domingo, 3 de julho de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Pacote grego passa, e crise sai de 'férias'
01 de julho de 2011

Folha de S.Paulo (SP)
Aprovação de detalhamento do ajuste fiscal abre caminho para que o país receba nova parcela de ajuda externa

Medidas de arrocho provavelmente vão trazer de volta atos de protesto no segundo semestre deste ano

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A ATENAS

Os deputados sem gravata, na grande maioria, as deputadas em trajes mais vistos em "resorts" do que no Parlamento. Foi assim que passou ontem, por 155 votos a 136, o detalhamento das medidas que compõem o duro pacote de ajuste fiscal grego, no valor de € 78 bilhões (R$ 176 bi), aprovado na véspera.
Os trajes de férias correspondiam, simbolicamente, ao novo momento da crise: entrou em férias de verão.
É o que deixa claro o comunicado da Comissão Europeia, o braço executivo do conglomerado de 27 países europeus, ao saudar o segundo voto favorável: "Cumprem-se as condições para tomar uma decisão sobre o desembolso do próximo pedaço de assistência financeira à Grécia e para um rápido progresso no segundo pacote de assistência".
Traduzindo: a "troika" UE/Fundo Monetário Internacional/Banco Central Europeu deve liberar tanto os € 12 bilhões que permitem à Grécia fechar as contas até setembro como um segundo plano de socorro, em tese no valor de € 120 bilhões, para cobrir o período que vai até 2014, sem que o país se veja constrangido a dar calote na sua dívida.

PERDA DE CONTROLE
Mas as férias terminam com a chegada do outono em setembro (hemisfério norte).
Entre aprovar um pacote impopular e implementá-lo, há uma distância que talvez o governo não ultrapasse.
O ceticismo aparece na coluna de Costas Iordanidis para o jornal "Kathimerini" ("O Diário"): "Porque as privatizações muito provavelmente não avançarão depressa o suficiente, porque o mecanismo de cobrança de impostos certamente falhará e porque a recessão continuará, há um sério risco de revolta social, de violência incontrolável e de perda de controle, como os eventos [de quarta-feira] ilustraram vividamente".

CETICISMO
O ceticismo é razoável pelo menos em três pontos, recessão, privatizações e impostos. A privatização é o forte do pacote: pretende-se levantar € 50 bilhões em três anos e meio, quando nos 17 anos mais recentes a Grécia só conseguiu privatizar ativos pela metade desse valor.
Pior: apenas cerca de um quarto do total previsto está apto para venda, de acordo com o instituto de pesquisas Barômetro da Privatização.

IMPOSTOS
O ministro de Finanças admite que ainda é "preciso completar o novo sistema nacional de impostos e usar meios inteligentes de combater a evasão fiscal, incluindo levantar o sigilo bancário".
Como os novos impostos entram hoje em vigor, e o sistema ainda está manco, pouca gente acredita que a evasão baixará dos 35% que se calcula ser o tamanho atual da economia submersa.
Não é à toa que a nota de felicitações da União Europeia termina lembrando "o duro trabalho que ainda há por fazer".
Só não lembra que em setembro voltará à Grécia a missão da "troika" para verificar se os trabalhos estão sendo de fato feitos. Se não estiverem, reaparece toda a tensão dos últimos três meses.
Fonte: http://www.portaldoeconomista.org.br/noticias/pacote-grego-passa-e-crise-sai-de-ferias.html

domingo, 26 de junho de 2011

Aviso para Avaliação Bimestral de Sociologia Turma 101 dia 29/06

Caros alunos, vocês devem votar no tema da enquete até dia 28/06 às 18:00 h o tema mais votado será tema da avaliação. A turma 102 terá até o dia 04/07 às 18:00 h para votação do tema.

Notícia da Semana Atualidades


O Código Florestal e a violência no campo

Em média, por ano, 2.709 famílias são expulsas de suas terras e 63 pessoas são assassinadas no campo brasileiro na luta por um pedaço de terra A violência é parte essencial da história dos pobres da terra: índios, negros, camponeses. Ela, por sua vez, é alimentada pela impunidade – fenômeno sócio-político conscientemente assimilado pela nossa instituição judiciária.

Por Dom Tomás Balduíno
No mês de maio deste ano, desabaram sobre a sociedade brasileira cenas de uma dupla violência: a aprovação do Código Florestal pela maioria da Câmara dos Deputados, tratando do desmatamento, e os assassinatos de líderes camponeses que se opunham ao desmatamento na Amazônia.
A ninguém escapa o protagonismo da bancada ruralista pressionando a votação deste Código por meio de mobilizações de pessoal contratado em Brasília e através de sessões apaixonadas na Câmara dos deputados. Por outro lado, as investigações dos assassinatos vão detectando poderosos ruralistas por trás destas e de outras mortes de camponeses.
O Código tem, de ponta a ponta, um objetivo maior inegável: ampliar o desmatamento em vista do aumento da produção. Um estudo técnico sobre as mudanças aprovadas em Brasília assinala que elas permitem o desmatamento imediato de 710 mil km², mais que o dobro do território do Estado de Goiás.
É impressionante a fúria com que este instrumento legal avança sobre as áreas de preservação dos mananciais destinadas a criar uma esponja à beira dos rios, defendendo-os das enxurradas e impedindo o seu assoreamento. A legislação anterior, embora tímida, exigia uma faixa de 30 metros de cada lado. A atual legislação a reduz para ridículos 10 metros.
A reserva legal, religiosamente mantida pelas pequenas e médias propriedades, é o que ainda hoje dá uma visível cobertura de vegetação nativa em nossos diversos biomas, em razão do grande número de médios e pequenos estabelecimentos. Isso também desaparece. Aliás, o Código não cuida da agricultura familiar que é responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro.
O Código se ajusta muito mais às áreas desmatadas a perder de vista e destinadas a gigantescas monoculturas. A grande expectativa com relação a esse Código é que se consolidasse a proposta já transformada em lei, de recuperação das áreas devastadas. Para nossa decepção, deixa-as como estão. Nós, do Centro Oeste, estávamos sonhando com a recuperação das áreas de preservação permanente do rio Araguaia, nosso Pantanal, sobretudo das suas nascentes, desmatadas em 44,5%. O sonho virou pesadelo. Com efeito, a nova Lei deixa tudo como está.
Até hoje, a grande queixa com relação aos desmatamentos no Cerrado e na Amazônia se prendia à falta de fiscalização. Entretanto, é justo reconhecer que muito esforço se fez buscando garantir a lei. Por exemplo, a varredura das áreas via satélite. Infelizmente, tornou-se uma prática nefasta na Amazônia os proprietários aguardarem dias nublados para procederem à queima das árvores. Ao se abrir o céu, o desmatamento já é fato consumado.
Em um dos Fóruns do Cerrado foram ouvidos depoimentos de camponeses denunciando outro tipo de crime: o desmatamento rápido à noite de importantes áreas de Cerrado com o uso de máquinas possantes, sem o risco de fiscalização.
Agora, com a flexibilização do novo Código, não há mais  necessidade de fiscalização. Mais ainda, alguns proprietários, sabendo com antecedência das permissividades e anistias a serem introduzidas por este código nas áreas devastadas ilegalmente, partiram logo para a criação de fatos consumados derrubando a cobertura verde. O título do brilhante artigo de Washignton Novais em “O Popular”, de 02 de junho, na página 7, é o seguinte: “Código de florestas ou sem?”. A nova lei foi apelidada também de “Código da desertificação”.
País do latifúndio
O que estaria por trás de tanta devastação e de tanta lenha acumulada?  É o seguinte: apesar da apregoada excelência dos avanços técnicos e econômicos do agronegócio brasileiro, os dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), referentes ao ano de 2009, em relação à produção por hectare, puseram a nu o fato, por exemplo, de que o Brasil está na sofrível 37ª posição na produção de arroz, atrás de países como El Salvador, Peru, Somália e Ruanda.
No milho, ocupamos a 64ª posição. No trigo, um vexame, na 72ª posição. Na soja, o badalado carro-chefe do agronegócio brasileiro um modesto 9º lugar, atrás do Egito, da Turquia e da Guatemala. Com relação ao boi, motivo de tanta soberba, de ostentação, de riqueza nas festas agro-pecuárias, ocupamos a humilde 48ª posição, atrás do Chile, do Uruguai e do Paraguai. (Confiram mais dados no substancioso artigo de Gerson Teixeira, Brasília, 19.05.11, “As Mudanças no Código Florestal: Alternativa para a ineficiência produtivista do agronegócio”).
A produção agropecuária sofre pelos altos gastos devido ao viciado uso do fertilizante e do agrotóxico. Os dados da FAO atestam que, a partir de 2007, nos transformamos no principal país importador de agrotóxico do mundo. Como essa tecnologia, em geral, tem se revelado ainda ineficaz na sonhada superprodução, pensou-se logo na liberação de áreas cada vez maiores de terras destinadas à produção. Se não vencemos em tecnologia, somos imbatíveis no latifúndio. E, para a tranqüilidade deste avanço predatório sobre o que resta de cobertura verde, buscou-se um instrumento garantido: justamente esse tal Código Florestal.
Apesar da complexidade deste tema, de pesadas conseqüências para o futuro da nossa terra, da nossa biodiversidade, dos recursos hídricos, da vida sustentável do solo, causou muita estranheza o fato destes legisladores não terem convidado em momento algum a nossa SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) a ABC, (Academia Brasileira de Ciências) o FBM (Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas) para os debates. Pois bem, aí está o desastroso resultado: saiu um código elaborado por ruralistas a serviço de seus colegas ruralistas. Restou-nos, como disse Paulo Afonso Lemos, “um código que não é claro, não é preciso, não é seguro”.
Mortes no campo
Em dezembro de 1988 caiu Chico Mendes, tal como uma pujante seringueira cortada pela raiz. No início de 2005, caiu a irmã Dorothy Stang, atirada pelas costas com a sua Bíblia na mão, sua pomba mensageira da Paz. Na manhã do dia 24 de maio deste ano, derrubaram o casal Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva, cuja orelha foi cortada pelos pistoleiros como prova do serviço feito. Logo em seguida, foi assassinado Eremilton Pereira, na mesma área. Supõe-se que tenha sido queima de arquivo por estar presente na hora do primeiro crime. Foi morto também Adelino Ramos, em Rondônia, um sobrevivente de Corumbiara.
Há uma lógica perversa por trás destas e de outras mortes, desde a morte de Zumbi dos Palmares e de Antônio Conselheiro de Canudos, até a morte de José Cláudio da Silva, de Nova Ipixuna. Esta lógica consiste na eliminação seletiva de lideranças vistas como obstáculo aos grandes projetos do agronegócio. A senadora Kátia Abreu, arvorando-se em advogada dos criminosos, declarou no mesmo dia 24 que estas mortes se devem à invasão de terras. A senadora ou é desinformada ou foi leviana na sua fala. Ao contrário, eles são legítimos assentados do Incra. Mais ainda, são dois heróicos pioneiros da criação da reserva extrativista do Assentamento Praia Alta Piranheira, em 1997.
Fazendo coro conivente com a parlamentar ruralista, alguns deputados vaiaram o deputado José Sarney Filho quando este leu no plenário da Câmara a chocante notícia das mortes destes camponeses. A nota da Comissão da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para o serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, faz justiça aos assassinados, fornecendo-nos uma preciosidade, a saber, a declaração de José Cláudio, em um plenário de 400 pessoas reunidas para estudarem a qualidade de vida do planeta:
“Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito, por isso vivo com a bala na cabeça a qualquer hora porque vou pra cima, eu denuncio. Quando vejo uma árvore em cima do caminhão indo pra serraria me dá uma dor. É como o cortejo fúnebre levando o ente mais querido que você tem, porque isso é vida pra mim que vivo na floresta e pra vocês também que vivem nos centros urbanos”.
Em média, por ano, 2.709 famílias são expulsas de suas terras pelo poder privado e 63 pessoas são assassinadas no campo brasileiro na luta por um pedaço de terra! 13.815 famílias são despejadas pelo Poder Judiciário e pelo Poder Executivo por meio de suas polícias! 422 pessoas são presas por lutar pela terra!  765 conflitos acontecem diretamente relacionados à luta pela terra! 92.290 famílias são envolvidas em conflitos por terra!
Carlos Walter Porto Gonçalves, professor do programa de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao analisar anualmente os Cadernos de Conflitos no Campo da CPT, introduziu a preocupação com a geografia dos conflitos. Comparando e ponderando o número de conflitos com o número de habitantes na zona rural de cada estado, trouxe à tona a importante constatação de que o aumento da violência acontece em função do desenvolvimento do agronegócio.
A violência não acontece, pois, só nas áreas do atraso, acontece, sobretudo, nos centros mais progressistas do país. “A violência”, diz ele, “é mais intensa nos estados onde a dinâmica sociogeográfica está fortemente marcada pela influência da expansão dos modernos latifúndios (autodenominados agronegócio). É no Centro oeste e no Norte que as últimas fronteiras agrícolas são conquistadas às custas do sofrimento e do sangue dos trabalhadores e dos que os apóiam” ( Caderno da CPT, 2005, pág. 185).
Diz ele: “O agronegócio necessita permanentemente incorporar novas terras e para isso lança mão de todos os mecanismos de que dispõe: os de mercado, os políticos e a violência”. A violência é parte essencial da história dos pobres da terra: índios, negros, camponeses. Ela, por sua vez, é alimentada pela impunidade, fenômeno sócio-político conscientemente assimilado pela nossa instituição judiciária.
A CPT tem a famosa tabela dos assassinatos e julgamentos de 1985 a 2011:
Assassinatos:  1580.
Casos julgados: 91
Executores condenados: 73
Executores absolvidos: 51
Mandantes absolvidos: 7
Mandantes condenados: 21
Mandantes hoje presos:  1
Conclusão: de 1580 assassinados, só um mandante condenado se encontra na prisão! Essa é a medida da impunidade!
Encerrando esta análise da dupla violência do agronegócio, consubstanciada na violência contra a terra e na violência contra a pessoa humana, não posso deixar de destacar a contrapartida deste modelo, a saber, a nova busca do “cuidado” como lição que nos é dada pelos povos tradicionais. As comunidades indígenas vivem isto como algo que está profundamente entranhado na alma, leva-as a se entrosarem harmoniosamente com a Mãe Terra, a se entrosarem pessoas com pessoas, com a memória dos antepassados e com o próprio Deus.
A Terra, como se diz, está doente e ameaçada. Hoje, felizmente, vai se desenvolvendo a cultura ecológica que consiste no cuidado não só com o ser humano, mas com o planeta inteiro. O planeta não cuidado, como ensina Leonardo Boff, pode entrar num processo de enfermidade, diminuir a biosfera com conseqüências de que milhares vão desaparecer, não excluída a própria espécie humana.
Uma outra luz nos vem destes povos e de suas culturas. É o “bem viver”. É uma vida voltada para os valores humanos e espirituais e não presa às coisas, às riquezas, ao consumismo.
Na minha juventude, tive a chance de conviver com um grupo indígena, bem primitivo, no coração da Amazônia. Fiquei encantado ao descobrir, entre outras jóias, que, na língua deles, não existe o verbo TER. Um povo que vive feliz e que, no entanto, não acumula. Gente que faz do necessário o suficiente. A melhor prova desta felicidade está na constatação da alegria espontânea das crianças. Elas são o melhor espelho do povo.

Dom Tomás Balduíno é assessor da Comissão Pastoral da Terra, teólogo e bispo dominicano.
Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/

domingo, 19 de junho de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Atentado contra a história

Levantando suspeitas não comprovadas de que o Brasil teria cometido erros no passado, os ex-presidentes e hoje senadores José Sarney e Fernando Collor de Mello agridem a democracia e tentam impedir que os brasileiros conheçam o próprio passado

Lúcio Vaz e Claudio Dantas Sequeira
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FRENTE
Collor e Sarney lideram o movimento para manter
alguns documentos sob segredo eternamente
O Brasil está andando na contramão da história. Por sugestão dos senadores José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor de Mello (PTB-AL), a presidente Dilma Rousseff decidiu rever o projeto de lei de acesso a informações públicas, admitindo a tese obscurantista de que alguns fatos e documentos merecem sigilo eterno. A atitude agride um princípio capaz de qualificar as democracias. A história de um país é de interesse público e deve ser tratada da forma mais transparente possível, pois pertence a todos os cidadãos. É inaceitável que apenas um determinado grupo de plantão no poder tenha acesso às informações sobre o passado de sua nação. Muito menos que esse grupo decida qual documento deve ou não ser divulgado. Em todo o País historiadores se declararam perplexos com a posição do governo. “É um imenso retrocesso”, afirma José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Letras. A mudança do projeto de lei evoca um tempo de sombras. No mundo atual, é cada vez maior a pressão para trazer a público o que os governantes tentam esconder. Um bom exemplo veio recentemente dos Estados Unidos, que divulgaram 40 volumes de arquivos secretos da guerra do Vietnã. Quatro décadas atrás, o governo americano processava jornais que vazavam esses documentos. 

Os ex-presidentes Collor e Sarney argumentam que a divulgação de informações sigilosas teria impacto prejudicial à diplomacia brasileira, aos serviços de inteligência e à segurança nacional. Fatos históricos sobre a Guerra do Paraguai e a tomada do Estado do Acre foram apresentados como justificativa. Na quinta-feira 16, Collor divulgou uma lista com as mudanças que pretende impor ao projeto que chegou da Câmara. O texto original estabelece o prazo de 25 anos para a manutenção do sigilo de informações ultrassecretas, com a possibilidade de apenas uma prorrogação. Assim, após 50 anos, no máximo, todo e qualquer documento público estaria disponível aos interessados. A regra atual, definida no fim do governo Fernando Henrique, estabelece um prazo de 30 anos, renovável indefinidamente, para os documentos ultrassecretos. 

A ideia de Collor é semelhante. Estabelece a renovação contínua para o prazo de 25 anos previstos no texto do projeto de lei da Câmara. Essa iniciativa fez com que toda a discussão sobre a abertura de arquivos, inclusive os da ditadura, voltasse à estaca zero. E o pior é que a medida teve o apoio imediato do governo, que até então defendia o contrário. Depois do impacto negativo, a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, tentou reparar o erro, afirmando que a lei em discussão no Senado não valeria para os documentos da ditadura. Mas, havendo o sigilo eterno, será difícil convencer o Exército a tornar públicos os crimes cometidos em nome do regime militar.
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EXEMPLO 
Sarney chegou a retirar o impeachment de Collor
da exposição sobre a história do Senado
Questionado por ISTOÉ, o presidente do Senado, José Sarney, alegou que abrir todos os arquivos seria uma espécie de “oficialização do WikiLeaks, em alusão ao vazamento de documentos diplomáticos dos EUA. “Abrir a porta e liberar tudo não pode. Fui presidente (da República) e sei disso”, disse Sarney, que recentemente tentou impedir que o impeachment de Collor figurasse em uma exposição sobre a história do Senado. Para se defender, lembrou que essa era a proposta contida no projeto de lei encaminhado ao Congresso, em 2009, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O Collor me alertou que o projeto do Lula tinha sido todo alterado na Câmara”, afirmou. Collor, que preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado, procurou Sarney em maio com um relatório preparado por sua assessoria. Esse dossiê teria sido entregue também ao então ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, e a Luiz Sérgio, que ainda ocupava a Secretaria de Relações Institucionais. Há duas semanas, Collor encaminhou o documento à presidente Dilma. “Ela se mostrou sensibilizada e disposta a encontrar a melhor solução”, disse o ex-presidente.
O projeto da Câmara chegou a ser aprovado em duas comissões técnicas do Senado: Comunicações e Direitos Humanos. Até então, a orientação do Palácio do Planalto era para aprovar o projeto que saiu da Câmara, segundo o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Sem conseguir explicar os motivos, Jucá reconheceu que a postura oficial agora é outra. “Precisamos discutir mais”, alegou. A votação do projeto no Senado, portanto, deve ficar para o segundo semestre. O que não encerra o problema. Caso seja modificado, o texto deve retornar à Câmara, onde poderá ser refeito. O presidente da Casa, deputado Marco Maia (PT-RS), antecipou que está preparado para a briga. “O povo tem de conhecer sua história. Vamos recompor o que for modificado”, disse Maia. Caberá, então, à presidente Dilma vetar as modificações, especialmente o polêmico artigo que prevê o prazo de 25 anos para documentos ultrassecretos, com apenas uma prorrogação. Considerando seu passado de luta pela democracia e o discurso pela instauração da Comissão da Verdade e a abertura dos arquivos da ditadura, Dilma cometerá, no mínimo, uma enorme contradição se adotar a tese do sigilo eterno. “Duvido que a presidente Dilma coloque a digital dela nisso”, aposta o senador Walter Pinheiro (PT-BA), que relatou o projeto na Comissão de Comunicação do Senado. 

Em conversas reservadas com senadores, Collor e Sarney insistem em defender a versão de que há documentos comprometedores a respeito da anexação do Acre, antigo território da Bolívia, e sobre a Guerra do Paraguai. A lei atual determina que questões que afetem a soberania, a integridade territorial, além de planos militares, econômicos e projetos de pesquisa científica, devem levar a chancela de ultrassecretos. De acordo com o Decreto 4.553/2002, a classificação desses documentos é de competência do presidente, do vice, dos ministros de Estado e dos comandantes militares, além de chefes de missões diplomáticas. Talvez Collor e Sarney não lembrem, ou não queiram lembrar, que no início da década de 1990 o Itamaraty criou uma seleta comissão de acadêmicos com a missão de analisar seus arquivos históricos, inclusive os da Guerra do Paraguai. Ao término do trabalho, o grupo de especialistas concluiu que não havia, nos milhares de páginas emboloradas, nenhuma informação que pudesse criar suscetibilidades ou reacender disputas bilaterais. Ato contínuo, o chanceler Celso Lafer autorizou a abertura do arquivo para consulta. “Foi um gesto de grandeza compatível com qualquer nação realmente democrática”, afirma o imortal José Murilo de Carvalho. “Examinamos tudo e vimos que não havia qualquer coisa que desaconselhasse a abertura dos documentos”, diz.
Autor de uma competente biografia de dom Pedro II, ele lembra que as questões sobre os limites do País também passaram pelo crivo de um embaixador especializado em negociação de fronteiras. O diplomata também não fez restrições, reiterando que todos os acordos fechados pelo Barão do Rio Branco são atos jurídicos perfeitos e não estão sujeitos a contestações. Francisco Doratioto, que é autor do livro mais consistente sobre a Guerra do Paraguai já publicado, teve acesso aos arquivos revisados por Murilo de Carvalho e acrescenta que boa parte das informações já era de domínio público no fim do século XIX. “De inédito havia umas 20 cartas do Solano López sobre o estado de saúde de suas tropas”, afirma. Doratioto pondera sobre a possibilidade de existirem detalhes não conhecidos sobre a anexação do Acre, mas também acha difícil que novas informações possam comprometer a segurança nacional. “Isso é assunto pacificado. Só serve para atiçar alguns grupos no Paraguai e na Bolívia que usam isso para pressionar o governo brasileiro”, afirma. 

O embaixador Celso Lafer concorda e alerta para a postura irresponsável dos ex-presidentes Collor e Sarney. “Esse tipo de argumento só serve para levantar suspeitas sem fundamento e cria preocupações desnecessárias para nossos vizinhos”, disse à ISTOÉ. Lafer, que em sua gestão aprovou duas portarias regulamentando a classificação de documentos, acha que o sigilo eterno é inconstitucional e tende a manchar a imagem do Brasil no cenário internacional. “O que caracteriza uma democracia é o exercício público do poder comum. A nossa Constituição estabelece a publicidade dos atos como regra. O segredo é exceção”, afirma. Em sua gestão à frente do Itamaraty, o embaixador lembra que era responsável por determinar o nível de classificação de sigilo dos ofícios, relatórios e memorandos por ele assinados. Mesmo assim, garante não ter classificado um só documento de ultrassecreto. “Tudo que escrevi em meu trabalho, até as coisas mais sensíveis, poderiam ser divulgadas sem o menor problema dentro de dez ou 15 anos”, afirma. “Nenhum documento, por mais sensível que seja, pode ficar indefinidamente guardado nas arcas do Estado.” É o que se espera.
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Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/142622_ATENTADO+CONTRA+A+HISTORIA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage 

domingo, 5 de junho de 2011

Notícia da Semana Atualidades


Rio, uma cidade em transformação

Impulsionada pela Copa e pela Olimpíada, a cidade vira um canteiro de obras, vive boom imobiliário, recebe recordes de investimento e resgata o orgulho carioca

Francisco Alves Filho, Solange Azevedo e Wilson Aquino
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HOJE 
O Rio comemora queda nos índices de violência e obras de modernização
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ONTEM 
Arrastão na praia na zona sul em 2009: população com medo
Quem chega ao Rio de Janeiro pelo aeroporto internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, e segue pela Linha Vermelha em direção ao centro da cidade, não demora a se espantar. A poucos quilômetros de distância, centenas de trabalhadores erguem uma gigantesca ponte estaiada – ainda um esqueleto, mas já candidata a novo cartão- postal carioca. Roda-se mais um pouco e, se o destino for a zona sul, o visitante passa ao largo do Sambódromo, onde um antigo prédio de camarotes acaba de ir abaixo para dar lugar a novas arquibancadas para o próximo Carnaval. Ou, prosseguindo rumo ao centro, cruza-se a zona portuária, em que velhos armazéns retomam a vida com badalados eventos como o Fashion Rio e a Primavera de Livros, que será totalmente revigorada. Em direção à zona norte, encontra-se o Maracanã, segundo ponto turístico mais visitado do Rio (atrás apenas do Corcovado), hoje totalmente em obras. Deverá ser reinaugurado, belo e moderno, antes da Copa das Confederações, em 2013.
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INDÚSTRIA NAVAL
Funcionários no estaleiro Ilha S.A.: setor reativado
Seja qual for o caminho a seguir, é fácil constatar: o Rio é uma cidade em transformação. Entre suas tão cantadas praias e montanhas, uma sucessão de construções começa a modificar substancialmente sua cara, sem tirar seu charme. No centro e na Barra da Tijuca, nova fronteira do metrô, prédios inteligentes e luxuosos brotam. Também na área menos rica da cidade, a zona norte, há muitos edifícios residenciais sendo erguidos, além de megaobras de infraestrutura como a Transcarioca, via que ligará o Aeroporto Tom Jobim à Barra, passando por nove bairros. Dezenas de novos hotéis estão sendo construídos ou passam por reforma, como o tradicional Hotel Glória. Tantas intervenções urbanas misturam à paisagem tapumes e obras pontuais que, ao final, descortinarão um Rio diferente, que já aparece nos radares de instituições respeitadas em todo o mundo.
img6.jpgMARACANÃ
Reforma de R$ 1 bilhão do estádio emprega 800 trabalhadores
O atual cenário carioca confirma, por exemplo, as informações da última edição do “Global Metro Monitor”, publicação da prestigiada London School of  Economics e da Brookings Institution. De acordo com o estudo, o Rio é hoje uma das dez metrópoles mais dinâmicas do mundo. Entre 150 delas, foi a que melhor reagiu diante da recente crise econômica, em itens como “geração de emprego” e “aumento da renda”. “Todo dia, toda hora, tem empresas, CEOs, donos, acionistas, bancos, visitando o Rio, prospectando. A cidade entrou na página da globalização de uma forma muito intensa”, diz o governador Sérgio Cabral. “Certamente, é a cidade da América Latina mais visível, com maior destaque hoje no mundo.” Segundo ele, R$ 240 bilhões serão injetados na economia do Estado até 2020, boa parte na capital – mais da metade disso nos próximos quatro anos.

Levando-se em conta os investimentos previstos nesta década, o Estado pode ser visto como a terra de oportunidades. Haverá injeção de recursos em setores como petróleo, siderurgia, telecomunicações, infraestrutura urbana e indústria naval e náutica, entre outros. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) comparou o volume de dinheiro que será aplicado com a dimensão territorial do Rio. O resultado é impressionante: mais de R$ 4 milhões por quilômetro quadrado. Juntos, os projetos deverão gerar pelo menos 104 mil postos de trabalho, em diversas regiões fluminenses. “A distribuição de renda vai causar grande impacto social em função da geração de empregos”, afirma o economista Roberto Simonard, da Universidade Candido Mendes.
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EXPANSÃO
A Barra (abaixo) tem mais ofertas residenciais. No centro, profusão de torres comerciais
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Os recursos dos investimentos abrem mercados e financiam as mudanças. Mas não explicam sozinhos o momento único de resgate na imagem e na auto-estima da cidade. Um impulso fundamental foi a escolha do Rio para receber a Olimpíada de 2016 e, em escala menor, ser o mais importante centro da Copa do Mundo de 2014. Para sediar o maior evento esportivo do planeta, a cidade fará de uma só vez importantes obras de infraestrutura, que irão transformá-la rapidamente e podem deixar um precioso legado para a população. O caso da zona portuária é emblemático. Desvalorizada e abandonada, era uma cicatriz de miséria estrategicamente posicionada junto ao centro. Escolhida pelo comitê organizador da Olimpíada para receber uma série de instalações para os jogos, voltou ao mapa da prosperidade. Receberá o Museu do Amanhã, projeto de R$ 130 milhões desenhado pelo premiado arquiteto espanhol Santiago Calatrava. E despertou o apetite de empreendedores, interessados em lucrar com a transformação da região em um efervescente destino turístico. Somente este ano, por exemplo, a prefeitura da cidade recebeu 43 vezes mais pedidos de abertura de novos negócios na região que em 2010.

Claro que ainda há grandes desafios e problemas (leia quadro à pág. 82) para ser enfrentados. A educação pública, a rede de saúde e o trânsito caótico são alguns que aguardam soluções definitivas e urgentes. A diferença é que, agora, as perspectivas de realização parecem reais. O Centro de Operações Rio, inaugurado no início do ano, é uma das ações nesse sentido. Através de um gigantesco telão com imagens geradas por cerca de 500 câmeras espalhadas por vários bairros, é possível ajudar no fluxo de trânsito e providenciar soluções para problemas de rotina, como o abastecimento de energia e gás.

O setor de hotelaria é um que corre contra o tempo para atender às demandas. Há uma série de eventos previstos até 2012, como os Jogos Mundiais Militares, o Congresso Mundial de Art Déco, o maior congresso de transportes da América Latina, o campeonato de Ultimate Fighting e a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável. É preciso hospedar todos esses visitantes. “Temos cerca de 30 mil quartos na cidade atualmente. A meta é construirmos 4.500 novos quartos até a Copa e outros 5.500 até a Olimpíada”, afirma Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro. “Praticamente todo o parque hoteleiro do Rio está sofrendo intervenções. Quatro mil quartos de motéis estão sendo reformados e adaptados para funcionar como hotéis econômicos.” A rede hoteleira do Estado deve receber R$ 1,4 bilhões até 2014, com a inauguração de 36 novos hotéis, 17 deles na capital. É um investimento necessário. A temporada de 2010 foi a de maior fluxo de visitantes internacionais em cinco anos – gerou impacto econômico de mais de US$ 2 bilhões.
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EXPECTATIVA
Clarisse Menezes (à esq.), Jade Barbosa e Flávio Canto à espera da Olimpíada
Os turistas chegam atraídos pelas boas-novas que ecoam mundo afora. A transformação que mais repercutiu até agora certamente é a da paz. O que parecia impossível alguns anos atrás vem acontecendo aos poucos: a retomada, pelo Estado, de regiões dominadas pelo tráfico. Em novembro de 2008, a favela Dona Marta, em Botafogo, na zona sul, foi a primeira a receber o novo projeto de policiamento idealizado pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), baseado na moderna ideia de policiamento comunitário permanente nas comunidades carentes. “Hoje, posso deixar minhas meninas correrem livres pelo morro. O movimento do boteco aumentou, já que os moradores do asfalto não têm mais medo de subir aqui”, conta o cearense José Bonfim, 41 anos, o Zequinha, dono de um bar no Dona Marta, onde mora desde 2001. A área de influência das UPPs já atinge 300 mil pessoas em 17 favelas. E o efeito é amplamente sentido nas estatísticas da violência. As mortes por arma de fogo de quem chega aos hospitais, por exemplo, caíram quase 42% entre 2009 e 2010 (leia quadro na pág. 80).

O ruído dos tiros deu lugar ao das máquinas. Juntamente com o Estado, a infraestrutura sobe os morros, melhorando a condição de vida dos moradores, antes ameaçados também pela carência de tudo, do saneamento ao transporte, ou pelo risco de desabamento de suas casas nas temporadas de chuvas. Em 2010, dezenas de pessoas morreram soterradas na cidade após temporais. A reação do poder público foi instalar um sistema de monitoramento do clima e de alarmes, que disparam antes da chegada dos pés d’água. Este ano, sirenes foram ouvidas em 21 comunidades, avisando quem estava em zonas de risco para deixar suas casas e seguir para abrigos.

Do ponto de vista econômico, a consequência imediata foi a valorização dos imóveis localizados próximos a favelas com UPPs. Alguns chegaram a dobrar de valor. O boom imobiliário é generalizado. Na zona sul, região que concentra os bairros mais chiques e onde houve maior valorização dos imóveis nos últimos tempos, os preços atingiram cifras astronômicas, até R$ 40 mil por metro quadrado, e já ultrapassaram os dos pontos mais luxuosos de Miami (leia quadro à pág. 80). Nas áreas mais concorridas do Rio está tão difícil alugar que os corretores são comparados a celebridades. A escassez de bons terrenos na zona sul, no entanto, empurrou os novos lançamentos para outras áreas. A Barra da Tijuca e Jacarepaguá, na zona oeste, são as regiões onde mais se constrói.

Entre o canteiro de obras no qual o Rio se transformou, a reforma do Maracanã é das que mais chamam a atenção. O estádio construído para a Copa de 1950 está sendo totalmente reformulado. O custo elevado, de quase R$ 1 bilhão, recebeu críticas. O governador Cabral, porém, alega que a substituição de toda a cobertura não estava prevista no projeto original, mas era urgente, pois colocava em risco a segurança dos frequentadores. Ele tentará amenizar o valor através de concessões à iniciativa privada. “Vou levantar um dinheiro bacana que até compense a obra”, promete. Acostumado a frequentar o Maracanã como torcedor do Flamengo, o paraibano Edwin de Paula, 42 anos, sente orgulho de estar trabalhando como montador na obra do estádio. “Quando ficar pronto, vou trazer minhas filhas para as arquibancadas e dizer orgulhoso a elas: eu ajudei a fazer.”

O orgulho, aliás, é, hoje, uma marca do carioca. O judoca Flávio Canto espera conseguir a classificação disputando a Olimpíada na terra natal. “Seria uma emoção imensa lutar por medalha tendo o apoio da torcida brasileira, no Rio”, diz. Na opinião dele, já há um pré-legado da Olimpíada, que é o resgate da autoestima. “Acredito que essa experiência será bem melhor que a do Jogos Pan-Americanos (2007)”, diz. A herança do Pan é controversa. A vila residencial construída para os atletas e, depois, vendida ao público, apresenta vários problemas estruturais. Mas Canto está otimista: “A ideia não é usar a cidade para fazer a Olimpíada, mas usar a Olimpíada para transformar a cidade”.
Mineiro muito carioca, o empresário Eike Batista decidiu investir generosamente na cidade onde mora – cerca de R$ 800 milhões até agora, segundo ele. Homem mais rico do Brasil, ele tem projetos diversificados. Doa R$ 20 milhões anuais para as UPPs. A recuperação ambiental da Lagoa é uma causa abraçada por sua empresa, a EBX. “Eu corro em volto da Lagoa, moro nesta cidade, um dia pensei: vou limpar esse negócio”, disse à ISTOÉ. “Por mês, gasto R$ 60 mil só com dragagem.” Um dos projetos mais ambiciosos é a revitalização da Marina da Glória, que começa em 2012. O investimento é de cerca de R$ 200 milhões. A Marina vai receber as competições de vela da Olímpíada de 2016. As doações estão dentro dos ensinamentos passados pela mãe, a alemã Jutta: “Não tem graça ser pavão sozinho. Se você alcança o sucesso, tem de ajudar a comunidade onde vive.”

E as perspectivas para o Estado são boas. O secretário de Desenvolvimento estadual, Júlio Bueno, estima que mais de 50 mil empresas devem ser abertas no Rio em 2011, contra 41 mil em 2010. “As que querem se instalar no parque tecnológico do Fundão, por exemplo, são tantas que tem empresário que me liga fazendo lobby para arrumar um pedaço de terra ali”, diz ele. Uma gigante que conseguiu um espaço é a multinacional General Electric (GE), que há alguns anos se viu obrigada a fechar uma fábrica vizinha à favela do Jacarezinho, uma das mais violentas. Agora, vai injetar R$ 240 milhões para instalar um centro de pesquisa. “A questão da segurança pesou na decisão”, disse Daniel Meniuk, líder das operações da GE no Rio.

 Os maiores investimentos vêm da Petrobras. A companhia de petróleo, que em 57 anos de existência investiu no Estado cerca de R$ 350 bilhões, despejará, até 2014, R$ 172 bilhões junto com parceiros. Ou seja: em quatro anos, quase a metade do investido em mais de 50. O valor dos recursos a ser aplicados pela Petrobras no Rio corresponde a 41,5% dos investimentos da empresa para todo o País. Na casa dos milhões, a lista é enorme. Maior empresa brasileira na venda de porta em porta, com 600 mil consultores, a Hermes vai construir dois centros de distribuição no Estado, ao custo de R$ 350 milhões. “E vamos aumentar em 30%, pelo menos, o número de empregados no Rio”, diz o presidente Gustavo Bach. A João Fortes Engenharia fará este ano 24 lançamentos imobiliários no País, sendo dez no Rio. Um deles, o shopping center Park Lagos, em Cabo Frio, ao custo de R$ 130 milhões. “Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil, com atenção especial para o Rio de Janeiro”, acredita Francisco de Almeida e Silva, presidente da João Fortes. Por isso, é tempo de o Rio reencontrar sua vocação para protagonista.
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Colaboraram: Eliane Lobato e Michel Alecrim 

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