domingo, 18 de setembro de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Ameaça skinhead

Depois do PCC, a polícia de São Paulo está diante de um de seus maiores desafios: como enfrentar o aumento das gangues violentas e organizadas ideologicamente

Flávio Costa
Assista à conversa do repórter Flávio Costa com o ex-skinhead e escritor David Vega :
thumbs_skinheads255.jpg
 

img4.jpg
INTOLERÂNCIA
Tatuagens skinheads no corpo de Lucas Rosseti, acusado de matar a facadas
Eugênio Bozola e Murilo Rezende da Silva (no detalhe) no crime da rua Oscar Freire
chamada.jpg
A polícia de São Paulo está diante de um desafio de dimensão e complexidade semelhantes à luta contra o Primeiro Comando da Capital, o PCC. Divididas em correntes que representam de maneira caricatural todas as matizes do espectro ideológico, gangues de skinheads se proliferam nos centros urbanos, tendo como alvo preferencial gays, negros, nordestinos e judeus. Nas últimas semanas, uma série de ataques com a marca dessa facção se impôs sobre a cidade, atordoando as forças policias, que tentam aprender a lidar com esses delinquentes que misturam violência com ideologia. “São grupos fechados e com normas rígidas de conduta capazes de matar ou morrer por uma ideologia, o que dificulta ainda mais o trabalho das autoridades de segurança pública”, afirma a antropóloga Adriana Dias, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (Leer-USP). 

Povoado por jovens de diferentes origens sociais, com idades que variam entre 15 e 28 anos, o mundo dos skinheads é um círculo vicioso de violência. Nos últimos dois anos, as brigas ficaram ainda mais acirradas com o aumento do número de integrantes de gangues que rejeitam o preconceito racial e a homofobia. Autointituladas anarquistas e comunistas, elas são inimigas de gangues de ideais neonazistas, ou de ideologia nacionalista e conservadora, como os Carecas do ABC. O caldeirão ferve porque todos se encontram nos mesmos lugares. O show da banda inglesa Cock Sparrer em uma casa noturna no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, no dia 3 de setembro, por exemplo, foi uma tragédia anunciada. Havia membros de pelo menos 20 facções antes do início do evento. Houve um violento confronto que fugiu ao controle da polícia presente ao local. Entre as dezenas de feridos, um morto, Johni Raoni Falcão Galanciak, 25 anos, golpeado com 20 facadas. Guilherme Losano Oliveira, o “Treze”, foi preso pelo crime. Atualmente ele está envolvido com neonazistas, segundo policiais, e foi amigo de Galanciak. A antropóloga Adriana considera as penas imputadas às gangues muito brandas. “A impunidade colabora para um ambiente de intolerância cada vez maior.”

Titular da Delegacia de Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância de São Paulo (Decradi), a delegada Margarette Barreto afirma que sua equipe já mapeou 25 gangues que agem de maneira violenta em São Paulo. O lugar mais recorrente dos conflitos é a rua Augusta, na zona central. Quase uma semana depois do confronto de Pinheiros, ISTOÉ apurou que skinheads foram acusados de cortar a garganta de um adolescente de 15 anos, membro da facção Carecas do Subúrbio, de orientação nacionalista. “Quando eu estava saindo da boate, eles me perseguiram e me cortaram com uma garrafa”, disse o jovem, que levou 12 pontos no pescoço.
img2.jpg
VIOLÊNCIA
David Vega (acima) escreveu um livro sobre suas experiências com neonazistas.
Guilherme “Treze” é preso pela polícia pelo assassinato do ex-amigo Johni Galanciak
img3.jpg
Outro caso característico do crime de ódio é o duplo assassinato do analista de sistemas Eugênio Bozola e do modelo Murilo Rezende da Silva, em um apartamento na rua Oscar Freire, no bairro dos Jardins, região nobre de São Paulo. O autor do crime, Lucas Rosseti, 21 anos, chegou a escrever em sua conta no Twitter que “estava infiltrado no mundo gay”, antes de cometer o assassinato no final do mês passado. As vítimas foram mortas a facadas no apartamento de Bozola, que hospedava o modelo e Rosseti. As fotos do corpo de Rosseti, feitas no dia da sua detenção, no dia 10, mostram tatuagens de símbolos ligados aos skinheads, como soco-inglês, caveiras e a bandeira nacional rodeada por machados. Agora, a polícia investiga se ele tem envolvimento com facções radicais.

Foram registrados também pelo menos quatro casos de agressão contra nordestinos e negros por skinheads nos últimos dois meses em São Paulo. E esse tipo de violência ideológica atinge outras capitais brasileiras. No dia 7 de setembro, neonazistas agrediram um casal homossexual na praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Distúrbios provocados por essas gangues foram anotados este ano no Recife e em cidades do Rio Grande do Sul. Mas há aqueles que querem dissociar o movimento do preconceito. Um protesto intitulado “Nazismo Nunca Mais”, organizado por “antifascistas” foi marcado para o sábado 17 na avenida Paulista, a fim de pontuar que há grupos contrários à violência. 

Violência conhecida de perto pelo estudante de sociologia, David Vega, 22 anos. Entre os 16 e 18, ele se envolveu com skinheads de orientação neonazista e participou de várias missões, entre elas xingar homossexuais e se envolver em arruaças. O apoio dos pais e a constante sensação de medo o fizeram se afastar das antigas amizades. “Você vive numa sociedade secreta, praticamente excluído do convívio social”, afirma. “Eles não se permitem questionar nada nem tentam entender o outro.” Da experiência restou um livro, “Cadarços Brancos” (Ed. Giostri). Os skinkeads apenas são democráticos quando o assunto é destilar seu ódio. A mais recente vítima foi a Miss Universo eleita no dia 12 de setembro em São Paulo, a angolana Leila Lopes, que se tornou alvo de injúrias raciais na internet. Em inglês e português, neonazistas expressaram sua revolta em fóruns contra a vitória de uma negra com xingamentos como “Filha de King Kong” e “Macaca”.
img.jpg
Skinheads_(C1)3.jpg

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Após década turbulenta, EUA questionam reação aos ataques

PUBLICIDADE
LUCIANA COELHO
DE WASHINGTON


É como se a névoa de pó e escombros que subiu naquela manhã de 11 de Setembro em Nova York encobrisse o país inteiro, e os segundos da queda das Torres Gêmeas ensurdecessem os Estados Unidos por dez anos.
Custou uma década, mas os tabus e as dúvidas que tomaram governo e sociedade com os atentados em Manhattan, no Pentágono e na Pensilvânia começam a se dissipar. O país de 11/9/2011 é mais cético que o de 12/9/2001.
Esse despertar é notado por gente da direita e da esquerda do espectro político, como Charles Kupchan, Robert Kagan e Joseph Nye; por ativistas desencantados e por uma população mais desconfiada do que ocorreu naquele dia e do que foi feito depois em nome dele.
O mundo é outro, sem dúvida, e a importância dos atentados já seria inegável mesmo que só para expor ao planeta --e revelar a si mesma-- as impotências daquela que reivindicou para si o termo superpotência.
Mas o quanto dessas transformações nasceu ali, e o quanto delas foi apenas catalisado pela tragédia --essa conta, em dez anos, mudou.

"O 11 de Setembro transformou a política externa americana por uma década, e só agora a forma de os EUA lidarem com o mundo está voltando ao normal", diz Charles Kupchan, pesquisador do Council on Foreign Relations.
"Quando examinarmos esse período o veremos mais como uma aberração histórica do que uma transformação histórica", afirma Kupchan, que integrou o Conselho de Segurança Nacional no governo Bill Clinton.
A ascensão chinesa já estava lá, bem como o avanço da América Latina (seja a emergência do Brasil, ou a onda de governos de esquerda) e a perda de peso político da aliada Europa.
Os EUA apenas demoraram a notá-los --vácuo hoje mais visto como acelerador, e não causador, do processo.
"Nunca me convenci da tese da apolaridade global, e não acho que a estrutura do sistema internacional tenha mudado tanto assim", afirma Robert Kagan, estrategista e colunista conservador que esteve no Departamento de Estado de Ronald Reagan.
"Às vezes, as pessoas, ao olharem para trás, veem um passado imaginário no qual os EUA podiam fazer tudo que quisessem, mas isso nunca existiu", completa.
Na alusão cabem os neoconservadores que dominaram os primeiros anos do governo de George W. Bush e desencadearam uma reação hoje amplamente vista como apressada e exagerada.
Não há consenso se esse lapso, no longo prazo, parirá um país mais introvertido ou mais aberto ao mundo.
Nesse espectro minúsculo de história, três pontos são dados como certos, por ora: o ápice do unilateralismo ficou em 2003, no Iraque; Barack Obama mudou a retórica, mas não corrigiu o rumo externo dos EUA; e são as limitações da crise econômica que ditarão o envolvimento americano no mundo.

DIREITOS CIVIS
Em dez anos, o que já se sabe ter sido afetado de forma duradoura é a maneira de os EUA se defenderem e tratarem suas vulnerabilidades.
Essa mudança de visão afetou o país em algo que o define: as liberdades civis, antes um paradigma social, cultural e político americano, foram afrouxadas.
Analistas alertam que isso prevalecerá --mais do que a radicalização política que costuma ser atribuída às divisões acirradas na última década, mas surgida antes.
O 11 de Setembro tornou os americanos mais lenientes ao atropelamento da Constituição pelo Executivo, à tortura, à supressão de direitos, à prisão sem acusação nem julgamento, a Guantánamo.
Tanta leniência culminou em desencanto, diz Medea Benjamin, uma das principais ativistas antiguerra dos EUA: "Passaram dez anos, e pouco conseguimos. As pessoas cansaram".
Mais pessimista é Michael Ratner, presidente do Centro para Justiça Criminal e defensor de parte dos detentos esquecidos em Guantánamo.
"Obama não mudou quase nada. Isso tornou a depravação da liberdade uma característica permanente de nosso sistema."


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/973771-apos-decada-turbulenta-eua-questionam-reacao-aos-ataques.shtml

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Enchentes no Vale do Itajaí

As enchentes em Itajaí pode atingir 80% da cidade e se equiparar com as enchentes de 2008. Vamos torcer para não se repetir.
Abaixo o link da defesa civil de Itajaí, Brusque e Blumenau.


Itajaí: http://defesacivil.itajai.sc.gov.br/


Brusque: http://www.brusque.sc.gov.br/web/noticias.php?cod=26&categoria=76


Blumenau: http://www.blumenau.sc.gov.br/defesa/boletimnivel.asp

Imagens da tarde de 08/09 em Itajaí

Imagens feitas dos rios em Itajaí nesta tarde por volta das 17:00 hs.





Comunicado

Univali suspende atividades letivas nos dias 08 e 09/09. Também suspenderam aulas a Rede estadual de ensino no Vale do Itajaí, Rede Municipal de Ensino de Itajaí, Colégio São José, Colégio Salesiano, Colégio Unificado e Curso Técnico Geração.

Situação das chuvas no Vale do Itajaí

O Vale do Itajaí está em estado de alerta. A Furb Universidade Regional de Blumenau suspendeu as atividades acadêmicas a partir das 12:00 hs desta quinta-feira 08/09.
No link seguinte você pode conferir a situação das barragens: http://www.deinfra.sc.gov.br/barragens/situacao-em-tempo-real/ 
Confira o boletim da defesa civil de Blumenau: http://www.blumenau.sc.gov.br/defesa/boletimnivel.asp
Mais informações no decorrer da tarde.

domingo, 4 de setembro de 2011

Notícia da Semana Atualidades


A política por trás dos atos ‘culturais’ dos estudantes chilenos

Para driblar a necessidade de autorização oficial para protestos, jovens promovem eventos de música, dança e teatro em que divulgam suas ideias

Cecília Araújo, de Santiago
Estudantes fazem "Corrida pela Educação" no palácio presidencial de La Moneda para exigir educação gratuita no Chile
Estudantes fazem "Corrida pela Educação" no palácio presidencial de La Moneda para exigir educação gratuita no Chile(Martin Bernetti / AFP)
Nas últimas semanas, toda vez em que se passa em frente ao palácio presidencial La Moneda, se escuta uma música alta. O estilo varia com o dia e o horário: pode ser pop, rock, jazz, metal, eletro. Caminhando pouco mais de um quarteirão em direção à sua origem, chega-se à Universidade do Chile. De lá, o barulho chega a incomodar os ouvidos pela altura. Na porta da universidade, se postam diariamente vários alunos ligados ao movimento estudantil e seus “colaboradores”: DJs, músicos, dançarinos, atores... Atualmente, apenas uma faculdade de todo o campus segue tendo aulas - os próprios alunos escolhem semanalmente se voltarão a estudar na semana seguinte, ou não. Na falta das aulas, os mais engajados optam pelo “voluntariado” em prol da “educação gratuita” e do “fim do lucro".

Entenda o caso


  1. • Em maio, estudantes chilenos tomaram as ruas do país para protestar contra a má qualidade do ensino - e as manifestações seguem ocorrendo quase que diariamente.
  2. • Entre as reivindicações, das quais recebem apoio da maioria da população, exigem principalmente educação gratuita.
  3. • Em resposta, o presidente, Sebastián Piñera, lançou um plano de reforma para o setor, que amplia bolsas de estudos e créditos a taxas baixas a alunos pobres, mas a proposta não foi bem recebida.
  4. • No dia 26 de agosto, os confrontos entre polícia e manifestantes causaram a primeira morte: um adolescente de 16 anos, que foi baleado durante a greve geral (quando centrais sindicais se uniram aos jovens).
Pelas ruas, pedem colaborações financeiras aos passantes para continuarem a divulgação de seus ideais – em grande parte utópicos. Com o dinheiro, promovem eventos: apresentações quase diárias de música, dança e teatro. Desses encontros, podem surgir surpreendentemente atos e marchas sobre o tema. “Há manifestações que acontecem do nada”, opina um deles. Mas a grande maioria deles é combinada previamente, principalmente pelas redes sociais.
Na tarde desta sexta-feira acontece um desses atos programados, desta vez por um “basta à violência contra a educação”, motivado pela noite violenta de 25 de agosto que terminou com a morte de um adolescente e dezenas de feridos. Como as manifestações tem que ser solicitadas e aprovadas pelo governo antes de serem realizadas, os estudantes usam desses atos - que não deixam de ser uma forma de protesto político, só que mais ameno - para divulgar os seus ideais. Esse é um ato pontual, que não foi feito em um lugar central da cidade para reunir muita gente, mas os organizadores acreditam que ações pontuais também ajudam a conscientizar as pessoas. “Decidimos fazer o nosso protesto no bairro Brasil, onde está o colégio, para fazermos nossa parte ao lado do movimento estudantil pelas melhorias na educação”, disse o professor da entidade docente do Chile (Colégio de Professores do Chile), Luis Vicente.
Mais cedo, houve uma marcha não aprovada pelo governo promovida pela Assembleia Coordenadora de Estudantes do Ensino Médio no Chile (Aces) para protestar contra a exclusão de seus representantes na primeira audiência com o presidente Sebástian Piñera, marcada para sábado às 10 horas da manhã. A manifestação, contudo, durou pouco mais de uma hora, contando com algumas poucas centenas de estudantes, e logo foi interrompida pela polícia.
Frequência - Na Universidade Católica, o cenário de mobilização se repete – embora menos drástico. Nesta semana, 16 das 33 faculdades já voltaram às aulas. Mesmo assim, além dos estudantes que estão de fato assistindo às classes, marcam presença diária na universidade também aqueles que organizam fóruns e debates sobre o sistema educacional, e outros que se aproveitam da mobilização para entreter-se ao lado dos outros colegas. São muitos os estudantes de escolas privadas que também se envolvem no movimento estudantil. Esteban Hermosilla, de 20 anos, estudante da faculdade privada Instituto Profissional do Chile, defende a representatividade desses alunos no movimento, que, segundo ele, até agora se focam somente em instituições que recebem aporte público. “Muitos estudantes com poucas condições acabam tendo que entrar em universidades privadas. Pedimos uma reforma que abranja também esses estudantes, para que possam requerer uma participação do estado em seus gastos”, defende.

domingo, 28 de agosto de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Battisti: A vida em liberdade

Com documento de identidade e CPF em mãos, o ex-terrorista italiano Cesare Battisti começa a viver fora da clandestinidade no litoral paulista

Por Luiza Villaméa Fotos Rafael Hupsel
chamada.jpg
REFÚGIO
Entre o mar e a Mata Atlântica, Battisti se hospeda na casa de um líder sindical
Debaixo da chuva fina e incessante, o italiano Cesare Battisti, 56 anos, caminha tranquilo pelas ruas de uma pequena cidade do litoral paulista. Usando uma jaqueta de couro emprestada pelo dirigente sindical Magno de Carvalho, 64 anos, Battisti esfrega as mãos vigorosamente enquanto fala sobre a região. “Aqui a Mata Atlântica está bem preservada”, diz. “E a pesca é farta, principalmente de tainha”. Depois de ficar mais de quatro anos atrás das grades e apenas dois dias em liberdade na capital paulista, Battisti passa boa parte do tempo caminhando pelas praias e matas das redondezas. Só reclama do frio, na marca dos 12oC na tarde da segunda-feira 22. “Nem pareço italiano”, diz. “Nunca gostei de frio.” Conhecido pelos moradores da cidade como o escritor italiano César – a versão em português de seu primeiro nome –, ele pretendia começar a vida em liberdade na capital paulista, onde chegou na manhã do dia 9 de junho, horas após deixar o presídio da Papuda, em Brasília. Com o prédio onde estava hospedado cercado por jornalistas e alvo de manifestantes contrários à sua permanência no Brasil, o ex-terrorista achou melhor deixar a cidade.
img.jpg
"A reação não foi da Itália, e sim de
um governo decadente e direitista"

Tarso Genro, ex-ministro da Justiça
Ainda sem documentos, instalou-se na casa de veraneio que Carvalho mantém há 14 anos e, de lá, começou a organizar seu futuro no País. Por meio de mensagens enviadas pelo computador, ele retoma contatos e trata de agradecer àqueles que foram levar-lhe apoio na cadeia. “O que vivi no Brasil foi surpreendente, supera a típica solidariedade política”, diz. “Pessoas que não me conheciam viajavam de todo o País para me visitar.” Embora uma extensa rede de apoio tenha, de fato, sido criada em torno de Battisti, sua não extradição para a Itália ainda provoca controvérsia. Há 30 anos, ele foi condenado à revelia em seu país de origem como autor de quatro homicídios, ocorridos nos anos 1970, sob a responsabilidade da organização Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). 

Antigo militante dos PAC, Battisti, que já havia sido condenado por subversão e participação em grupo armado, assume ações de assalto com armas, mas nega ter participado de operações que culminaram em mortes. “Eu já havia saído da organização quando ocorreram as mortes”, afirma. Depois de uma longa temporada no México e outra na França, ele entrou no Brasil clandestinamente em 2004, mas acabou preso três anos depois. Na sequência de uma longa batalha jurídica, que incluiu uma crise diplomática entre a Itália e o Brasil, em junho o Supremo Tribunal Federal julgou improcedente um recurso do governo italiano contra uma decisão do presidente da República no final do ano passado. À época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se recusou a extraditar Battisti, sob o argumento de que sua vida correria riscos na Itália, o que causou a ira do governo italiano.
img1.jpg
TENSÃO
O premier Silvio Berlusconi já avisou o Itamaraty que vai
recorrer ao Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda
 

img2.jpg
A primeira etapa da trajetória de Battisti como cidadão estrangeiro vivendo legalmente no País foi superada no dia 15 de agosto, quando ele recebeu a cédula provisória de estrangeiro emitida pelo Ministério da Justiça. Na semana passada, foi a vez de o italiano receber o número do CPF. Ainda esta semana, ele vai à capital paulista abrir uma conta bancária e se encontrar com seu editor, Evandro Martins Fontes, da Editora Martins Fontes. Seu mais recente livro, “Ao Pé do Muro”, está em fase de tradução – Battisti escreve em francês – e tem como tema os anos que passou preso no Brasil. Previsto para chegar às livrarias em dezembro, “Ao Pé do Muro” será lançado simultaneamente na França, pela Editora Flammarion. 

Battisti, que atualmente vive de recursos arrecadados por uma rede de apoio em diferentes países, acredita que em breve poderá se sustentar com os direitos autorais de suas obras, como fazia até 2007. Enquanto isso, ele planeja criar no País uma versão nacional da ONG Literatura Furiosa, fundada há duas décadas na França pelo brasileiro Luiz Rosas, 58 anos. Da cidade de Amiens, 120 quilômetros ao norte de Paris, onde mora, Rosas conta que o trabalho envolve o incentivo à leitura a analfabetos funcionais. Com verbas da União Europeia, a organização também desenvolve atividades em Portugal e na República Democrática do Congo, na África. “Sempre convidamos escritores para debates com os alunos”, diz Rosas. “Nos anos 1990, o escritor Cesare Battisti foi convidado pelo menos três vezes.” No ano passado, quando o italiano ainda estava preso, Rosas foi contatado por um antropólogo de Brasília, emissário de Battisti, que começou as tratativas para o projeto. Rosas se empolgou com a ideia, até mesmo pela perspectiva de retornar ao Rio de Janeiro, que deixou em 1973 e nunca mais voltou.
img3.jpg
NOVA FASE
O italiano ao deixar o presídio, autorizado a morar no Brasil
Do litoral paulista, Battisti usa o computador para se comunicar com o futuro parceiro de atividade cultural. No dia a dia, o italiano demonstra um certo comedimento para acionar o celular – não por temer escutas, mas para economizar os créditos. Em contrapartida, é generoso ao cozinhar para as pessoas que o visitam. Na maioria das vezes, prepara peixes comprados na praia, direto dos pescadores. Entre as visitas que recebeu no litoral paulista estão as filhas Valentina, 27 anos, e Charlène, 16, que vivem em Paris com a mãe, com quem Battisti foi casado. Elas passaram 15 dias na cidade. “Eles têm uma relação muito próxima, muito afetuosa”, diz o matemático argentino Carlos Lungarzo, 62 anos, da Anistia Internacional, que esteve com a família. Valentina, que é bióloga especializada em genética e está terminando o doutorado, começou inclusive a fazer planos para vir morar com o pai. Battisti, por sua vez, pensa até em se naturalizar brasileiro. Mesmo se não levar adiante a iniciativa, ele terá que viver no Brasil o resto da vida. Se deixar o País, corre o risco de ser preso e enfrentar um novo processo de extradição.

Em território na­cional, apesar da per­manência garantida pelo Supremo Tribunal Federal, Battisti enfrenta um grupo de brasileiros dispostos a protestar contra a sua presença no Brasil. Para as questões práticas do cotidiano, porém, não faltou apoio. “Ele teve várias ofertas de lugares para ficar quando fosse libertado”, diz Magno de Carvalho, diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp), dono da casa na qual Battisti passa os dias organizando o futuro. “O Cesare se integrou tão bem na cidade que já ganhou presentes dos moradores, como carnes de caça e peixes.” Carvalho conheceu o italiano ao visitá-lo no presídio de Brasília como representante da Conlutas, a central à qual o Sintusp está filiado.
img4.jpg
VIDA REAL
Ainda esta semana Battisti quer abrir uma conta bancária em São Paulo
O dirigente sindical é um dos muitos brasileiros da extensa lista que Battisti pretende agradecer por se posicionar a seu favor na disputa com a Itália. O rol, segundo Battisti, é liderado pelo atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que, em janeiro de 2009, como ministro da Justiça, concedeu-lhe o status de refugiado político. Na batalha jurídica que permeou o processo, a condição foi posteriormente cassada pelo Supremo. Lembrando que o refúgio político foi concedido com base em decisões anteriores do próprio Supremo, Genro afirmou à ISTOÉ que, sim, receberia Battisti, e que valeu a pena comprar a briga: “Ganhou a democracia.” Para Genro, a reação do governo italiano no decorrer do processo não reflete a posição de todo o país. “A reação não foi da Itália, e sim de um governo decadente e direitista, que tem fortes acusações contra si. Escolheram uma bandeira para tentar uma falsa articulação política nacionalista. Não deu certo”, disse o governador. Suas expectativas em relação a Battisti em liberdade também são muito claras: “Que ele seja um cidadão digno, trabalhe, escreva e respeite o nosso país.”
g.jpg
g1.jpg
g2.jpg
g3.jpg
Fonte:http://www.istoe.com.br/reportagens/154793_BATTISTI+A+VIDA+EM+LIBERDADE?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage


Ver também sobre política no Brasil: http://www.istoe.com.br/reportagens/154942_IDELI+O+ASSESSOR+E+AS+ONGS?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Como Montar uma Aula: Planejamento