terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Capítulos da História de Itajaí, ou O que a memória não guardou (escravidão)
Ao percorrer o cotidiano de Itajaí na segunda metade do
século XIX, nos deparamos com alguns silêncios, insistentes que persistem em
forjar uma memória ausente de afrodescendentes e da presença de escravos em
Itajaí. Mas, ao lançar a lupa sobre o papel, pois, sem lupa, é difícil decifrar os
documentos quase desbotado pelo tempo e pelo indizível, ou seja, o não dito, se
esvai da memória coletiva, esvaziando da história da cidade a vivência da escravidão,
inscrita na cidade como em 04 de julho de 1863, quando Jacintho José Duarte
vendeu por um conto de reis a Bento Malaquias da Silva sua escrava de nome
Vitorina. A partir daqui podemos nos perguntar acerca da trajetória de
Vitorina, qual foi seu destino quando da compra de Bento Malaquias. Seria Vitorina
comprada para assumir as funções de cozinha? Para cuidar dos filhos de Bento
Malaquias? Poderíamos encontrar Vitorina com uma trouxa de roupas sobre a
cabeça, dirigindo-se a fonte ou ao rio para lavar as roupas da família
Malaquias? Não podemos precisar.
No entanto, essas pistas vão revelando uma cidade onde a
presença de escravos no cotidiano se fazia nas décadas que antecederam a
abolição. Como em 17 de agosto de 1865, quando aportou em Itajaí o patacho (embarcação
com dois mastros) Alice, com destino a desterro (atual Florianópolis). Do navio
desembarcou seu capitão em companhia do escravo Adão, que foi recolhido a
cadeia pública da cidade aguardando seu dono vir busca-lo. Adão chegou a Itajaí
proveniente do Rio de janeiro na época capital do império, suscitando outras
questões, escravos chegavam a Santa Catarina vindos do sudeste, São Paulo ou
Rio de Janeiro? Adão teria desembarcado no Rio de Janeiro oriundo do continente
africano? São questões que suscitam uma investigação mais apurada acerca do
destino de escravos que desembarcaram em Santa Catarina na segunda Metade do
século XIX.
Nos últimos anos da escravidão, encontramos fatos no mínimo curioso,
em Itajaí se encontrava a junta de classificação de escravos, onde os escravos
da região eram registrados. Em 1882, Bernardino da Silva Ramos recebeu uma intimação
assinada por Guilherme Asseburg, presidente da Junta de Classificação de
escravos para dar testemunho de um pecúlio (poupança) que sua escrava Anna
teria em mãos de um particular. Isso aponta caminhos interessantes, Anna
deveria trabalhar com alguma atividade de ganho na cidade, pois, tinha acesso a
dinheiro que conseguiu guardar. Estaria ela guardando dinheiro para comparar
sua liberdade? Ou apenas confiou o dinheiro a alguém de sua confiança, apenas
para deixar o dinheiro longe das vistas de Bernardino da Silva Ramos?
Esses casos apontam um cotidiano da cidade onde a presença
da escravidão nutriu a dinâmica da cidade, apontando a presença e a atividades
de escravos na vida urbana. Cabe ainda mergulhar nessas histórias ainda por
serem contadas, para descortinar histórias enclausuradas no silêncio.
Ver:
Documentação encontrada no centro de Documentação e Memória
Histórica de Itajaí.
Fundo do cartório de Registro de Imóveis 1º Ofício de
Itajaí, Livro 03, caixa 01, 1860-1865.
Processo
n° 168, de 1865, que se encontra no fundo judiciário do século XIX.
Fundo da câmara Municipal de Itajaí,
correspondências expedidas, caixa 01, 1882.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Museu da Cultura Italiana - Nova Trento - Santa Catarina
Entre a fé e a cultura de vinhedos, Nova Trento no interior de Santa Catarina, mantém características oriundas dos colonizadores vindos da região do Trentino, percebidos na culinária e na cultura local. Vale ressaltar o Museu da Cultura Italiana.
O museu conta com acervo de duas famílias da cidade, com acervo diversificado, procura dar mostras da cultura cotidiana da cidade, produzindo um sentido para cidade, indagando o passado como ponto de partida para ler a cidade. Agricultura, religiosidade e vida cotidiana são artefatos para narrar a cultura dos trentinos e seus descendentes, sem estabelecer um marco fundante. O museu é um bom refúgio para quem visita a cidade.
Engenho movido a roda d'água no museu
domingo, 28 de dezembro de 2014
Capítulos da História de Itajaí ou "o que a memória não guardou"
Olhar a cidade pela janela de minha casa suscita imaginar
as escrituras do espaço urbano, as dimensões físicas e mesmo imagináveis da
cidade, como nos foi apresentado por Ítalo Calvino. Dentro
de sua concretude o urbano desenha campos de memórias submersas, aguardando um
toque de curiosidade, provocar um atrito, uma certa ressonância nas teias da
memória para que o anjo de Paul Klee, se faça História e possa olhar outros campos de lutas e representações da história.
Nessas lutas de representações no campo da escrita
histórica, nos deparamos com silêncios provenientes da maneira como a cidade e
suas vias ganham uma narrativa, procurando dar um sentido a cidade e a sua
História. Ao se tornar palco de uma narrativa simbólica através das ruas e
monumentos a cidade ganha os contornos de uma luta de representações, onde o indizível,
o não dito ecoa num silêncio atordoante, mesmo quando dito.
Itajaí não se exime desse processo de nomeações e
representações do espaço urbano. Suas ruas renomeadas após a implementação da República
no final do século XIX, ruas como Conde D’Eu, (rebatizada como Lauro Müller),
Pedro II, transformada em XV de novembro, rua Vitória (nome dado devido a
Guerra do Paraguai), tornou-se rua Felipe Schimidt.
Uma narrativa republicana, instituiu uma nomeação para a
cidade, produzindo um discurso em concordância com os preceitos políticos e de
poder instituídos a partir daquele momento. Essa narrativa constituiu uma
narrativa do silêncio, falas passaram a serem ditas apenas numa superfície fina
e escorregadia afim de não pronunciar outras falas.
Procurando riscar o verniz dessa fina superfície, eis um
elemento interessante da História de Itajaí, a rua Pedro Ferreira, no período
imperial chegou a se chamar rua do comércio, Itajaí nasce entre as ruas Pedro
Ferreira, Lauro Müller e Hercílio Luz formando um T. A partir dessas ruas, o
comércio ligado a atividade portuária se fez principalmente a partir da segunda
metade do século XIX.
Voltamos
então a rua Pedro Ferreira, qual motivo levou a rua do comércio ser rebatizada
com o nome de Pedro Ferreira? O que ele representou para cidade? a chegada do Dr. Pedro Ferreira e Silva,
nascido em 1861 na Vila de Sant’Anna do Catú, na Bahia, que estudou medicina na faculdade da Bahia, graduando-se
em 1885 e transferindo-se para Itajaí em 1886.
Diploma
de Pedro Ferreira e Silva. Centro de Documentação e Memória Histórica de
Itajaí.
A chegada desse jovem
médico a Itajaí provocou um deslocamento na maneira de olhar a cidade, pois era
proveniente de uma escola de medicina com prestígio reconhecido em todo o país
e com forte influência nas discussões acerca da saúde pública entre a década de
80 e 90 do século XIX. Da faculdade baiana saíram intelectuais como Nina
Rodrigues e Afrânio Peixoto, que vão incorporar as discussões da medicina legal
com uma tônica para a eugenia.
A presença do Dr. Pedro
Ferreira constitui-se em um diálogo com as discussões intelectuais de outras
regiões, que não só do Rio de Janeiro, cidade irradiadora das discussões acerca
da modernidade.
Aqui se percebe desencadear práticas
discursivas imbricadas aos investimentos destinados à constituição de novos
espaços de sociabilidade, a novos códigos de conduta e comportamento no espaço
urbano. Provavelmente Pedro Ferreira e Lauro Müller mantinham contato. Pedro
Ferreira ocupou a Presidência da Câmara de Vereadores enquanto Lauro Müller era
Senador da República; em 1904, Pedro Ferreira é Superintendente Municipal e
Lauro era responsável pela reforma do porto do Rio.
Observamos aqui o estatuto de homem de ciência
implícito em Pedro Ferreira e Silva, tornando-o figura pública na cidade,
constituindo-se em Itajaí um contato importante do PRC (partido republicano
catarinense) com Felipe Schmidt (Primo de Lauro Müller) e Lauro Müller, que nas
primeiras décadas do século XX, teve importante participação política na
implantação da República. Pedro Ferreira e Silva foi sócio
fundador do IHGB/SC em 1896, foi deputado estadual e Superintendente de Itajaí.
A emergência intelectual de Pedro
Ferreira e Silva, tornou invisível o fato de se tratar de um intelectual
formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, responsável juntamente com a
Faculdade de direito do Recife (Pernambuco), pela formação de vários
intelectuais, formadores de uma “intelligentsia” brasileira, espalhando-se por
várias regiões do Brasil. Colocando a região Nordeste como grande centro
produtor intelectual e cultural entre a segunda metade do século XIX e durante
grande parte do século XX.
Outro elemento silenciado, Pedro
Ferreira e Silva era afrodescendente, o que na história local passou a “vistas
grossas”. A foto de Pedro Ferreira mais exposta é de aproximadamente de 1910,
um ano antes de sua partida terrena, fica perceptível o processo de
branqueamento realizado na fotografia, para deixa-lo mais próximo do que se
desejava na época em termos de “estética intelectual” para a elite branca.
Pedro Ferreira e Silva em
1888 e 1910.
Pedro Ferreira, foi mais um dos
intelectuais a ser negligenciado, ou, “branqueado” para responder a uma
narrativa histórica desejada, dar sentido a uma narrativa uniforme, sem
divergências ou diferenças. No entanto, nos descaminhos da História, memórias e
dizeres são pronunciados, cabe ao historiador buscar “o que a memória não
guardou”.
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