domingo, 10 de abril de 2011

Notícia da Semana Atualidades


O que aconteceu naquelas salas de aula


A chacina que matou 12 estudantes e feriu outros 12 em uma escola carioca atinge toda a sociedade e pode deixar a marca do medo em uma geração

Adriana Prado e Wilson Aquino
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CHORO
A dor das famílias e as imagens do circuito interno mostrando o assassino e a fuga dos alunos
Quem esquecerá as imagens tremidas, feitas com celular, de crianças em transe, uniformes empapados de sangue, cruzando em fuga desesperada o portão da escola, numa corrida dramática pela sobrevivência? Como deixar de ouvir seus gritos de absoluto terror enquanto vagavam atônitas pelas ruas em que antes se sentiam seguras? Apagaremos um dia de nossas vidas o silencioso filme captado pelas estáticas câmeras de segurança da Escola Municipal Tasso da Silveira, que primeiro apresenta um jovem tranquilo caminhando pelo corredor, depois revela um frio caçador carregando suas armas e, ao final, o pavor de meninas e meninos tentando escapar de sua mira? E as cenas que não foram vistas, mas construímos em nossas mentes a partir dos relatos minuciosos dos sobreviventes – crianças entre 12 e 14 anos com a alma manchada de medo e pânico que falavam com uma frieza apenas capaz aos que estão tomados pelo choque? E as expressões de horror nos rostos das mães, que viveram suas dores em público enquanto esperavam não ouvir o pior?
Nada indica que será possível, tão cedo, absorver todo o impacto do estarrecedor ataque realizado na quinta-feira 7 por Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, ao colégio que frequentou anos atrás. Com duas armas em punho, antes de se matar ele promoveu uma carnificina que resultou na morte de 12 alunos, feriu outros 12 e impactou todo o País. Pela primeira vez assistíamos à tamanha barbárie em uma escola brasileira – há um extenso e trágico histórico de episódios como esse em outros países. E, a partir de agora, viveremos marcados pelo medo, pois não temos como nos assegurar de que será a última.
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CHOQUE
O sargento Alves, que alvejou o assassino e evitou uma tragédia maior, parentes
das vítimas no hospital e a emoção da presidente, que decretou luto oficial
Wellington planejou cada detalhe de sua ação. Não podia prever o clima, mas calhou de ser um dia ensolarado, sem uma nuvem no céu. Véspera de uma data especial para os cerca de 400 crianças e adolescentes que estudam de manhã na escola, localizada em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, em um modesto prédio verde e amarelo de três andares, cercada por um muro branco de três metros de altura. Para celebrar os 40 anos da instituição, completados no dia seguinte, o diretor Luiz Marduk programara uma série de eventos, entre os quais o projeto “Motivação para o sucesso”. Ex-alunos do colégio fariam palestras para os atuais, contando sua história pessoal. Às 7h15, com suas mochilas a tiracolo, os estudantes foram para as salas, fazendo a algazarrra de sempre. Bem-vestido, de calça preta e camisa verde, Wellington chegou ao colégio por volta das 8 horas e não teve dificuldade para atravessar o portão de ferro que, se não fossem as festividades, estaria trancado com cadeado. Quando entrou na sala de leitura, a primeira à esquerda da escada, uma de suas ex-professoras, Dorotéia, o reconheceu. Ele tentou falar com ela, mas a docente estava ocupada e pediu que ele esperasse um pouco. Dez minutos, foi o tempo que Wellington aguardou. Depois, partiu em direção à execução de seu plano macabro: havia escolhido a escola para matar e morrer. Entrou na classe 1803 e, diante da reação de espanto da professora de português, disse que faria uma palestra. Caminhou até o centro da sala, botou a mochila numa das carteiras. Sacou um revólver. Apontou para a testa da aluna Géssica Guedes Pereira, de 14 anos, que estava na primeira fila. Apertou o gatilho. Foi o início do banho de sangue.
A cena se repetiu dezenas de vezes, numa metódica e macabra rotina. Wellington invadiu duas salas e selecionou suas vítimas, procurando alvejar principalmente as meninas. Ele havia se preparado para o ataque e sabia que não teria muito tempo para executar o maior número possível de crianças e adolescentes. Por isso, trazia um cinturão repleto de balas e usou speedloaders, dispositivos para recarregar as seis balas de seus dois revólveres (um de calibre 38 e outro, de 32) de uma só vez. E procurou ser letal, disparando sobretudo na cabeça e no peito de suas vítimas. Como ex-aluno da escola e morador da região, sabia das deficiências no policiamento das redondezas e podia imaginar que a polícia demoraria algum tempo para chegar ao local. Uma operação de combate ao transporte clandestino, com o apoio da Polícia Militar, foi a salvação de muitas vidas.
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VÍTIMAS
Um menino é socorrido em estado grave e o pequeno Gustavo Pires, filho de um sargento, que se feriu
Tayara de Oliveira, 14 anos, estava na primeira sala atacada pelo atirador, mas conseguiu escapar ilesa. Mesmo aterrorizada, em vez de correr para casa, no mesmo bairro, foi atrás de ajuda. Abraçou o colega Alan Mendes, 13 anos, ferido no rosto, na clavícula e na mão, e andou até o ponto onde os policiais foram avisados. O menino foi imediatamente levado para o hospital. Enquanto isso, na escola, Wellington fazia mais vítimas. Parecia ter treinado para aquele momento, pois descarregava e carregava os revólveres com destreza. Os dramáticos relatos dos sobreviventes descrevem um homem que julgava ser Deus. O jovem Riccele Ponce, 15 anos, conta que o ouvia, entre os gritos, decretar o destino de cada criança: “Ele dizia: ‘Você vai morrer’. E depois atirava. Os alunos pediam ‘pelo amor de Deus’ para não morrerem”. Depois olhava em outra direção e apontava: “Você, não!” O mais chocante é que Wellington executava seu plano sorrindo muito. Depois de descarregar sua munição na classe 1803, o assassino foi para a sala em frente, a 1801, recomeçar a matança. Mateus Moraes, 13 anos, estava lá. Como “não enxerga bem”, o garoto costuma sentar-se perto da lousa. Assim que os primeiros disparos foram ouvidos na escola, seus colegas correram para o fundo da sala e se agacharam. Mateus continuou de pé, orando. Religioso, clamava a Deus para não morrer e implorou, também, para que o atirador não tirasse sua vida. “Ele fez um gesto com a mão, pedindo que eu saísse da frente dele para atirar nos outros”, contou o menino, que passou a tarde chorando. “Então me disse, ‘não vou te matar não, gordinho’.” Stephany da Silva, 14 anos, teve a arma apontada para a sua cabeça, mas no lugar do disparo simplesmente ouviu “hoje não é seu dia de morrer”. Em sua roleta-russa mental, o monstro do Realengo desviou a pistola e atirou na cabeça de outra garota ao lado dela.
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HORROR
Imagens das salas de aula que foram cenário do crime bárbaro de Wellington
 
Banalizada nas ruas, a violência não chega a ser novidade na vida de muitos que tiveram seus destinos cruzados ao de Wellington. Renata Rocha, 13 anos, já a viveu dentro de casa. Seu pai, o pedreiro Nilson Rocha, 56 anos, parecia reviver um filme. “É a segunda vez que passo por essa situação”, lamentou ele. Há dois anos, outro de seus filhos foi atingido por uma bala perdida dentro de casa. Com Renata, foi diferente. Não foi atingida por um projétil disparado a esmo. Na Escola Tasso da Silveira, as balas tinham alvo definido. Safou-se quem foi poupado pelo assassino ou conseguiu livrar-se de sua loucura. “No momento em que ele foi recarregar a arma, a Renata saiu correndo, mas levou um tiro pelas costas, que saiu pela barriga. Mesmo assim, se levantou e continuou a correr”, emociona-se Rocha. Renata sobreviveu. A colega Thayane Machado Monteiro, 13 anos, também foi baleada no braço, na clavícula e na barriga – alguns estilhaços se instalaram na coluna cervical. “Minha filha praticava atletismo, era cheia de saúde”, contava a mãe, Andréia Tavares, à frente do hospital. Thayane corre o risco de ficar paraplégica.
A profusão de tiros chamou a atenção da vizinhança. O carteiro Hercilei Antunes, 44 anos, arrumava-se para o trabalho quando ouviu os disparos – e, logo em seguida, os gritos de socorro da esposa, Gildete. Eram 8h10. Ele saiu do banheiro correndo e deparou-se com um grupo de crianças feridas entrando correndo em sua casa, bem em frente à escola. O uniforme delas, branco com uma faixa horizontal azul na altura do peito, estava tingido de sangue. Havia também respingos no chão da casa e uma mancha avermelhada no portão de entrada. “As crianças estavam desesperadas e só pediam para ligar para os pais”, contou Antunes, cuja filha de 11 anos estava na escola. O carteiro, então, saiu correndo para tentar resgatar a menina. “Queria entrar, mas estava receoso. Até que chegou a polícia”, conta. Sua filha se salvou.

No primeiro momento, apenas três policiais militares, liderados pelo sargento Márcio Alves, 38 anos (18 deles como PM), do Batalhão de Polícia Rodoviária do Estado, saíram ao encalço do atirador. Eles participavam da operação de combate ao transporte clandestino quando foram abordados por Tayara e Alan. Armado com um fuzil, o sargento Alves entrou na escola e surpreendeu Wellington saindo de uma sala. O assassino ameaçou atirar, mas Alves foi mais rápido e disparou duas vezes. Um dos tiros atravessou a barriga do criminoso, que, mesmo ferido, tentou subir para o segundo andar. Acabou tombando na escada. Ato contínuo, se matou. A atuação do sargento Alves foi considerada fundamental. “Se não fosse ele, a tragédia teria sido pior, porque o assassino tinha muita munição”, disse o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que classificou Alves, casado e pai de dois filhos, de herói. “Ele é um herói”, repetiu a pequena Jade de Araújo, 12 anos, autora de um dos mais impressionantes relatos da trajetória mortal de Wellington pela escola. “Ele dava tiro nos pés das crianças. Mandava virar para a parede e dava tiro. Ele atirava na cabeça. Só olhava para a frente e seguia.” Jade conseguiu subir um lance de escadas em meio a sangue e caos e refugiou-se em uma sala, onde a professora trancou a porta e armou barricadas com as carteiras. Enquanto ouvia, do lado de fora, os gritos das vítimas de Wellington, a menina desenhou uma casa na palma da mão. “Era para me tranquilizar”, contou ela, que é de família budista.
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TUMULTO 
O caso, inédito no Brasil, atraiu uma multidão consternada para a porta da
escola, onde houve várias homenagens aos mortos, como flores e cruzes
que foram colocadas no muro. Abaixo, comoção no enterro de uma menina
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A descrição de Jade é a mesma encontrada pelo carteiro Antunes quando entrou na escola: “Era horrível. Havia crianças baleadas nos corredores e nas salas de aula. Algumas foram mortas sentadas, outras, embaixo das carteiras.” Com o matador abatido, ele e outros pais avançaram. Aos poucos, os sobreviventes foram reencontrando os familiares. A maioria com residência nas proximidades. Todos desesperados. A dona de casa Luciana Gonçalves, 38 anos, estava em casa, na favela Nogueira de Sá, também em Realengo, quando soube do ataque. Pegou uma bicicleta e saiu pedalando com pressa em direção à escola. “Quase fui pega por um carro”, lembrou. Ao chegar ao colégio, a confusão ainda era muito grande. “Passei momentos horríveis achando que meu filho poderia estar morto”, contou ela, chorando muito abraçada ao menino – Rodrigo, 13 anos, já pediu para mudar de colégio.
“Ao sair para descobrir o que estava acontecendo, vi duas meninas feridas na rua e corri para o colégio”, disse o desempregado Leonardo de Andrade, 23 anos, morador de um prédio próximo da escola. Ele calcula ter tirado oito crianças do prédio no colo para colocá-las em ambulâncias e carros particulares que levavam feridos para hospitais. A picape que o aposentado Luis Alberto Coelho Barros usa para fazer carretos levou seis vítimas. “Acabaram as ambulâncias e ainda tinha muita criança jogada na calçada”, contou, já na porta do hospital Albert Schweitzer, em Realengo. “Eu fiz o que pude, tentei salvar a vida deles todos.” Os feridos foram encaminhados para cinco hospitais do Rio e de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. No Albert Schweitzer, 16 psicólogos foram designados pelo governo do Estado para prestar atendimento aos familiares. “Temos a obrigação de dar solidariedade e apoio às famílias dos meninos e meninas vítimas desse psicopata, desse animal”, disse o governador Cabral, durante visita à escola. Abatido e revoltado, ele estava acompanhado do prefeito da cidade, Eduardo Paes, que também repetiu a palavra “psicopata” várias vezes. “A escola é um lugar feito para construir sonhos e educar as crianças e foi transformada num inferno”, afirmou. Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff chorou ao pedir um minuto de silêncio em uma cerimônia e decretar luto oficial por três dias pela morte dos “brasileirinhos que foram retirados tão cedo da vida”.
Foi o tenente-coronel Djalma Beltrame, comandante do batalhão da PM na área, quem achou a carta na qual o assassino dá instruções para seu enterro – uma prova de que o ataque foi premeditado. “Os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar”, escreveu Wellington. A carta comprova, também, sua perturbação mental. “Pelo histórico de isolamento, pela carta que escreveu e pela ação que protagonizou, há grande possibilidade de o atirador ser um psicótico, um homem com algum distúrbio de personalidade. Pode ser um esquizofrênico, um depressivo com quadro delirante psicótico”, analisou o psiquiatra José Thomé, coordenador da Comissão Técnica de Intervenção em Catástrofes e Desastres da Associação Brasileira de Psiquiatria. Na opinião da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de livros sobre psicopatas e bullying, ele sofria de delírio crônico e estava fora da realidade há algum tempo. “Ele parece ter planejado e treinado tiro. Escreveu uma carta, cujas ideias estavam bem amarradas, e escolheu o dia certo, quando a escola completava 40 anos, e ex-alunos dariam palestras”, diz a psiquiatra, frisando que o delírio crônico é mais difícil de ser identificado porque a pessoa se isola.
Nas horas que seguiram o ataque, especulou-se de tudo para saber o que levaria um jovem pacato a cometer tamanha barbárie. A resposta está nos meandros da mente de Wellington. Em seu planejamento, ele deixou poucos rastros. Na casa em que vivia, em Sepetiba, também na zona oeste do Rio, destruiu quase tudo o que pudesse ajudar a polícia. Já se sabe que um dos revólveres usados pelo atirador era roubado. O outro não pôde ser rastreado porque sua numeração está raspada. Professores da escola já começaram a ser ouvidos. A professora Dorotéia, que conversou com Wellington na entrada do colégio, desabafou: “Se eu tivesse dado atenção (a ele), será que ele não teria atirado em todo mundo?” Nada indica que qualquer outra coisa, senão a morte, poderia deter a fúria assassina do ex-aluno.
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Colaborou: Claudia Jordão

domingo, 3 de abril de 2011

Reflexões

Pequenas ponderações sobre a escola e a cultura escolar

Por Chico Braun

Nessa semana, vou tentar elaborar algumas idéias sobre a escola, tentando responder na medida do possível algumas questões que ponderamos na semana anterior. O que pretendo considerar no texto de hoje são pequenos pontos que fizeram a escola moderna emergir, juntamente com um conjunto de saberes que forjaram um conhecimento naturalizado nos últimos três séculos.

A escola até o século XVIII era muito diferente do conhecemos hoje, as escolas medievais não eram um lugar propriamente do aprendizado e da disciplina, nem da divisão de séries e faixa etária. As escolas se destinavam aos nobres que iriam se dedicar ao clero, (a vida sacerdotal) e poderíamos encontrar crianças de 8 ou 9 anos estudando juntamente com jovens de 15 ou 21 anos, o único critério era a vontade de aprender.

O corre que o século XVIII, fez emergir um discurso baseado em saberes que tornaram possível uma ordenação das coisas, através da classificação, da mensuração e da sujeição das coisas. As coisas podem ser entendidas, como todos os seres possíveis de análise através da razão, a racionalidade emergente no Iluminismo (ou Ilustração) criou um mundo onde tornou-se possível classificar e ordenar as coisas (o mundo) através da razão, isso é perceptível em Descartes (com o discurso do método) e Kant (com o sujeito da ilustração).

Desejo apontar nesse momento, é que a escola sofreu uma alteração profunda enquanto instituição, ela ganha um corpo disciplinar, além dos saberes que constituíram uma economia de controle, classificação e vigilância dos sujeitos na escola. A escola no século XVIII tornou-se uma maquinaria com um fim muito específico, disciplinar as crianças principalmente para o trabalho, visto ser esse o período da Revolução Industrial.

A escola foi a partir de então, pensada como um espaço do controle e vigilância dos corpos, o espaço disciplinar, os saberes começam a classificar esse espaço, desde sua arquitetura, com a criação de espaços que favorecessem a vigilância dos alunos, sua classificação por séries e faixa etária começando a produzir uma ordem de controle e vigilância sobre a escola e sobre o corpo social, pois, a sociedade também foi enquadrada nessa ordem de controle onde os saberes começam a exercer um poder sobre a sociedade.


Quando tratamos dos saberes entende-se como o saber médico, psiquiátrico e o saber jurídico que começam a ordenar os espaços através da razão e produzem uma nova forma de dominação pautada na ciência e na razão. Nesse momento, os saberes estão exercendo um poder que vai se diluir na sociedade nas relações sociais passamos a viver sob a égide de uma microfísica do poder, como sugeriu Michel Foucault.

A ordem disciplinar passou a constituir a escola que no decorrer do século XIX ganhou contornos mais sutis e perversos quando absorveu do evolucionismo, a idéia de aptidão até pouco tempo utilizado na escola quando no boletim escolar citavam que o aluno estava apto para seguir a série seguinte. O conceito de aptidão, advém da ideia que a criança evoluiu e pode ir a série seguinte, porém o conceito de evolução foi criado por Darwin no século XIX, para entender a evolução das espécies, seu uso na educação teve um significado classificatório.

Nesse sentido, temos uma escola pensada dentro de uma ordem disciplinar e classificatória e no decorrer dos últimos dois séculos esses discursos foram naturalizados, ganhando um estatuto de verdade inquestionável pois, se baseava num conhecimento pautado na razão. A escola é uma invenção do século XVIII e XIX e, seus efeitos ainda são sentidos em nossos dias, os saberes que criaram essa concepção de escola, produziram um efeito de verdade naturalizando a escola enquanto um conceito cristalizado, uma verdade.

Hoje vivemos uma crise na educação, talvez pelo fato de que a escola que conhecemos hoje está colocada conceitualmente ancorada na escola do século XVIII e XIX e isso ocorre devido a persistência de uma cultura escolar que emergiu através dos saberes e da disciplinarização dos sujeitos. Atualmente temos dificuldades de avançar, a cultura escolar é antiquada e retrógada, nossa relação com o conhecimento ainda é da reprodução e apropriação do conhecimento e não conseguimos ensinar nossos alunos a fazer perguntas.

A cultura escolar ainda percebe o conhecimento como uma verdade, a sociedade exige isso da escola e a escola não consegue romper com esse paradigma. No entanto o conhecimento é uma invenção (isso já foi abordado por Nietzsche no final do século XIX) ele é fluido e não algo cristalizado.

Precisamos ensinar nossas crianças de maneira diferente e isso pode ser feito de modo simples apenas tratando o conhecimento como algo a ser desconstruído, questionado e repensado, precisamos ensinar nossas crianças a fazer perguntas para que possamos contribuir na formação de cidadãos, que se coloquem na sociedade e tenha clareza que o conhecimento é uma invenção, a cultura é uma produção social e com isso possa estranhar o mundo e as coisas que o cerca.

A crise na educação que vivemos atualmente parece ser resultado dessa cultura escolar emergente nos séculos XVIII e XIX, na qual estamos imersos numa ordem disciplinar e por mais que busque a responsabilidade da educação nos professores, alunos ou na família, a crise não vêem a ser moral, mas conceitual e se relaciona a mudança de uma cultura escolar, uma cultura diluída no corpo social e naturalizada como uma prática social.


Notícia da Semana Atualidades


Um homem para o seu tempo

"A vida é realmente uma luta. A vida para qualquer um de nós não tem apenas vargem, não. Tem curvas, morro, atoleiro, tem de tudo. Mas vamos lutando"

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ADEUS A BRASÍLIA
Oito mil pessoas compareceram ao velório no Palácio do Planalto.
Antes de Alencar, só Tancredo Neves foi velado ali
“A vida é realmente uma luta. A vida para qualquer um de nós não tem apenas
vargem, não. Tem curvas, morro, atoleiro, tem de tudo. Mas vamos lutando”

José Alencar
É difícil precisar em que momento, depois de se tornarem heróis, grandes homens viram mito. A construção de um herói é uma trajetória fartamente descrita. Há meio século um dos maiores estudiosos de mitologia e religiões do mundo, o americano Joseph Campbell, mostrou que para tornar-se um herói o personagem precisa ser dotado de uma misteriosa “centelha divina”. É o que, desde cedo, o distingue dos comuns mortais. Então, em determinado momento da vida, os heróis enfrentam uma “tragédia” que mudará seus destinos. Esses acontecimentos escancaram para os heróis o “dever”, a força mais poderosa que os move, o compromisso que assumirão com o resto do mundo. Por fim, todo o herói tem uma “missão”, a forma pela qual ele cumpre seu dever. A mistura de centelha divina, tragédia, dever e missão, no entanto, é insuficiente para que um herói se transforme em mito. Ele só mudará de patamar quando sua existência servir para contar uma história sagrada. Na fronteira entre o celestial e o profano, mitos são representações de uma ideia a ser compreendida. Mitos são símbolos de grandes valores. O Brasil acaba de ver surgir um deles.
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COMOÇÃO
Homenagens da população começaram ainda no Hospital Sírio-Libanês,
em São Paulo; abaixo, aplausos durante cortejo em Belo Horizonte
José Alencar Gomes da Silva, que morreu às 14h41 da terça-feira, 29 de março de 2011, aos 79 anos, foi a soma de muitos heróis. O menino pobre do povoado de Itamuri que construiu um império industrial de porte global. O homem de pouco estudo, autodidata, que se transformou em liderança empresarial do País. O sujeito rico que decidiu arriscar o futuro trocando o sucesso na iniciativa privada pela aposta incerta na vida pública. O patrão que se submeteu ao comando de um ex-metalúrgico para viabilizar uma nova proposta de governo para o Brasil. O vice-presidente que conseguiu a proeza inédita de ter seu nome reconhecido pelos brasileiros mais humildes e transformou o cargo numa referência de estabilidade. O político respeitado por um povo curtido na desconfiança. Acima de tudo, porém, José Alencar será sempre lembrado como um homem que ensinou a viver. Um guerreiro em combate público pela vida. Ele é um mito de dimensão humana. “Alencar fez com que as pessoas lutassem junto com ele contra um adversário que todo mundo odeia, que todo mundo quer derrotar, que é o câncer”, diz o oncologista Paulo Hoff, a quem o ex-vice-presidente chamava de “meu médico principal”.
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FAMÍLIA
A esposa, Mariza, e o filho Josué durante o velório em Brasília
Mitos, conforme definem os filósofos, representam “pistas do que se poderia ser”. Nesse sentido, Alencar, pela altivez com que encarou o adeus, é exemplar. Sua força como padrão de comportamento pode ser confirmada a poucos metros do boxe 27 da UTI cardiológica, no segundo andar do prédio do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde ele passou suas últimas horas de vida. Ali está internado um homem de 70 anos, Ammeleto Socci, funcionário de uma multinacional, que também luta contra o câncer. “Alencar, sempre com um sorriso no rosto, sempre se recusando a entregar os pontos, levanta a autoestima do meu marido nos piores momentos”, diz Regina, esposa de Socci há 43 anos. O médico Hoff afirma que a cirurgia de quase 20 horas a que Alencar se submeteu em janeiro de 2009 foi um marco. “A partir daquela data eu notei que os pacientes comentavam que, se um senhor de quase 80 anos podia enfrentar aquela doença agressiva, eles também poderiam.” Outro médico da equipe, Raul Cutait, lembra de pacientes que cruzavam com Alencar pelos corredores do hospital e faziam questão de contar-lhe o quanto haviam se fortalecido com seu exemplo.
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CHEGADA
Cadetes das Forças Armadas carregam o caixão pela rampa do Planalto
Alencar sabia que os brasileiros observavam sua dedicação à vida. Duas semanas atrás, quando foi informado de que as opções terapêuticas não teriam mais efeito contra o câncer, alertou seus médicos: “Isto é problema só nosso, as pessoas têm que saber que eu luto até o fim.” Para os familiares, pediu que lhe providenciassem uma garrafa da “Maria da Cruz”, cachaça de sua fabricação, para dividir com amigos que o visitassem, como contou o jornalista Ricardo Kotscho, ex-secretário de Imprensa do governo Lula. Na segunda-feira 28, às 13h20, Alencar deixou sua casa para ser internado no Sírio-Libanês com fortes dores abdominais, decorrentes de uma obstrução intestinal causada pelo tumor. A equipe médica avaliou que não havia mais nada a fazer senão sedar o paciente. Antes de receber o medicamento, Alencar ainda comentou com bom humor: “O doutor Raul Cutait não vai dizer nada? Então é porque estou mal mesmo...” A mulher, Mariza, os filhos Josué, Maria da Graça e Patrícia e o neto Ricardo fizeram vigília durante todo o tempo em que Alencar ficou no hospital. Ao lado da cama, um vidro de água benta e uma imagem de Nossa Senhora, devoção de dona Mariza. “Ele está se preparando para descansar”, comunicou Cutait no final da manhã da terça-feira. Às 14h41, foi anunciada oficialmente a morte de Alencar. O País inteiro começava, então, a lhe prestar homenagens.
“Esse negócio de empresário de sucesso não me dá muita autoridade.
Tenho 175 milhões de patrões. Devo satisfação a eles”

José Alencar
No clima quente e abafado de Brasília, o céu estava encoberto às 10h de quarta-feira quando o corpo do ex-vice-presidente chegou à capital num avião camuflado da Força Aérea Brasileira. O esquife foi transportado em caminhão aberto do Corpo de Bombeiros pelo trajeto de dez quilômetros até o Planalto. Pela segunda vez na história, realizou-se um velório no palácio presidencial. O primeiro foi o do presidente Tancredo Neves, em 1º de maio de 1985. Mais de oito mil pessoas compareceram à solenidade durante a quarta-feira. O ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff , vindos de uma viagem a Portugal, chegaram ao Palácio do Planalto às 21h25. Lula desabou em prantos ao ver o corpo do amigo. Deu um beijo na testa e depois afagou as mãos de seu vice-presidente. Dilma, serena, repetiu o gesto e tratou de confortar a esposa de Alencar. Cinco minutos depois da chegada, o secretário-geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa, iniciou o rito de recomendação de alma de Alencar. “Ele era impressionante”, lembrou dom Dimas. “Sempre dizia: ‘Não tenho medo da morte, a minha vida está nas mãos de Deus.’”
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DESPEDIDA
Lula e Dilma se emocionam em Portugal ao saber da morte do ex-vice-presidente
Na manhã da quinta-feira 31, o corpo de Alencar foi levado para Belo Horizonte.
O carro aberto, do acervo histórico do Corpo de Bombeiros, que transportou o esquife até o Palácio da Liberdade, antiga sede do governo mineiro, era o mesmo que levou o corpo do ex-presidente Tancredo Neves. Na praça da Liberdade, os moradores de um prédio modernista projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, com curvas sinuosas que remetem às montanhas de Minas Gerais, dependuraram no alto do 24º andar a mesma faixa negra que usaram como símbolo do luto por Tancredo. No salão principal do Palácio, uma das primeiras pessoas a se despedir do ex-vice-presidente foi o cozinheiro Alexandro Aparecido Carlos, 26 anos, que aguardava na fila desde as 6h30. “Estou aqui a pedido de minha mãe que também sofre de câncer e luta se inspirando no José Alencar”, contou ele. Pouco antes das 14h, o corpo de José Alencar foi levado para o Cemitério Renascer, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Três mil pessoas já haviam passado diante do caixão no palácio e outras três mil continuavam na praça para um último adeus.
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O PARCEIRO
Chegando de viagem a Portugal, Lula se despede de Alencar
O fato de José Alencar ter se tornado um mito nacional é um ponto a favor dos brasileiros. Sigmund Freud dizia que “os mitos são uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo”. Para o pai da psicanálise, eles representam para uma sociedade o que os sonhos representam para o indivíduo. Sendo assim, a imagem de Alencar – honesta, generosa, capaz e guerreira – depõe a favor da gente desta nação que a escolheu como símbolo. É lícito que, a partir de agora, os brasileiros se mirem naquele sorriso largo e franco de Alencar como se estivessem olhando um espelho.
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EM CASA
A última homenagem a José Alencar acontece no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte
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Como Montar uma Aula: Planejamento