domingo, 18 de agosto de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Crise no Egito)

Democracia em queda livre

Massacre de apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi deixa um rastro de destruição e violência no Egito. A volta da ditadura nunca pareceu uma ameaça tão real

Mariana Queiroz Barboza
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ATAQUE E DEFESA 
Repórteres correm durante ofensiva militar contra acampamento
da Irmandade Muçulmana. Dois jornalistas morreram
Há menos de dois meses, no dia 3 de julho, uma festa levou milhares de egípcios às ruas do Cairo para comemorar a deposição do presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, sob um céu decorado com fogos de artifício. A surpreendente celebração do golpe militar, porém, não intimidou os apoiadores do antigo presidente. Na semana passada, diante do aumento dos protestos que pediam o retorno de Mursi ao poder, os militares decidiram agir – e o que se viu foram chocantes cenas de barbárie. Os corpos envolvidos por lençóis manchados de sangue mostravam que o caminho que levaria o Egito à democracia definitivamente não era aquele que o Exército, encabeçado pelo general Abdul Fattah al-Sisi, seguia. O massacre começou na quarta-feira 14, pouco depois do nascer do sol. Primeiro, a ofensiva militar atacou um grupo reunido na Praça al-Nahda, próxima à Universidade do Cairo. A investida resultou em 87 mortos. Depois, a mesquita de Rabia al-Adawiya, no distrito de Nasr City, foi cercada por tropas no solo e no ar. Na ação pereceram 202 pessoas. Tudo transmitido ao vivo pela tevê. Até a sexta-feira 16, o saldo de mortos, segundo o ministro da Saúde, era de 638. Extraoficialmente, dizia-se que a estimativa era tímida. A contagem deve aumentar nos próximos dias.
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RESISTÊNCIA 
Carro da polícia é empurrado de ponte por manifestantes islamitas no Cairo
A situação forçou o vice-presidente do Egito, Mohamed ElBaradei, premiado com o Nobel da Paz em 2005, a renunciar. “Ficou difícil, para mim, segurar a responsabilidade por decisões com as quais não concordo e cujas consequências eu temo”, declarou. ElBaradei foi muito criticado por ter apoiado a deposição de Mursi e aceitado compor um governo endossado pelos militares, responsáveis por 60 anos de ditadura no país. Depois do golpe, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou o uso da força pelo governo e cancelou exercícios militares conjuntos entre os dois países, aliados históricos, mas não cortou a ajuda financeira anual de US$ 1,3 bilhão. Na sexta-feira 16, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas fez uma reunião de emergência, em que pediu pela “máxima contenção” entre as partes. O presidente interino Adli Mansour decretou estado de emergência, fechou bancos, interrompeu os serviços de trem e impôs toque de recolher em várias cidades, paralisando a já combalida economia egípcia. A General Motors fechou as operações no país por tempo indeterminado por causa da violência que se espalhou para além da capital, em cidades como Alexandria, Gizé e Suez. Militantes islâmicos bloquearam estradas que circundam Cairo e depredaram igrejas cristãs, prédios do governo e postos de guarda. A situação se agravou quando o ministro do Interior disse que as forças de segurança estavam autorizadas a usar armas letais para se proteger – segundo ele, ao menos, 43 oficiais morreram.
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O CHEFE 
Abdul Fattah al-Sisi, general das Forças Armadas: o Exército, responsável
por 60 anos de ditadura no Egito, está cada vez mais poderoso
Desde que Mursi foi deposto num contexto de caos econômico e crescente autoritarismo, os membros da Irmandade Muçulmana têm sido perseguidos. O grupo político-religioso, que surgiu em 1928 e demonstrou sua força política ao vencer as eleições presidenciais e legislativas de 2012, atua em diversos extratos sociais e mantém forte influência junto a uma boa parcela da população. Mas, na contramão da via democrática, seus líderes prometeram resistência ao novo governo e convocaram mais protestos, num discurso que enaltece os mártires. “O embate entre o Estado do Egito e o ‘Estado paralelo’ da Irmandade Muçulmana alcançou uma fase existencial em que, para um sobreviver, o outro precisa ir embora, ao menos ideológica e organizacionalmente”, disse Wael Nawara, escritor e ativista egípcio, em artigo ao site Al-Monitor. Nawara argumenta que, desde a queda do ditador Hosni Mubarak, houve vários pequenos acampamentos na Praça Tahrir e em outros pontos do Cairo sem que isso desencadeasse violência. Mas os campos de Rabia al-Adawiya e al-Nahda foram o estopim da briga entre dois Estados que, há 85 anos, tentam governar o mesmo povo, na mesma terra. “A Irmandade chegou a um ponto em que considera esta a sua última batalha, então é vencê-la ou morrer como mártir”, declarou Nawara.
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VÍTIMAS
Familiares choram diante de corpos enfileirados na mesquita 
de El-Iman, no Cairo. Ao menos, 638 civis foram mortos
 
O acirramento da disputa entre os dois lados compromete o restabelecimento do processo democrático, como querem os egípcios que marcharam contra o regime de Mubarak na Primavera Árabe, e joga o país num longo período de escuridão. “Transições democráticas, mesmo nas melhores circunstâncias, são assuntos difíceis e dolorosos”, disse, em relatório, Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Instituto Brookings em Doha, no Qatar. “Mas já não faz mais sentido dizer que o Egito está nessa transição.” Segundo o especialista, as Forças Armadas e outros braços do Estado se tornaram instituições explicitamente partidárias, o que só aprofunda o conflito num país extremamente polarizado. Isso justificaria uma guerra permanente contra inimigos internos e externos. “Não há motivo para estar surpreso, porque é assim que um golpe militar se parece”, escreveu Hamid.
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Fotos: ©AP Photo/Aly Hazzaa; epa/Mosaab Elshamy; reuters/stringer
Foto: AP Photo/Khalil Hamra
*Até a quinta-feira 14 Fontes: Ministério da Saúde e Ministério do Interior do Egito

domingo, 11 de agosto de 2013

Notícia da Semana Atualidades (O Caso Marcelo)

O mistério de Marcelo

Todas as respostas para a chacina da família de policiais, que estarreceu o País, convergem para as últimas horas de vida do adolescente de 13 anos

Natália Mestre e Monique Oliveira
Pai, mãe, filho, avó, tia-avó. Todos mortos com tiros na cabeça entre a noite do domingo 4 e a madrugada da segunda-feira 5, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. Os donos da casa eram policiais experientes, sendo o pai sargento da Rota, batalhão de elite da Polícia Militar. Nada foi roubado do local, o que compôs um cenário envolto em mistério. Todas as respostas para essa tragédia que estarreceu o País na semana passada convergem para o adolescente Marcelo Pesseghini, de 13 anos, o último a morrer. Segundo a polícia, ele seria o autor dos quatro crimes executados com tiros precisos e teria se suicidado após voltar da escola e cair em si. Para outros, ele foi a quinta vítima dessa chacina que dizimou uma amorosa família de classe média, que se dividia em duas casas no número 42 da rua Dom Sebastião – na da esquerda, a maior, moravam Luís Marcelo Pesseghini, 40 anos, a esposa Andréia Regina Bovo Pesseghini, 36 anos, cabo do 18º Batalhão, e o filho, Marcelo. Na do lado, Benedita de Oliveira Bovo, 67 anos e Bernadete Oliveira da Silva, 55, mãe e tia de Andréia, respectivamente – e passava os finais de semana entre churrascos no quintal e viagens ao sítio de Rio Claro, no interior paulista.
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FAMÍLIA
Andréia e Luís Marcelo com o filho, Marcelo, em 2010: o menino
queria ser policial, como eles, e costumava visitar o batalhão do pai.
Um PM amigo da família disse à polícia que o garoto sabia atirar
Diante dessa tragédia ainda cheia de interrogações, existem dois cenários. No primeiro deles, de acordo com a polícia civil, Marcelo matou os parentes entre a noite de domingo e a madrugada de segunda, pegou o carro da mãe, um Corsa Classic, dirigiu até a escola e passou a madrugada dentro do veículo. Pela manhã, ele frequentou as aulas normalmente e voltou de carona para casa com o pai do seu melhor amigo. Chegando lá, teria se matado. Segundo a perícia, todos os tiros saíram da mesma arma, a pistola .40 que pertencia a Andréia e foi encontrada na mão esquerda do garoto, que estava com o dedo no gatilho. Imagens da câmera de segurança de um prédio que fica na mesma rua do Stella Rodrigues, colégio particular na Freguesia do Ó, são fortes indícios para a polícia. Os registros mostraram, por volta da 1h25, um carro estacionando. Depois, em torno das 6h23, um garoto desce, coloca a mochila nas costas e segue em direção à escola. É Marcelo, na versão dos investigadores. Um par de luvas foi encontrado no automóvel. Perícias feitas nas duas casas também encontraram outras três armas intactas que pertenciam à Andréia e não identificaram registros de arrombamentos.
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Segundo o delegado do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Itagiba Franco, responsável pelas investigações, o fato de os armamentos não terem sido roubados afasta ainda mais a hipótese de ação do crime organizado, levantada inicialmente. Também foram encontradas receitas de remédios para dormir na casa de Benedita e Bernadete, o que ajudaria a entender por que as duas não ouviram os tiros e ameaçaram alguma reação – de acordo com a polícia, Luís Marcelo teria sido o primeiro a morrer, seguido da mulher, da avó e da tia. Familiares confirmaram que Bernadete sofria de depressão, tomava remédios e, inclusive, estava morando com a irmã por causa da doença. O depoimento do melhor amigo de Marcelo, também de 13 anos, foi decisivo para reforçar a suspeita de crime familiar. “Ele tinha o plano de matar os pais durante a noite, quando ninguém soubesse, fugir com o carro deles, ser matador de aluguel e morar em um lugar abandonado”, teria dito o amigo à polícia. O pai desse adolescente, que deu carona para Marcelo, contou, também em depoimento, que antes de sair, o garoto avistou o carro da mãe. Ele foi até o veículo, pegou um objeto e o colocou na bolsa. “Pode ser a arma, mas não sabemos”, disse Itagiba.
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DINÂMICA DO CRIME 
A casa dos Pesseghini, na Vila Brasilândia, em São Paulo: perícia
irá determinar horário das mortes e se vítimas estavam dopadas
Ainda segundo a polícia, no quarto de Marcelo havia diversas armas de brinquedo. Na mochila da escola, um revólver 32, uma faca, rolos de papel higiênico e mudas de roupa. Uma das professoras afirmou aos investigadores que Marcelo havia perguntado “se ela sabia dirigir quando era criança” e “se havia atingido de alguma forma os pais”. Para outra, o menino contou que já tinha dirigido um buggy. Em depoimento na quinta-feira 8, o policial militar João Batista da Silva Neto, vizinho da família, afirmou que o menino havia aprendido a atirar com os próprios pais e frequentava aulas de tiro em um estande na zona sul da capital paulista. O delegado ainda citou que Marcelo tinha 1,60 m e não era um garoto franzino, apontando que ele tinha condição de manipular a arma.
Se a polícia conduz sua investigação na direção do filho dos policiais, especialistas garantem que, para Marcelo ser realmente o assassino, ele teria que demonstrar distúrbios de comportamento e traços de psicopatia muito evidentes. “É muito difícil que um menino de 13 anos tenha orquestrado uma chacina com esse grau de refinamento sem um transtorno de conduta”, afirma Priscila Gasparini Fernandes, psicanalista infantil com especialização em suicídio. Dentro dessa hipótese, o cenário que se tem é de um menino doente, que tomava muitos remédios e era cercado de cuidados, portador de fibrose cística, doença genética grave que afeta o funcionamento de secreções do corpo, levando a problemas nos pulmões e no sistema digestivo, além de diabético. Segundo relatos, Marcelinho, como era chamado, era um garoto tímido e de poucos amigos que passava horas jogando videogame, especialmente o violento “Assassin’s Creed”. A combinação explosiva entre jogos violentos (leia à pag. 70) e o convívio em um ambiente familiar de policiais, onde relatos de mortes, prisões e perseguições poderiam fazer parte do dia a dia e contribuir para formar uma cultura de violência, pode ter sido fatal. O adolescente não cansava de falar que admirava o trabalho de seus pais. A vizinha Elisa Rosa, 84 anos, que mora em frente à casa da família Pesseghini, garante que os pais permitiam, inclusive, que o adolescente fizesse pequenos percursos ao volante e depois estacionasse o carro na garagem. “Ele sabia dirigir e adorava ficar no portão com uma arma de brinquedo, fingindo que atirava nas pessoas.”
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No segundo cenário, Marcelinho passa de algoz a vítima. “Esse crime, do jeito que está descrito, crava que o menino era um manipulador”, afirma Dalka Ferreira, do Centro de Referência às Vítimas de Violência do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. “Para isso, a criança deveria apresentar uma relação conflitante com os pais e traços de frieza.” Ao contrário, familiares e amigos descrevem Marcelinho como um garoto amável e ligado à família. Era comum vê-lo com a avó ou com os animais da casa, um labrador preto e dois gatos, sempre muito afável e sem motivo algum para cometer tamanha barbárie – motivo esse que, até agora, a polícia também não encontrou. “Estamos todos em choque. Eles eram uma família muito feliz, nunca vi uma briga ou discussão”, diz Edineide Ferreira, balconista de 36 anos e amiga de Andréia. Os vizinhos são unânimes em classificar a avó, chamada carinhosamente de dona Benê, como uma mulher muito prestativa, sorridente e apaixonada pelo neto. “Eu sempre via os dois brincando no quintal”, afirma Severino José da Silva, 76 anos.
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MANHÃ DE 5 DE AGOSTO 
Imagem de Marcelo (à esq.) após sair do carro Corsa Classic (acima)
que ficou estacionado perto da escola onde ele estudava
O empresário Sebastião de Oliveira Costa, tio de Andréia, reforça que Marcelo não tinha nenhum traço de agressividade, pelo contrário, era um bom garoto, sempre tranquilo. “Visitava a família a cada 15 dias. Chegava lá, o Marcelinho vinha correndo, me pedia a bênção, e voltava brincar. Não vou sossegar enquanto não descobrir o autor dos crimes”, diz. Ele acredita que a família tenha sido vítima de algum tipo de retaliação, possibilidade que ganhou força quando o comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, coronel Wagner Dimas, afirmou em entrevistas que Andréia Pesseghini havia colaborado com informações para uma investigação contra colegas que participavam de roubos de caixas eletrônicos. Em depoimento na Corregedoria da PM, porém, o coronel voltou atrás. Em nota, a escola em que o adolescente estudava desde os 5 anos definiu Marcelo como “um garoto dócil, alegre, com boas relações com os colegas e o corpo docente do colégio e que sempre alcançou um bom rendimento pedagógico, apresentando comportamento e atitudes normais”. Uma das professoras que deu aula para Marcelo no seu último dia, Ana Paula Alegre, publicou seu lamento em uma rede social. “Dei aula para ele hoje. Conversei, brinquei, dei risada. Dei um abraço tão gostoso, e agora acabou.”
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O derradeiro domingo em família começou normal. Segundo a vizinha Rosemari, no domingo 4, por volta de meio-dia, o adolescente saiu de carro com os pais para almoçar no shopping. Já durante a tarde, a família recebeu a visita do tenente da Polícia Militar César Bovo, irmão de Andréia. O que aconteceu depois ainda está envolto em mistério. Fundamentais para elucidar os fatos, os laudos do IML, que determinam a hora das mortes, de balística e toxicológicos só devem sair no início de setembro. 

sábado, 3 de agosto de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Papa Francisco no Brasil)

Os caminhos de Francisco no Brasil

ISTOÉ teve acesso ao aposento franciscano que o papa ocupará no Rio de Janeiro e mostra como será sua rotina no País, o cardápio preparado pela chef que já atendeu Madonna e o superesquema de segurança

Mariana Brugger e Tâmara Menezes
O papa Francisco chega ao Brasil na segunda-feira 22, para dar início à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), mais franciscano do que nunca. Pelo menos é isso o que revelam os aposentos que ocupará durante os seis dias que permanecerá no Brasil. Na quinta-feira 11, ISTOÉ visitou o quarto número cinco, no primeiro andar da Residência Assunção, o casarão colonial que abriga os arcebispos do Rio de Janeiro e que será temporariamente a morada do pontífice. A simplicidade impera. Nas paredes de cor creme, a única decoração é um crucifixo de madeira sobre uma cama de solteiro sem cabeceira, com apenas um travesseiro. Não há tapetes, o piso é de tacos de madeira e cortinas de voil branco filtram a luz proveniente de três janelões que se abrem para a Mata Atlântica. Além da cama, uma cadeira de balanço, um pequeno frigobar e uma escrivaninha compõem o mobiliário do aposento de Francisco. Os lençóis e toalhas têm bordados o brasão da Arquidiocese, já que o papa dispensou o símbolo do Vaticano. O banheiro de aproximadamente quatro metros quadrados foi reformado recentemente. Ganhou acabamento com porcelanato branco e uma ducha de aço inox. As orações serão feitas na Capela Nossa Senhora de Assunção, a cerca de cinco metros do dormitório. As refeições serão em conjunto com os 30 cardeais que estarão hospedados em um prédio anexo, num refeitório com 120 lugares e louças de porcelana branca, também com o brasão da Arquidiocese.
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SIMPLICIDADE
O quarto onde ficará o papa Francisco, na Residência Assunção não possui tapete,
as paredes são decoradas apenas com um crucifixo e está a cinco metros da capela
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Defensor de uma Igreja mais humilde, o papa Francisco dá o exemplo reduzindo ao máximo os custos de sua estadia no Brasil, para o megaevento católico que reunirá cerca de 2,5 milhões de fiéis. Para a missa que encerra a JMJ, por exemplo, pediu apenas água. Nos dias em que ficará hospedado na Residência Assunção, Francisco determinou que fosse providenciado um cardápio bem simples. Será atendido pela irmã Terezinha Fernandes, encarregada da cozinha, que servirá arroz e feijão, pão de queijo, churrasco e doce de leite ao pontífice. Na mesma linha, o artista sacro Cláudio Pastro criou cálices em latão, apenas com banho de prata na parte externa e uma fina camada de ouro na interna, como manda o protocolo católico. Uma peça muito mais modesta do que as que costumavam usar os papas que o antecederam.
Para chegar à Residência Assunção, o papa passará pela estrada que é também um dos acessos ao Cristo Redentor, ponto turístico que Francisco verá do helicóptero, no sábado 27, durante um dos trajetos da JMJ. Embora não tenha pedido, o papa, de 76 anos, terá um cardiologista presente em todos os seus compromissos. Será o pernambucano Roberto Hugo, que já adianta o diagnóstico: “Talvez ele seja o mais saudável da comitiva que o acompanha.”
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POCELANA
A louça que o papa usará tem o brasão da
Arquidiocese do Rio, e não do Vaticano
A mensagem que o Papa divulgará durante a JMJ, acreditam religiosos e estudiosos ouvidos por ISTOÉ, deverá ser um apelo para que os jovens valorizem menos as coisas materiais e fortaleçam os laços espirituais. O jornal espanhol “El País” noticiou que Francisco vai falar sobre as manifestações que estão acontecendo em todo o Brasil e afirmará que as “demandas levantadas por maior justiça não contradizem o Evangelho”. O arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, também presidente do Comitê Organizador Local (COL) da JMJ, disse à ISTOÉ que não sabe se os protestos estarão ou não no discurso papal, mas como a CNBB se posicionou de forma favorável às manifestações, o santo padre deverá seguir o mesmo caminho. “Ele tem uma preocupação social, quer uma vida melhor para as pessoas, e deve falar sobre isso nos discursos”, acredita. Mais convicto, o padre Luís Correa, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio e jesuíta, da mesma ordem de Francisco, lembra que “o papa já disse em outras ocasiões que o cristão tem que se meter na política, não pode lavar suas mãos.” A proximidade entre argentinos e brasileiros também pode ser explorada. “Somos países de injustiças, que passaram por regimes de exceção, que querem uma Igreja voltada para o despojamento”, afirma dom Sérgio Castriani, arcebispo de Manaus, que esteve com o papa recentemente. Partiu de Francisco a vontade de visitar favelas e se encontrar com menores infratores. Por isso, sua agenda inclui a comunidade Varginha, em Manguinhos, que recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) recentemente, e conversas com internos do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas.
O papa, já famoso por quebrar protocolos, é uma preocupação da segurança. “Tudo foi feito em contato com o Vaticano”, conta José Monteiro, diretor de operações da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), ligada ao Ministério da Justiça. Além dos agentes deslocados para a cidade, a Marinha e o Exército também cuidarão de pontos estratégicos, como a orla do Rio, a Baía de Guanabara e a Baía de Sepetiba. Equipes especiais treinadas em combater terrorismo e  atentados de ordem nuclear, biológica, química e radiológica integram o gigantesco esquema (leia quadro ao lado).
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CARDÁPIO
A chef Monique Benoliel, que atendeu Madonna, vai oferecer
ao papa queijo coalho e vinho Salton Talento 2007
A postura carismática do papa Francisco inspirou alguns mimos que são quase desobediências. “O papa é o meu chefe, mas imagina se eu vou servir só água para ele! Sou simples também, mas quero mostrar que a culinária brasileira é a melhor do mundo”, conta a chef Monique Benoliel, responsável pelo bufê que servirá os aposentos do pontífice no dia da missa, no domingo 28, em Guaratiba. No cardápio, vai entrar brigadeiros, bobó de camarão, espetinho de queijo coalho, doce de abóbora com coco e sucos de frutas 100% nacionais. Monique, que é judia, é chef requisitada de grandes eventos, como o Rock in Rio – e dela pode-se dizer que já serviu do sagrado ao profano. “Atendi, por exemplo, a Madonna”, diz, em referência a uma artista que vive às turras com a Igreja. Como todo bom cristão, Francisco aprecia vinho tinto. Aqui, ele e sua comitiva degustarão o “Salton Talento 2007”, 60% cabernet sauvignon, 30% merlot e 10% tannat, produzido no Rio Grande do Sul. Durante a Jornada, o Papa se dirigirá ao público sempre em português.
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E mais...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Caso Snowden)


Snowden fez pedido oficial de asilo político à Rússia, diz advogado

Do UOL, em São Paulo
Comunicar erroImprimirman Rights Watch/Divulgação

  • Edward Snowden, ex-técnico da CIA (centro), fala à imprensa no aeroporto de Moscou na última sexta (12)
    Edward Snowden, ex-técnico da CIA (centro), fala à imprensa no aeroporto de Moscou na última sexta (12)
Edward Snowden, ex-funcionário da CIA procurado pelos EUA sob a acusação de espionagem, solicitou formalmente asilo temporário na Rússia. O anúncio da formalização do pedido de asilo foi feito nesta terça-feira (16) pelo advogado Anatoli Kucherena, que auxilia o americano em relação à legislação russa.
Segundo Kucherena, Snowden  já enviou a solicitação de visto temporário ao Serviço Federal de Migração russo. O ex-funcionário da CIA, que revelou detalhes dos programas secretos de vigilância do governo dos EUA, está na área de trânsito do aeroporto de Moscou desde 23 de junho.
O advogado acrescentou que havia acabado de se reunir no aeroporto com Snowden, com quem já havia se encontrado na última sexta-feira (12). Nesse dia, durante um encontro organizado no aeroporto com 13 personalidades russas, Snowden disse que tinha a intenção de pedir asilo político à Rússia enquanto esperaria para poder viajar à América Latina, onde Venezuela, Bolívia e Nicarágua se propuseram a acolhê-lo.
Na ocasião, as autoridades russas afirmaram não ter recebido nenhum pedido oficial de asilo feito por Edward Snowden.
Nesta segunda-feira (15), o presidente russo, Vladimir Putin, disse que gostaria que Edward Snowden fosse embora da área de trânsito do aeroporto de Moscou. No entanto, sinalizou que o americano estaria se encaminhando para atender às condições da Rússia para a concessão de asilo.
"As condições para lhe conceder asilo político são conhecidas por ele. E a julgar por suas ações mais recentes ele está mudando sua posição. Mas a situação ainda não foi esclarecida", disse Putin. Segundo o presidente, a Rússia só concederia asilo a Snowden se ele parar de fazer revelações prejudiciais aos EUA.
Snowden já afirmou que estaria disposto a cumprir as condições de Putin para receber um asilo temporário na Rússia.
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Conheça gente que, como Edward Snowden, já morou em aeroportos12 fotos

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9.jun.2013 - Edward Snowden, 29, está fugindo das autoridades norte-americanas desde o final de maio, depois de expor os principais programas de vigilância secretos desenvolvidos pela Agência de Segurança Nacional (NSA). O governo russo confirma que ele esteja na zona de trânsito do aeroporto de Sheremetievo, em Moscou, de onde não consegue sair, já que os EUA revogaram seu passaporte e pressionam para que ele seja entregue às autoridades norte-americanas Leia mais Ewen MacAskill/The Guardian/AP

Três semanas no aeroporto de Moscou

Snowden viajou de Hong Kong para o aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, no dia 23 de junho, na esperança de embarcar de lá para algum país que o protegesse de perseguições judiciais nos Estados Unidos, onde foi acusado de ameaçar a segurança nacional ao divulgar programas governamentais secretos de espionagem.
Sem passaporte válido e sem visto para entrar na Rússia, Snowden não pôde passar pelo guichê da imigração e permaneceu em um limbo jurídico.
Os EUA pressionam outros países para que não concedam asilo ao foragido. Putin, tentando não complicar ainda mais suas relações com Washington, estabeleceu como condição para a concessão do asilo político que o ex-funcionário da CIA não prejudique mais os EUA. 
Três governos de esquerda latino-americanos --da Bolívia, Nicarágua e Venezuela-- ofereceram asilo a Snowden, mas não há voos diretos de Moscou para essas nações, o que gera o risco de que o norte-americano seja barrado ao fazer conexão em outro país.
A alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, afirmou na sexta-feira (12) que o ex-técnico da CIA, Edward Snowden, tem o direito de solicitar asilo e deveria ser protegido por ter revelado informação que atenta contra os direitos humanos. (Com Agências de Notícias)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Notícia da Semana Atualidades (80% dos brasileiros tacham partidos como corruptos)

Mais de 80% dos brasileiros tacham partidos como "corruptos"

Índice é superior à média de 65% registrada no resto do mundo

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Pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira, 8, pela Transparência Internacional, apura que 81% dos brasileiros consideram os partidos políticos "corruptos ou muito corruptos", Isso quer dizer que quatro de cada cinco pessoas põem em xeque a base da representação política no País. Os números do levantamento concluído em março traduzem uma insatisfação que ficou explícita três meses depois, com a série de manifestações que se alastraram pelas cidades brasileiras.

Se comparados à percepção de moradores de outras áreas do globo, fica claro que os brasileiros estão mesmo descontentes. Na média dos 107 países que participaram da pesquisa organizada pela organização não governamental, algo em torno de 65% dizem que os partidos são "corruptos ou muito corruptos". A mesma pesquisa - feita em 2010 pela Transparência Internacional - mostra que, no Brasil, a situação se agravou: três anos atrás, o índice de descontentamento sobre o tema era de 74%.

Os dados nacionais sobre percepção de corrupção - obtidos após entrevistas com 2.002 pessoas - mostram também que, depois dos partidos, o Congresso é a segunda instituição mais desacreditada. Cerca de 72% da população o classificam como "corrupto ou muito corrupto". Na média mundial - foram 114 mil entrevistas -, o índice é de 57%.

A pesquisa ainda perguntou se os entrevistados consideravam eficientes as medidas dos governos contra a corrupção: 56% dos brasileiros disseram que não; 54% da média mundial também. "O desprestígio dos partidos e dos políticos é muito grande, disse Alejandro Salas, um dos autores do informe da Transparência Internacional. "O resultado é triste. Os partidos políticos são pilares da democracia", disse.

Na avaliação de Salas, o que tem sido positivo no Brasil é que as pessoas que saíram às ruas para se manifestar fizeram uma ligação direta da corrupção na classe política ao fato de não haver serviços públicos adequados. "As pessoas fizeram a relação direta entre a corrupção e a qualidade de vida que têm", disse. "Para muitos, o mais dramático é que o Brasil cresceu nos últimos anos. Mas as pessoas perceberam que os benefícios não foram compartilhados e que parte disso ocorreu por conta da corrupção."

Caixa-preta

Segundo o autor do informe, os indicadores mostram que os brasileiros estão cansados de não saber como o poder é administrado, quem paga por ele, quem recebe e quem se beneficia. "Os partidos são como caixas pretas e, para mudar essa percepção, uma reforma importante será dar mais transparência ao financiamento dos partidos."

Ainda segundo a avaliação de Salas, que é diretor regional da ONG para as Américas, as manifestações nas ruas no Brasil colocaram "uma pressão enorme" sobre os políticos. "Depois das manifestações no Brasil, se os partidos não mudarem, vão acabar de se afundar", afirmou. O representante da TI alerta também para a possível aparição e fortalecimento de líderes carismáticos por causa do descrédito dos partidos políticos. Conclui, porém, que o resultado das manifestações de junho é positivo. "O que ocorreu dá esperança."
 
Os dados mostram que, no Brasil, 81% dos entrevistados disseram que podem fazer a diferença no combate à corrupção. Na médias dos países envolvidos na pesquisa, o índice é de 65%. Numa escala de 1 a 5, onde cinco é o grau máximo de corrupção, o setor público brasileiro atingiu nota 4,6. "A taxa é mais elevada que no resto da América Latina", afirmou Salas.
 
Cerca de 70% dos entrevistados no Brasil acreditam que a corrupção no setor público é "muito séria", contra uma média mundial de apenas 50%.
 
Em torno de 77% dos brasileiros admitem que ter "contatos" na máquina publica é "importante" para garantir um atendimento. A percepção em relação ao setor privado se inverte. No Brasil, apenas 35% das pessoas acham que as empresas são "corruptas ou muito corruptas". Fora do País, a média é superior: 45%.
 
Disposição
 
Outra constatação da Transparência Internacional é que, no Brasil, a proporção de pessoas disposta a denunciar a corrupção é mais baixa que a média mundial: 68% diante de 80%. 44% dos entrevistados disseram que não denunciam por medo, enquanto outros 42% alertam que suas ações não teriam qualquer resultado. "Se o governo estiver sendo sincero de que quer combater a corrupção, precisa criar mecanismos que permitam a denúncia e que protejam as pessoas", disse Salas.
 
Entre os que aceitam fazer a denúncia, a maioria revela que para tal usaria os jornais, e não os órgãos oficiais do governo.
 
Um a cada quatro entrevistados no Brasil admitiu que pagou propinas nos últimos dez meses para ter acesso a um serviço público. "O pagamento de propinas continua muito alto. Mas as pessoas acreditam que têm o poder para parar isso", disse Huguette Labelle, presidente da Transparência Internacional. Para ela, os políticos devem dar o exemplo, tornando públicos a sua renda e os ativos de família.
 
Outras instituições
 
Depois dos partidos e do Congresso, a polícia aparece na pesquisa como a instituição mais desacreditada. Cerca de 70% dos brasileiros a classificam como "corrupta ou muito corrupta". No resto do mundo, o índice é de 60%.
 
O Judiciário, entre os brasileiros, tem mais crédito do que entre a população dos outros países. Aqui 50% apontam a instituição como "corrupta ou muito corrupta". Fora, o índice é de 56%. As Forças Armadas aparecem com índice baixo de percepção de corrupção. No Brasil é de 30% e na média dos outros países da pesquisa da Transparência Internacional, 34%. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Manifestações pelo país)

Do sonho ao vandalismo e à brutalidade

Manifestantes de movimentos sociais voltam às ruas das grandes capitais e são reprimidos com uma truculência injustificável e desproporcional, que não é vista desde os tempos da ditadura

por Paulo Moreira Leite
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PRAÇA DE GUERRA
Na quinta-feira 13, PM cerca manifestantes na rua da Consolação, em São Paulo,
que protestavam pacificamente e usa balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo
Num país onde é frequente ouvir-se a queixa de que a sociedade sofre de profunda apatia, mostrando-se incapaz de mobilizar-se para defender seus interesses e encarar seus problemas de frente, a mobilização social de uma massa de estudantes e jovens trabalhadores de São Paulo deveria ser saudada como um exemplo de cidadania. Após quatro dias de protestos, contudo, surgiu em São Paulo uma situação hostil, assustadora e perigosa. Incapaz de atuar de forma preventiva, controlando as manifestações com métodos civilizados e fazendo uso consciente e responsável da força quando necessário, na última quinta-feira 13 a Polícia Militar de São Paulo retornou aos piores momentos de seu passado, quanto reprimia a população sob o regime militar para acuar e atacar militantes. Em meio à pancadaria, ocorreram 325 prisões e 105 pessoas ficaram feridas. Manifestantes foram alvejados com balas de borracha, bombas de gás e perseguidos pelas ruas da região central até tarde da noite. Atacados seletivamente, vários jornalistas acabaram feridos. Um deles, atingido no olho por um projétil emborrachado, corre o risco de perder a vista.
O retorno da Polícia Militar a sua face mais violenta ocorreu num dia que até prometia uma jornada de calmaria. Num esforço para evitar a confusão da quarta-feira 12, quando 97 ônibus foram depredados, dezenas de vitrines foram quebradas e até um policial correu o risco de ser linchado, numa sucessão de atos condenáveis promovidos por baderneiros mascarados, infiltrados entre os manifestantes, autoridades e ativistas fizeram um acordo para realizar uma passeata em percurso autorizado. Já no início da tarde, no entanto, se viu que nem todas as partes pretendiam cumprir o combinado.
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PARIS, 1968 Havia confrontos e o desejo de mudar o mundo
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SÃO PAULO, 11/06/2013, baderneiros se aproveitam
de movimento para depredar patrimônio público e privado
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SEM COMANDO
Policial lança gás de pimenta contra cinegrafista no centro de SP
Numa concentração marcada para o Teatro Municipal, que pretendia arregimentar quem estava interessado em participar do protesto autorizado, a polícia dava uma demonstração de desenvoltura excessiva ao realizar 40 prisões “para averiguações”, eufemismo clássico para atos abusivos .“Quando fui perguntar por que dois conhecidos estavam sendo detidos, me advertiram: ‘Não faz muitas perguntas se não levamos você também,” conta o professor Lucas Oliveira, 28 anos, um dos porta-vozes do Movimento Passe Livre, entidade que cumpre, na luta por melhorias no transporte público, um papel semelhante ao que o MST assumiu na luta pela reforma agrária. Horas mais tarde, perseguido pela tropa de choque quando liderava uma passeata em outro ponto da cidade, Lucas Oliveira teve a canela ferida por uma bomba, sendo levado a um pronto-socorro.
Falta ação da polícia para reprimir o crime, mas sobra
força para repreender a população de forma arbitrária
Apesar destes percalços, o acordo parecia de pé. Tanto que a passeata autorizada realizou-se sem maiores atropelos, na área demarcada. Mais tarde, quando a caminhada atingia a rua da Consolação, ocorreu um episódio que faz parte do figurino de todo ato de protesto que se preze. Depois de cumprir o combinado, tentou-se ir mais além. Não é uma demonstração de cavalheirismo, nem de amor a palavra empenhada, mas faz parte do jogo tanto por parte de quem organiza protestos como de quem presta serviços policiais. A faísca acendeu ali. A PM poderia ter assumido duas atitudes razoáveis. Manter a avenida bloqueada, impedindo que a marcha seguisse em frente, nem que fosse preciso pedir reforços. Ou poderia, num ato de insólita cortesia, abrir passagem para os manifestantes. Não se fez uma coisa nem outra. Quando lideranças do movimento tentavam negociar uma nova autorização, soldados da Tropa de Choque começaram os disparar tiros com balas de borracha. Bombas e até granadas foram atiradas sobre os manifestantes, que se dispersaram em correria pela rua mais célebre da boemia de São Paulo, a Augusta, onde foram atacados mais uma vez. Num esforço repetido de concentração e dispersão, sempre com policiais em seu encalço, a passeata seguiu em grupos menores, até tarde da noite. Ainda em atividade, a polícia importunou casais de namorados em bares da avenida Paulista. Passageiros de um ônibus foram atingidos por uma bomba de gás. Motoristas abandonaram os carros nas ruas, assustados. Num reflexo típico de tempos autoritários, a PM investiu com dureza seletiva sobre jornalistas presentes. A fotógrafa Giuliana Vallone, da Folha de S. Paulo, tomou um tiro de bala de borracha no olho. Outro fotógrafo também foi alvejado com maior periculosidade e na sexta-feira 14 corria o risco de perder uma vista.
...Enquanto isso, em Paris
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Em meio à crise nas ruas, o prefeito paulistano Fernando Haddad, o vice-presidente
Michel Temer e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin,
encontravam-se em Paris na terça-feira 11 em solenidade
Com tamanha brutalidade, a atuação da Polícia Militar ameaça dar um novo caráter à luta contra o reajuste da passagem. Mobilização realizada em nome de uma reivindicação social legitima, que deve ser discutida de forma civilizada e a partir de argumentos racionais, a repressão coloca em pauta o direito de cada cidadão pela liberdade de defender seus interesses. Conflitos políticos que fogem dos padrões da boa educação confundem o raciocínio e costumam ser avaliados mais pela coreografia do que pela substância. A passagem de ônibus teve um reajuste de 6,7% contra uma inflação de 15% desde o último aumento, de janeiro de 2011. O reajuste pode parecer razoável no visor de uma calculadora, mas está longe de ser uma questão simples.
Num cálculo do DIEESE, realizado em Porto Alegre, mas que tem semelhança com o que aconteceu no país inteiro, as passagens subiram 670% de 1994 para cá – contra uma inflação de 281%. Nesse ritmo, um cidadão paulistano que anda de ônibus duas vezes por dia e paga a passagem com dinheiro do próprio bolso deixa, na catraca, o equivalente a três meses de salário mínimo por ano. É uma boa quantia, mesmo quando se recorda benefícios recentes como o bilhete único e o vale transporte, que transfere grande parte do custo das passagens de funcionários de baixos salários, com registro em carteira, para a empresa. O encarecimento dos transportes tem levado um número cada vez maior de pessoas a andar a pé pelas grandes cidades. Falta-lhes dinheiro até para embarcar numa sardinha em lata nas horas de pico.
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CAVALARIA INCONSEQUENTE
Na rua da Consolação, em São Paulo, polícia montada parte pra cima de manifestantes na quinta 13.
Desta vez, não havia os tumultos provocados por minorias no dia anterior (abaixo)
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Embora os aumentos de passagem sejam alvo de descontentamento desde que os primeiros ônibus passaram a circular no país, ainda no século passado, não é uma surpresa que há pelo menos uma década os movimentos contra os reajustes tenham-se tornado um costume nacional, com altos e baixos em cada lugar. Em 2003, Salvador ficou paralisada por dez dias até que a prefeitura cedesse 9 das 10 reivindicações apresentadas pelos líderes do movimento. Em Florianópolis, os protestos conseguiram revogar dois aumentos, em 2004 e 2005. Em Vitória, isso já aconteceu uma vez. Mirando-se no exemplo paulistano, que preferem ver longe de seus domínios, outros prefeitos resolveram agir antes que fosse tarde. Em Curitiba, o preço da passagem foi reduzido em dez centavos. Em Goiânia, depois de subir para R$ 3,00 ela retornou para R$ 2,70. Em Manaus, houve um aumento de R$ 2,75 para R$ 3,00, mas o preço agora é R$ 2,90. Em Cabo Frio(RJ), a população vale-se do subsídio da prefeitura e paga apenas R$ 0,50 pela passagem dentro do perímetro do município. 
O cidadão que anda de ônibus duas vezes ao dia deixa na
catraca três salários mínimos por ano. há razões para protestar
Nos últimos anos, a sucessão de protestos levou ao surgimento, em vários pontos do país, do Movimento Passe Livre, uma federação de estudantes – muitos já se formaram desde então – com ideias esquerdistas de várias famílias, e uma prática de quem rejeita toda submissão a partidos políticos. Em São Paulo, o MPL tem raízes entre universitários da USP e estudantes de estabelecimentos frequentados por uma elite cultural de esquerda, como Escola da Vila, Vera Cruz, Oswald e o Colégio Equipe, mas é o centro nervoso de uma articulação maior e mais popular, com conexão com sindicatos e entidades da periferia. Seus encontros reúnem militantes selecionados, funcionando de acordo com princípios de horizontalidade. Não há hierarquia formalizada. Todos têm direito a usar a palavra pelo tempo desejado por cada um – e por essa razão alguns debates podem prolongar-se por até 12 horas. As deliberações não são obtidas pelo voto, mas por um esforço permanente para se obter consenso. Praticantes de uma escola política que tem suas origens em movimentos radicais do século XIX, eles cultivam uma utopia urbana radical. Condenam o que chamam de “ mercantilização” do transporte público e defendem a cobrança de tarifa zero – isto é, o transporte gratuito. Este sistema que costuma funcionar em cidades menores, em especial na Europa e em alguns estados norte-americanos, também foi implantado em três cidades brasileiras. São localidades pequenas, como Agudos, em São Paulo, Porto Real, no Rio, e Ivaiporã, no Paraná. A população de todas elas, somadas, não chega a 100 000 habitantes. Quando era prefeita de São Paulo, Luiza Erudina chegou a elaborar uma proposta de tarifa zero, mas não levou o projeto adiante. Em público ou em conversas reservadas, os militantes do MPL condenam atos de vandalismo como uma espécie de contra senso, pois prejudicam aquilo que gostariam de preservar – que são estações de metrô, pontos de ônibus e o espaço público em geral. “A gente não apoia nenhum tipo de depredação, seja de ônibus ou de estação de metrô”, diz o universitário Caio Martins Ferreira. “Tentamos conter, mas é difícil. A gente não é dono de ninguém para dizer quem deve fazer o que,” diz.
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Os episódios de vandalismo que acompanham os protestos envolvem pessoas de outra origem, que trafegam um universo no qual a violência é um culto permanente, embora possa ser empregada de formas variadas. Ora pode ser um caminho para um acerto de contas entre turmas rivais, ora pode até apresentar um conteúdo político. São os chamados anarco-punks, um tipo de ativismo nascido nos bairros operários que enfrentavam as medidas de austeridade de Margareth Tatcher nos anos 1980, e que se tornou moda no Brasil uma década depois. Em dias normais, o esporte predileto dos anarco-punks é trocar pauladas com os skin-heads, inimigos irredutíveis e violentos. Em dias de mobilização política, como aconteceu em São Paulo por esses dias, comandam o quebra-quebra.
Com outros nomes e rostos, mas um ideário parecido, eles já apareceram em outros lugares. Na quinta-feira, eles surgiram entre as mobilizações em Porto Alegre. Picharam 21 lojas, depredaram seis agências bancárias, reviraram 40 containers de lixo. Em situação semelhante, 2 mil pessoas organizaram um protesto no Rio, no mesmo dia. O início foi pacífico, mas, no final, ocorreram cenas de baderna e confronto. Há dois anos, anarco-punks fizeram sua aparição à frente de uma sequência de atos selvagens em Teresina, no Piauí. Escondiam o rosto com capuz e se apresentavam como militantes de um certo “Movimento Anti-Capitalista”. A exemplo do que ocorreu em São Paulo, não surgiram nos primeiros dias das mobilizações, mas naquela etapa em que o movimento já tinha força própria. Já chegaram quebrando bancos e vitrines de loja, incendiando ônibus. “Consegui marcar uma conversa a sós com um deles,” conta o senador Wellington Dias, ex-governador e principal liderança política do Estado “Queria entender o que pretendiam. É outro mundo. Eles eram contra o sistema. Queriam quebrar tudo. São adversários de toda autoridade, desprezam as leis. O simples fato de encontrar-se com um político, como eu, já era perigoso e condenável.”
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RIO DE JANEIRO
Na capital carioca, ato na Candelária que começou pacífico, terminou
com violência e depredação de prédios e monumentos históricos.
Protestos no centro da cidade foram liderados por militantes do PSTU
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PORTO ALEGRE
Na capital gaúcha, dezenas de manifestantes se concentraram em frente
do prédio da prefeitura, que tinha a entrada isolada por cordas e vigiada
pela Guarda Municipal, durante reivindicação contra o aumento da tarifa
A brecha que abriu espaço para os protestos contra um aumento de 20 centavos nasceu de uma presunção política – a ideia de que o reajuste poderia ser visto como uma questão administrativa. Fernando Haddad, o prefeito de São Paulo do PT, e Geraldo Alckmin, o governador tucano, pretendiam anunciar o aumento em janeiro, mas, em função de um pedido da presidente Dilma Rousseff, receosa de que a medida pudesse alimentar a inflação, decidiram adiar o reajuste por seis meses. O tempo permitiu uma negociação que parecia favorável a todos. O governo federal desonerou o PIS e o COFINS das empresas de ônibus. Com isso, foi possível elevar a passagem para R$ 3,20 em vez de para R$ 3,40.
Tudo parecia acertado, mas faltou combinar com o principal interessado – o passageiro, que teria de colocar a mão no bolso e entrar com sua cota de sacrifício. Embora o reajuste das passagens seja um pesadelo histórico na rotina dos prefeitos de grandes cidades, que nem sempre enfrentam protestos portentosos, mas nunca são capazes de evitar quedas abruptas em seus índices de aprovação popular depois que o cidadão comum sente o golpe, o reajuste foi encaminhado como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Eles esqueceram que por trás de uma decisão técnica sempre há uma questão política,” afirma Lucas Oliveira.
Manifestações chegam a vários pontos do paíse ganham causas diversas, da saúde à educação
No início dos protestos, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad se encontravam em viagem em Paris, ao lado do vice-presidente Michel Temer. De lá mesmo informaram que não pretendiam modificar o reajuste. Numa argumentação que repetiu ao voltar ao Brasil, Alckmin explicou que o caixa do governo não tinha recursos para subsidiar o preço baixo. Haddad lembrou que, na campanha eleitoral, assumira o compromisso de fazer reajustes abaixo da inflação – o que fez, efetivamente. Tanto o prefeito como governador tem argumentos. Mas as manifestações expressaram outra realidade, mais exigente e inconformada – e são elas que aguardam respostas. Mas não as que a PM, com força violenta e desproporcional, deu.
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Fotos: Ian Boechat; Rodrigo Paiva/RPCI; MASTRANGELO REINO/A2 FOTOGRAFIA; Ig Aronovich/Lost Art; Renato Luiz Ferreira/Folhapress; FABI0 TEIXEIRA / UOL/FOLHAPRESS; Tarlis schneider/ acuracia fotojornalismo; FABI0 TEIXEIRA; Felipe Paiva/Frame; ALICE VERGUEIRO/FUTURA PRESS; Cris Faga / Fox Press Photo 

Como Montar uma Aula: Planejamento