a uma temporalidade. Nesse processo, se funda uma representação onde o passado é legitimado pela imagem que produz um caráter de verdade ao discurso historiográfico, inventando uma narrativa da nação.

Nesse sentido, o passado se torna uma apropriação, um discurso, uma prática social que intenciona lançar os alicerces da cultura e da identidade nacional, apresentado como um passado fixo e sedimentado sem possibilidade de reflexão.

Notícia da Semana Atualidades

De Chernobyl a Fukushima: 25 anos depois, debate sobre o nuclear volta à tona
Visitante mede taxa de radioatividade na usina de Chernobyl, que relembra em abril os 25 anos da catástrofe nuclear.
Visitante mede taxa de radioatividade na usina de Chernobyl, que relembra em abril os 25 anos da catástrofe nuclear.
Reuters
RFI
A questão da utilização de energia atômica entrou novamente em debate essa semana após o agravamento da situação nas centrais nucleares no Japão. Mas essa não é a primeira vez que esta discussão ganha amplitude entre governantes e especialistas. Desde 1986, quando dois reatores explodiram em Chernobyl, os riscos desse tipo de energia criam debate.
No dia 26 de abril de 1986, dois reatores nucleares explodiram na cidade de Chernobyl, na Ucrânia, lançando 100 vezes mais radiação que a bomba atômica de Hiroshima. Nesse dia, o mundo presenciou o maior desastre nuclear da história da humanidade. Na época, as autoridades e especialistas se questionaram se deveriam continuar a investir nessa tecnologia e diversos países optaram por utilizar outras alternativas.
Mais de duas décadas se passaram, nenhum outro grande acidente aconteceu, e aos poucos as questões ligadas ao risco foram deixadas de lado. Desde então, diversas usinas foram construídas pelo mundo e outras reativadas.
Mas em 11 de março deste ano o problema voltou à tona em Fukushima, no Japão. Após a catástrofe natural do terremoto de 8,9 na escala Richter que atingiu o país, reatores da central de energia atômica de Fukushima sofreram um problema de superaquecimento, em razão de uma pane no sistema de resfriamento provocada pela chegada do tsunami. Um aumento da pressão no interior das edificações que protegem os reatores provocou uma série de explosões, que danificaram o invólucro de metal que protege as barras de combustível nuclear de um dos reatores. O vazamento de radiação atingiu níveis perigosos e centenas pessoas tiveram que ser retiradas das proximidades da usina.
Com esse grave acidente, especialistas em todo o mundo voltam a debater a questão da periculosidade das usinas nucleares. Para José Goldemberg, físico nuclear e professor da Universidade de São Paulo, o acidente do Japão mostrou que a energia nuclear é “extremamente vulnerável”. Já o físico nuclear e diretor emérito da Ecole Polytechnique de Palaiseau, Roberto Salmeron, lembra que a energia nuclear é inevitável para a produção de eletricidade em muitos lugares do mundo.
Com a colaboração de Bruna Sá

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Reflexões

A Cidade e os Processos de Urbanização

Por Chico Braun

Essa semana estava recordando de algumas leituras feitas nos últimos anos e refleti sobre a cidade e os processos de urbanização que foram compostos por um traçado que emergiu com a modernidade no século XV, ganhando novos contornos no século XVIII.

A partir do século XVIII, as cidades começaram a ser pensadas como espaço da circulação, do fluxo de indivíduos e não mais um lugar público, como nos séculos que antecederam a modernidade. Isso me faz lembrar a reflexão de Richard Sennett no livro “Carne e Pedra”, ao analisar a cidade de Washington tratou da maneira como ela foi planejada para o fluxo de pessoas, criando praças, ruas planejadas para circulação e não para a concentração pública.

Nesse sentido, ela passa a ser projetada para o indivíduo, que através da racionalidade científica estava conquistando direitos, liberdade e ao mesmo tempo tornando-se objeto de estudo dos saberes como médico, jurídico, psiquiátrico etc. Os espaços passam a ser projetados por interesses em constituir uma cidade da ordem, da racionalidade, onde o urbano possa ser controlado.

Quando caminhamos na cidade entramos um mundo simbólico em que a circulação dos corpos ganha significação no traçado das ruas, divisão das quadras, alinhamento de calçadas, faixas e sinais para circularmos. Foram criadas formas de proceder circunscrito em nosso corpo e que tornamos naturalizados, como próprio da sociedade ocidental gostaria de lembrar a música de Milton Nascimento Trastevere do disco Minas quando diz: “a cidade é moderna dizia o cego a seu filho” isso remete a ideia de transformação onde os signos dão sentido e dão fluxo à cidade.

As cidades se fixam nas memórias para poderem existir já nos disse Italo Calvino em “As Cidades Invisíveis”, assim, podemos percebê-la como um texto.

Michel de Certeau em a “Invenção do Cotidiano: as artes de fazer”, debate a maneira que podemos perceber uma textualidade ao subirmos no ponto mais alto da cidade, visualizamos um traçado urbano criado pela “estratégia”, planejada para o fluxo e a circulação dos sujeitos. Quando circulamos nela podemos ver os “usos”, as apropriações feitas pelos moradores para fugir da estratégia, percebemos as “táticas” em movimento,  grafites em muros e fachadas, traçados no meio do gramado da praça usado para “cortar caminho”, demonstram o movimento textual da cidade.

Nesse sentido, gostaria de fazer uma pequena reflexão sobre esse aspecto, quando subi pela primeira vez o Cristo Redentor no Rio de Janeiro, fui impactado por uma imagem muito interessante. O traçado urbano me chamou mais atenção naquele momento do que a vista maravilhosa que se tem da paisagem. Quando olhei o traçado urbano vi exatamente a cidade pensada pela racionalidade, ruas, avenidas, praças, condomínios,  quadras projetadas para a individualidade, para uma cultura do indivíduo.

Ao lado da racionalidade urbana, percebi a lógica que literalmente parecia brotar da terra, as chamadas “favelas”, ou comunidades, estigmatizadas pela razão, se apresentou como antítese da cidade racionalizada. Com casas sem um sentido linear de construção foi possível  perceber uma lógica onde a individualidade não era prioridade e sim um sentimento de coletividade e solidariedade.

domingo, 10 de abril de 2011

Notícia da Semana Atualidades


O que aconteceu naquelas salas de aula


A chacina que matou 12 estudantes e feriu outros 12 em uma escola carioca atinge toda a sociedade e pode deixar a marca do medo em uma geração

Adriana Prado e Wilson Aquino
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CHORO
A dor das famílias e as imagens do circuito interno mostrando o assassino e a fuga dos alunos
Quem esquecerá as imagens tremidas, feitas com celular, de crianças em transe, uniformes empapados de sangue, cruzando em fuga desesperada o portão da escola, numa corrida dramática pela sobrevivência? Como deixar de ouvir seus gritos de absoluto terror enquanto vagavam atônitas pelas ruas em que antes se sentiam seguras? Apagaremos um dia de nossas vidas o silencioso filme captado pelas estáticas câmeras de segurança da Escola Municipal Tasso da Silveira, que primeiro apresenta um jovem tranquilo caminhando pelo corredor, depois revela um frio caçador carregando suas armas e, ao final, o pavor de meninas e meninos tentando escapar de sua mira? E as cenas que não foram vistas, mas construímos em nossas mentes a partir dos relatos minuciosos dos sobreviventes – crianças entre 12 e 14 anos com a alma manchada de medo e pânico que falavam com uma frieza apenas capaz aos que estão tomados pelo choque? E as expressões de horror nos rostos das mães, que viveram suas dores em público enquanto esperavam não ouvir o pior?
Nada indica que será possível, tão cedo, absorver todo o impacto do estarrecedor ataque realizado na quinta-feira 7 por Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, ao colégio que frequentou anos atrás. Com duas armas em punho, antes de se matar ele promoveu uma carnificina que resultou na morte de 12 alunos, feriu outros 12 e impactou todo o País. Pela primeira vez assistíamos à tamanha barbárie em uma escola brasileira – há um extenso e trágico histórico de episódios como esse em outros países. E, a partir de agora, viveremos marcados pelo medo, pois não temos como nos assegurar de que será a última.
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CHOQUE
O sargento Alves, que alvejou o assassino e evitou uma tragédia maior, parentes
das vítimas no hospital e a emoção da presidente, que decretou luto oficial
Wellington planejou cada detalhe de sua ação. Não podia prever o clima, mas calhou de ser um dia ensolarado, sem uma nuvem no céu. Véspera de uma data especial para os cerca de 400 crianças e adolescentes que estudam de manhã na escola, localizada em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, em um modesto prédio verde e amarelo de três andares, cercada por um muro branco de três metros de altura. Para celebrar os 40 anos da instituição, completados no dia seguinte, o diretor Luiz Marduk programara uma série de eventos, entre os quais o projeto “Motivação para o sucesso”. Ex-alunos do colégio fariam palestras para os atuais, contando sua história pessoal. Às 7h15, com suas mochilas a tiracolo, os estudantes foram para as salas, fazendo a algazarrra de sempre. Bem-vestido, de calça preta e camisa verde, Wellington chegou ao colégio por volta das 8 horas e não teve dificuldade para atravessar o portão de ferro que, se não fossem as festividades, estaria trancado com cadeado. Quando entrou na sala de leitura, a primeira à esquerda da escada, uma de suas ex-professoras, Dorotéia, o reconheceu. Ele tentou falar com ela, mas a docente estava ocupada e pediu que ele esperasse um pouco. Dez minutos, foi o tempo que Wellington aguardou. Depois, partiu em direção à execução de seu plano macabro: havia escolhido a escola para matar e morrer. Entrou na classe 1803 e, diante da reação de espanto da professora de português, disse que faria uma palestra. Caminhou até o centro da sala, botou a mochila numa das carteiras. Sacou um revólver. Apontou para a testa da aluna Géssica Guedes Pereira, de 14 anos, que estava na primeira fila. Apertou o gatilho. Foi o início do banho de sangue.
A cena se repetiu dezenas de vezes, numa metódica e macabra rotina. Wellington invadiu duas salas e selecionou suas vítimas, procurando alvejar principalmente as meninas. Ele havia se preparado para o ataque e sabia que não teria muito tempo para executar o maior número possível de crianças e adolescentes. Por isso, trazia um cinturão repleto de balas e usou speedloaders, dispositivos para recarregar as seis balas de seus dois revólveres (um de calibre 38 e outro, de 32) de uma só vez. E procurou ser letal, disparando sobretudo na cabeça e no peito de suas vítimas. Como ex-aluno da escola e morador da região, sabia das deficiências no policiamento das redondezas e podia imaginar que a polícia demoraria algum tempo para chegar ao local. Uma operação de combate ao transporte clandestino, com o apoio da Polícia Militar, foi a salvação de muitas vidas.
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VÍTIMAS
Um menino é socorrido em estado grave e o pequeno Gustavo Pires, filho de um sargento, que se feriu
Tayara de Oliveira, 14 anos, estava na primeira sala atacada pelo atirador, mas conseguiu escapar ilesa. Mesmo aterrorizada, em vez de correr para casa, no mesmo bairro, foi atrás de ajuda. Abraçou o colega Alan Mendes, 13 anos, ferido no rosto, na clavícula e na mão, e andou até o ponto onde os policiais foram avisados. O menino foi imediatamente levado para o hospital. Enquanto isso, na escola, Wellington fazia mais vítimas. Parecia ter treinado para aquele momento, pois descarregava e carregava os revólveres com destreza. Os dramáticos relatos dos sobreviventes descrevem um homem que julgava ser Deus. O jovem Riccele Ponce, 15 anos, conta que o ouvia, entre os gritos, decretar o destino de cada criança: “Ele dizia: ‘Você vai morrer’. E depois atirava. Os alunos pediam ‘pelo amor de Deus’ para não morrerem”. Depois olhava em outra direção e apontava: “Você, não!” O mais chocante é que Wellington executava seu plano sorrindo muito. Depois de descarregar sua munição na classe 1803, o assassino foi para a sala em frente, a 1801, recomeçar a matança. Mateus Moraes, 13 anos, estava lá. Como “não enxerga bem”, o garoto costuma sentar-se perto da lousa. Assim que os primeiros disparos foram ouvidos na escola, seus colegas correram para o fundo da sala e se agacharam. Mateus continuou de pé, orando. Religioso, clamava a Deus para não morrer e implorou, também, para que o atirador não tirasse sua vida. “Ele fez um gesto com a mão, pedindo que eu saísse da frente dele para atirar nos outros”, contou o menino, que passou a tarde chorando. “Então me disse, ‘não vou te matar não, gordinho’.” Stephany da Silva, 14 anos, teve a arma apontada para a sua cabeça, mas no lugar do disparo simplesmente ouviu “hoje não é seu dia de morrer”. Em sua roleta-russa mental, o monstro do Realengo desviou a pistola e atirou na cabeça de outra garota ao lado dela.
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HORROR
Imagens das salas de aula que foram cenário do crime bárbaro de Wellington
 
Banalizada nas ruas, a violência não chega a ser novidade na vida de muitos que tiveram seus destinos cruzados ao de Wellington. Renata Rocha, 13 anos, já a viveu dentro de casa. Seu pai, o pedreiro Nilson Rocha, 56 anos, parecia reviver um filme. “É a segunda vez que passo por essa situação”, lamentou ele. Há dois anos, outro de seus filhos foi atingido por uma bala perdida dentro de casa. Com Renata, foi diferente. Não foi atingida por um projétil disparado a esmo. Na Escola Tasso da Silveira, as balas tinham alvo definido. Safou-se quem foi poupado pelo assassino ou conseguiu livrar-se de sua loucura. “No momento em que ele foi recarregar a arma, a Renata saiu correndo, mas levou um tiro pelas costas, que saiu pela barriga. Mesmo assim, se levantou e continuou a correr”, emociona-se Rocha. Renata sobreviveu. A colega Thayane Machado Monteiro, 13 anos, também foi baleada no braço, na clavícula e na barriga – alguns estilhaços se instalaram na coluna cervical. “Minha filha praticava atletismo, era cheia de saúde”, contava a mãe, Andréia Tavares, à frente do hospital. Thayane corre o risco de ficar paraplégica.
A profusão de tiros chamou a atenção da vizinhança. O carteiro Hercilei Antunes, 44 anos, arrumava-se para o trabalho quando ouviu os disparos – e, logo em seguida, os gritos de socorro da esposa, Gildete. Eram 8h10. Ele saiu do banheiro correndo e deparou-se com um grupo de crianças feridas entrando correndo em sua casa, bem em frente à escola. O uniforme delas, branco com uma faixa horizontal azul na altura do peito, estava tingido de sangue. Havia também respingos no chão da casa e uma mancha avermelhada no portão de entrada. “As crianças estavam desesperadas e só pediam para ligar para os pais”, contou Antunes, cuja filha de 11 anos estava na escola. O carteiro, então, saiu correndo para tentar resgatar a menina. “Queria entrar, mas estava receoso. Até que chegou a polícia”, conta. Sua filha se salvou.

No primeiro momento, apenas três policiais militares, liderados pelo sargento Márcio Alves, 38 anos (18 deles como PM), do Batalhão de Polícia Rodoviária do Estado, saíram ao encalço do atirador. Eles participavam da operação de combate ao transporte clandestino quando foram abordados por Tayara e Alan. Armado com um fuzil, o sargento Alves entrou na escola e surpreendeu Wellington saindo de uma sala. O assassino ameaçou atirar, mas Alves foi mais rápido e disparou duas vezes. Um dos tiros atravessou a barriga do criminoso, que, mesmo ferido, tentou subir para o segundo andar. Acabou tombando na escada. Ato contínuo, se matou. A atuação do sargento Alves foi considerada fundamental. “Se não fosse ele, a tragédia teria sido pior, porque o assassino tinha muita munição”, disse o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que classificou Alves, casado e pai de dois filhos, de herói. “Ele é um herói”, repetiu a pequena Jade de Araújo, 12 anos, autora de um dos mais impressionantes relatos da trajetória mortal de Wellington pela escola. “Ele dava tiro nos pés das crianças. Mandava virar para a parede e dava tiro. Ele atirava na cabeça. Só olhava para a frente e seguia.” Jade conseguiu subir um lance de escadas em meio a sangue e caos e refugiou-se em uma sala, onde a professora trancou a porta e armou barricadas com as carteiras. Enquanto ouvia, do lado de fora, os gritos das vítimas de Wellington, a menina desenhou uma casa na palma da mão. “Era para me tranquilizar”, contou ela, que é de família budista.
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TUMULTO 
O caso, inédito no Brasil, atraiu uma multidão consternada para a porta da
escola, onde houve várias homenagens aos mortos, como flores e cruzes
que foram colocadas no muro. Abaixo, comoção no enterro de uma menina
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A descrição de Jade é a mesma encontrada pelo carteiro Antunes quando entrou na escola: “Era horrível. Havia crianças baleadas nos corredores e nas salas de aula. Algumas foram mortas sentadas, outras, embaixo das carteiras.” Com o matador abatido, ele e outros pais avançaram. Aos poucos, os sobreviventes foram reencontrando os familiares. A maioria com residência nas proximidades. Todos desesperados. A dona de casa Luciana Gonçalves, 38 anos, estava em casa, na favela Nogueira de Sá, também em Realengo, quando soube do ataque. Pegou uma bicicleta e saiu pedalando com pressa em direção à escola. “Quase fui pega por um carro”, lembrou. Ao chegar ao colégio, a confusão ainda era muito grande. “Passei momentos horríveis achando que meu filho poderia estar morto”, contou ela, chorando muito abraçada ao menino – Rodrigo, 13 anos, já pediu para mudar de colégio.
“Ao sair para descobrir o que estava acontecendo, vi duas meninas feridas na rua e corri para o colégio”, disse o desempregado Leonardo de Andrade, 23 anos, morador de um prédio próximo da escola. Ele calcula ter tirado oito crianças do prédio no colo para colocá-las em ambulâncias e carros particulares que levavam feridos para hospitais. A picape que o aposentado Luis Alberto Coelho Barros usa para fazer carretos levou seis vítimas. “Acabaram as ambulâncias e ainda tinha muita criança jogada na calçada”, contou, já na porta do hospital Albert Schweitzer, em Realengo. “Eu fiz o que pude, tentei salvar a vida deles todos.” Os feridos foram encaminhados para cinco hospitais do Rio e de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. No Albert Schweitzer, 16 psicólogos foram designados pelo governo do Estado para prestar atendimento aos familiares. “Temos a obrigação de dar solidariedade e apoio às famílias dos meninos e meninas vítimas desse psicopata, desse animal”, disse o governador Cabral, durante visita à escola. Abatido e revoltado, ele estava acompanhado do prefeito da cidade, Eduardo Paes, que também repetiu a palavra “psicopata” várias vezes. “A escola é um lugar feito para construir sonhos e educar as crianças e foi transformada num inferno”, afirmou. Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff chorou ao pedir um minuto de silêncio em uma cerimônia e decretar luto oficial por três dias pela morte dos “brasileirinhos que foram retirados tão cedo da vida”.
Foi o tenente-coronel Djalma Beltrame, comandante do batalhão da PM na área, quem achou a carta na qual o assassino dá instruções para seu enterro – uma prova de que o ataque foi premeditado. “Os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar”, escreveu Wellington. A carta comprova, também, sua perturbação mental. “Pelo histórico de isolamento, pela carta que escreveu e pela ação que protagonizou, há grande possibilidade de o atirador ser um psicótico, um homem com algum distúrbio de personalidade. Pode ser um esquizofrênico, um depressivo com quadro delirante psicótico”, analisou o psiquiatra José Thomé, coordenador da Comissão Técnica de Intervenção em Catástrofes e Desastres da Associação Brasileira de Psiquiatria. Na opinião da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de livros sobre psicopatas e bullying, ele sofria de delírio crônico e estava fora da realidade há algum tempo. “Ele parece ter planejado e treinado tiro. Escreveu uma carta, cujas ideias estavam bem amarradas, e escolheu o dia certo, quando a escola completava 40 anos, e ex-alunos dariam palestras”, diz a psiquiatra, frisando que o delírio crônico é mais difícil de ser identificado porque a pessoa se isola.
Nas horas que seguiram o ataque, especulou-se de tudo para saber o que levaria um jovem pacato a cometer tamanha barbárie. A resposta está nos meandros da mente de Wellington. Em seu planejamento, ele deixou poucos rastros. Na casa em que vivia, em Sepetiba, também na zona oeste do Rio, destruiu quase tudo o que pudesse ajudar a polícia. Já se sabe que um dos revólveres usados pelo atirador era roubado. O outro não pôde ser rastreado porque sua numeração está raspada. Professores da escola já começaram a ser ouvidos. A professora Dorotéia, que conversou com Wellington na entrada do colégio, desabafou: “Se eu tivesse dado atenção (a ele), será que ele não teria atirado em todo mundo?” Nada indica que qualquer outra coisa, senão a morte, poderia deter a fúria assassina do ex-aluno.
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Colaborou: Claudia Jordão

Como Montar uma Aula: Planejamento