domingo, 24 de fevereiro de 2013

Notícia da Semana Atualidades (A Volta de D. Pedro I)


A volta de Dom Pedro I

A exumação dos corpos do imperador e de suas duas mulheres elucida dúvidas sobre a monarquia, reconta detalhes da história e traz o passado do País para mais perto dos brasileiros

João Loes
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Não são muitas as oportunidades de testemunhar a história ser reescrita. Às vezes, na academia, ela até ganha novas leituras à luz da época e das teorias de quem se propõe a reinterpretá-la. Mas fatos novos surgirem é coisa rara. Isso torna ainda mais importantes as descobertas que começam a ser feitas a partir da exumação inédita dos corpos de dom Pedro I, imperador do Brasil, e suas duas mulheres, dona Leopoldina e dona Amélia. Fruto do extenso trabalho que envolveu 11 instituições dos três âmbitos de governo e mobilizou uma equipe liderada pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, os resultados iniciais, divulgados pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, têm o fascínio de trazer o passado para os dias de hoje. O interesse despertado pela pesquisa também é sinal da onda de valorização da história que se nota no mundo todo, com um público global que parece ávido por saber um pouco mais sobre o que já foi um dia. Os estudos que a intrincada exumação incentiva devem ainda dar início a um processo de revisão e redescobrimento da história nacional. Em breve, teorizam historiadores ouvidos por ISTOÉ, poderemos até ver algumas modificações nos livros didáticos brasileiros a partir do que dizem os restos mortais da família imperial. Entre os personagens examinados, dom Pedro I e a imperatriz Leopoldina renderam as revelações mais saborosas da pesquisa. Ele, em especial, por sua importância histórica e por ser o eixo central dos três exumados, foi quem mereceu mais atenção.
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TRABALHO MINUCIOSO
Estudos dos restos mortais do imperador e de suas esposas
permitem rever fatos históricos. Abaixo, dona Amélia mumificada
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Dom Pedro I, feito imperador do Brasil em 12 de outubro de 1822, morreu e foi enterrado em Portugal em 1834. Ele havia abdicado do trono brasileiro três anos antes e regressado para a Europa. Seus restos mortais foram trasladados para o País em 1972, na comemoração dos 150 anos de Independência, sendo abrigados na cripta do Monumento à Independência, em São Paulo. A abertura do caixão, em fevereiro do ano passado, foi trabalhosa e demorada (leia mais às págs. 62 e 63). Um levantamento preliminar do material já permitiu a revisão de algumas verdades estabelecidas sobre o imperador, além de novas interpretações de fatos conhecidos.
Por mais de um século, a imagem propagada de dom Pedro I era a de um homem esguio, forte e alto. Assim ele foi retratado em telas e, posteriormente, no cinema e na tevê. Por isso, o patriarca da independência que habita o imaginário brasileiro é o do imperador montado no cavalo branco, grande e imponente como o pintou Pedro Américo num dos principais quadros do Museu da Independência. Ou o dom Pedro I galã, interpretado, em 1972, por Tarcísio Meira no filme “Independência ou Morte”. A verdade, porém, é que nem porte de galã ele tinha. Segundo as conclusões iniciais da pesquisa, ele media entre 1,66 m e 1,73 m. Portanto, era baixinho para os padrões atuais, mas de boa estatura para a época. A partir da estrutura óssea pode-se inferir que era atlético. “Bate com os relatos que temos de que ele era um sujeito hiperativo, sempre envolvido com algum tipo de atividade física”, afirma Mary del Priore, historiadora e autora de “A Carne e o Sangue”, sobre a família imperial.
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A exumação também revelou que quatro costelas do lado esquerdo estavam quebradas. Elas são resultado de acidentes em vida porque havia marcas de cicatrização, processo que cessa após a morte. É um achado que confirma a documentação existente sobre os acidentes sofridos por dom Pedro I – um em 1823 e outro em 1829 –, mas que também expande a discussão sobre as aptidões e o estilo dele para exercer o poder. “De informações como essa, que confirmam lesões graves decorrentes dos riscos que o imperador assumiu, podemos inferir que ele não era um homem talhado para a vida em gabinete”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP).
De fato, dom Pedro I era mais talhado para a ação do que para reflexões. Ao regressar para Portugal, por exemplo, depois da abdicação do trono no Brasil, fez treinamento na França para melhorar a condição física como preparação para a guerra que travaria com seu irmão, dom Miguel, pelo trono português. Negociar uma saída diplomática não era sequer uma possibilidade. “Todo governante constrói para si a imagem que deseja ter, e dom Pedro I sempre quis ter fama de cavaleiro destemido e apaixonado”, diz o historiador Maurício Vicente Ferreira Jr., diretor do Museu Imperial em Petrópolis. “De certa forma ele conseguiu, tanto para o bem quanto para o mal.”
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FAMÍLIA
A historiadora e arqueóloga Valdirene Ambiel com o crânio de dom Pedro I.
No alto, a segunda mulher, dona Amélia, e acima a primeira, dona Leopoldina
Dona Leopoldina, sua primeira mulher, sentiu na pele o lado passional de dom Pedro I. Dado a variações de humor, toda energia que ele tão facilmente depositava nas causas em que acreditava podia rapidamente se tornar agressividade. A imperatriz narrava em suas cartas a violência psicológica a que era submetida. Queixava-se do marido à irmã mais velha, Maria Luisa de Áustria, e a amigas como Maria Graham, sua educadora na infância. A correspondência mais reveladora, de 8 de dezembro de 1826, endereçada a Maria Luisa, fala de sofrimento e morte iminente – a imperatriz morreria três dias depois de ditar esta carta. “Há quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado de maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro”, desfia. Mais adiante, faz menção a um “horroroso atentado que será a causa de minha morte”.
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Isso ajudou a propagar a história de que dom Pedro I, em um acesso de raiva, teria dado um pontapé na imperatriz grávida, jogando-a escada abaixo no palácio na Quinta da Boa Vista, em São Cristovão, no Rio de Janeiro. O ataque teria quebrado o fêmur da imperatriz, causado seu último aborto e deflagrado a infecção generalizada que a matou em 1826. A origem da briga era a relação de dom Pedro I com a amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos, a quem ele havia promovido a dama de companhia da imperatriz. A gota d’água para Leopoldina foi o fato de dom Pedro resolver assumir publicamente Isabel Maria, a filha que teve com Domitila, concedendo o título de duquesa de Goiás à menina de dois anos. Leopoldina o censurou numa carta: “Escolhes entre a esposa e a amante!” A reação brutal do imperador foi testemunhada pelo Barão de Mareschal, um agente do governo da Áustria, além de outras duas pessoas. Segundo Mareschal, ele gritou com a mulher que “lhe tiraria os cavalos para passeio e outros impropérios”. O austríaco também teria sido um dos responsáveis por espalhar na corte que dom Pedro espancara a esposa.
Uma das revelações importantes dos restos exumados de dona Leopoldina foi a de que não havia sinais de fratura em seu fêmur. Essa informação, em tese, desmentiria o episódio da Quinta da Boa Vista. “É uma história de origem pouco conhecida, mas que foi repetida infinitamente e acabou sendo tratada como verdade”, diz Isabel Lustosa, historiadora da Fundação Casa de Rui Barbosa e autora do livro “D. Pedro I: Um Herói Sem Nenhum Caráter”. Na Europa, tias e amigas de dona Leopoldina na Áustria espalharam a versão sobre a morte da imperatriz pelas cortes do continente. No Brasil, ela ganhou as páginas de jornais de oposição, como o republicano “O Repúblico”, que chegou a chamar dom Pedro I de monstro. Seria uma mancha imensa na história da família imperial, se é que a história é verdadeira. Mas os ossos intactos deram ânimo aos descendentes da monarquia. “Ele não era esse monstro”, rebate dom Antônio João Maria de Orléans e Bragança, 62 anos. “Está provado que não houve nenhuma agressão”, reforça dom Betrand Maria de Orléans e Bragança e Wittelsbach, 72 anos, que autorizou as exumações, nas quais estiveram presentes um sacerdote. A pesquisadora responsável pelo estudo, porém, diz não ser possível fazer tal afirmação. “O que dá pra dizer é que ela não foi vítima de violência com força suficiente para quebrar um fêmur”, esclarece Valdirene.
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Os ossos da imperatriz, no entanto, desfazem a imagem de que ela era rechonchuda. Quando a jovem Leopoldina chegou ao Brasil, aos 19 anos, era “pequena, muito branca e com cabelos de um loiro fosco”, segundo historiadores. Depois de algum tempo no Rio de Janeiro teria engordado, passando a ser descrita como “baixa e corpulenta”. Uma amiga que a visitou no Paço Imperial, a Baronesa de Monet, chegou a ser ferina no relato da silhueta da imperatriz: “Parece talhada numa peça só.” Mas os exames da ossada sugerem, segundo Valdirene, que ela era uma mulher magra. Talvez o fato de dona Leopoldina ter tido nove gestações durante os nove anos em que viveu no Brasil tenha contribuído para essa imagem de gordinha.
No fim da vida, a depressão tomou conta da imperatriz que, além de tudo, estava sem dinheiro. Ela contraiu dívidas com comerciantes para dar conta de suas despesas enquanto dom Pedro I, sovina, regulava até a despensa da casa e a privava da mesada que seus familiares austríacos mandavam. Isso poderia explicar porque a imperatriz foi enterrada praticamente sem joias, apenas com um brinco simples e sem luxo, supostamente ornado por uma gota de resina, como mostrou a exumação. “Não dá para dizer qual é o material porque os exames ainda não foram concluídos”, ressalva a arqueóloga Valdirene. “E ainda que seja resina, há resinas caríssimas, como o âmbar.” Mesmo assim, surpreende a ausência de outras joias no caixão. “Onde estão as tiaras, os colares e as pulseiras que condizem com o status de imperatriz que ela tinha?”, questiona Maurício Vicente Ferreira Jr., do Museu Imperial de Petrópolis. “dona Leopoldina foi enterrada com o vestido que usou para a coroação do marido, é esperado que ele tenha sido desenhado com um conjuto de joias próprio, que, surpreendetemente, não está presente.”
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HOMENAGEM
Os corpos das três figuras históricas estão abrigados na cripta imperial
do Monumento à Independência, no parque da Independência, em São Paulo
As vestimentas do enterro de dom Pedro I também foram motivo de surpresa para os pesquisadores. Não havia qualquer comenda brasileira entre as seis encontradas nas roupas militares do imperador. “É preciso entender o contexto da morte dele”, diz o professor Paulo Jorge Fernandes, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. dom Pedro I morreu em Portugal como dom Pedro IV depois de se sair vitorioso de uma dura batalha contra o irmão tirano, dom Miguel. O foco estava na pátria-mãe. “É natural que ele ganhasse estas insígnias, não há desrespeito com a história brasileira”, afirma.
Para entender a divergência, convém separar a vida de dom Pedro I em três estágios distintos. O primeiro, em Portugal, como primogênito de dom João VI, o segundo, no Brasil, como imperador, e o terceiro, de volta a Portugal, como o rei soldado dom Pedro IV. Quando ele voltou a Portugal, sua vida havia mudado de tal maneira que ele já estava, inclusive, casado com sua segunda mulher, dona Amélia de Leuchtenberg, que também foi exumada da cripta do Monumento à Independência. Do caixão dela veio uma das maiores surpresas de toda operação: seu estado de conservação. Ela tinha pele, olhos, cílios e cabelo intactos. Em 1982, quando houve o traslado do seu corpo para o Brasil, foi constatado que ela estava preservada, mas sua localização na cripta era a pior, por isso, a expetativa era de grande deterioração.
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Curiosamente, dona Amélia queria um velório simples. “Em testamento, ela pediu, textualmente, para não ser autopsiada ou embalsamada”, afirma a pesquisadora Cláudia Thomé Witte, especialista na história da segunda mulher do imperador. Porém, o texto foi lido dois dias depois do enterro, na Ilha da Madeira, onde dona Amélia morava na época. Quem preparou seu corpo foi o médico Francisco Antônio Barral, também responsável por embalsamar a filha dela, Maria Amélia do Brasil, que morreu de tuberculose aos 21 anos em 1853. Na época, era comum europeus com a doença rumarem para ilha atrás de ar puro e repouso. Para o corpo da jovem, a imperatriz havia pedido o melhor método de embalsamamento da época, pois ela tinha intenção de velá-la por muito tempo – a cerimônia fúnebre durou impressionantes dois meses. E quando dona Amélia morre,u Francisco Barral decidiu usar na imperatriz a mesma técnica aplicada na infanta. O acaso ainda colocou dona Amélia no caixão e sarcófago mais bem fechados dos três que estão na cripta, o que criou uma situação ideal de preservação. Quando foi aberto, em 10 de agosto de 2012, o cheiro de cânfora dominou o ambiente, pois a substância era um dos principais ingredientes do embalsamamento.
Dona Amélia teve uma vida muito mais calma do que dona Leopoldina. Dom Pedro I, mais velho e consciente da dificuldade que seus assessores tiveram para lhe encontrar uma segunda mulher – sua fama de violento ainda dominava as cortes europeias e ele ouviu oito recusas, da Baviera ao Piemonte, até ser aceito –, foi amoroso e atencioso com a nova imperatriz. Para a pesquisadora Cláudia, isso explica o fato de dona Amélia ter guardado luto por 39 anos, até sua morte. Ela foi enterrada de preto.
Muitas outras interpretações ainda serão feitas a partir da pesquisa da arqueóloga Valdirene, apresentada como um projeto de mestrado no departamento de história da Universidade de São Paulo na semana passada. Novos dados também surgirão a partir da análise da montanha de informação acumulada pelas fotos e exames médicos desses três protagonistas da nossa história. A análise levará anos e ajudará a compor um perfil mais fiel da família imperial. Há muito trabalho por fazer e Valdirene Ambiel, 41 anos, pretende se encarregar de pelo menos parte dele em um doutorado. “São poucas as oportunidades que temos de mostrar ao grande público, de forma tão clara e direta, que a história não é uma verdade única e inquestionável, descansando em um livro”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino. Estamos diante de uma delas.
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Colaboraram: Laura Daudén, Mariana Brugger e Juliana TiraboschiMontagem sobre de João Castelano/Ag. Istoé; Divulgação
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/277892_A+VOLTA+DE+DOM+PEDRO+I?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Notícia da Semana Atualidades (Matéria extra, Estupidez organizada)


Estupidez organizada

Morte de adolescente por sinalizador disparado por torcedores na Bolívia é a prova de que não basta haver regras no futebol, é preciso cumpri-las e punir quem desobedece a elas

Rodrigo Cardoso
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No meio da massa que dá o tom de espetáculo aos estádios de futebol existe um bando de pessoas – talvez vestindo as mesmas cores que você – armado. O artefato da moda, usado por esses grupos para manifestar a paixão pelo time, são os sinalizadores. O problema é que eles matam. Foi uma arma desse calibre, um cilindro plástico de 20 centímetros de comprimento por 2,5 centímetros de diâmetro utilizado geralmente pelas Forças Armadas, que matou o adolescente boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, na quarta-feira 20. Aos 14 anos, ele assistia ao jogo válido pela Copa Libertadores da América no estádio Jesús Bermúdez, em Oruro, entre o San José e o Corinthians, atual campeão do torneio, quando foi alvejado no olho direito por um projétil, que penetrou em seu crânio, provocou perda de massa encefálica e o matou na hora.
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O disparo partiu de integrantes da torcida do time brasileiro, de acordo com as autoridades locais. O Corinthians já foi punido. O Tribunal de Disciplina da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) definiu que o time jogará toda a edição 2013 da Libertadores com os portões fechados e não poderá contar com seus torcedores nem nas partidas em que atuará como visitante. Doze corintianos estão detidos na Bolívia. Com eles, foram recolhidos nove objetos semelhantes ao que matou o adolescente. Pior: o modelo dos sinalizadores apreendidos, segundo os policiais bolivianos, não é vendido naquele país, o que leva a crer que os “torcedores” atravessaram a fronteira com a arma escondida. Mas o que leva alguém a ir para um estádio armado com um sinalizador naval? E o que fazem as autoridades responsáveis que, descumprindo as regras do futebol, permitem a entrada de fogos de artifício e sinalizadores nos palcos dos jogos? “Eles chegam em grupos simulando ambiente de festa, pulando, gritando, para ultrapassar barreiras da polícia”, diz o sociólogo Maurício Murad, do mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), um estudioso do comportamento de torcidas organizadas.
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A VÍTIMA E OS ALGOZES
Doze corintianos estão presos na Bolívia e com eles foram recolhidos nove sinalizadores.
Acima, Kevin Douglas Beltrán Espada, 14 anos, morto enquanto assistia ao jogo do seu time
Regras existem. O código de disciplina da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), entidade organizadora do torneio, prevê punição, em seu artigo 11, para clubes cujos torcedores manifestem comportamentos inadequados, como invasão de campo, objetos atirados no gramado, uso de sinalizadores, fogos de artifício ou qualquer outro objeto pirotécnico. Tanto que o Corinthians já foi punido. Como, então, a revista feita pelos policiais na porta do campo não recolheu o objeto? O trabalho policial, seja no Brasil, seja em qualquer outro país, tem de ser sério para banir essas armas com potencial letal. O sinalizador é um artefato cujo projétil atinge longas distâncias. Dentro de um estádio de futebol, em meio a uma multidão, se torna ainda mais perigoso. Mesmo que o torcedor brasileiro não tivesse a intenção de atingir o boliviano, não se pode dar margem para que esse tipo de objeto seja manipulado por torcidas organizadas, que, muitas vezes, enxergam o adversário como inimigo mortal.
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Fonte: Maurício Murad, sociólogo do mestrado da Universidade
Salgado de Oliveira (Universo), pesquisador de torcidas organizadas
No Brasil, onde os objetos pirotécnicos passaram a ocupar as arquibancadas em meados dos anos 1990, o Estatuto do Torcedor proíbe o porte ou a utilização de fogos de artifício ou quaisquer outros engenhos pirotécnicos. Mesmo assim, é comum assistir ao “espetáculo” de luzes produzido por esses objetos nos jogos. Deve-se considerar uma particularidade desses infratores travestidos de torcedores de futebol: eles se valem do fato de estarem na multidão para delinquir e agem na invisibilidade da massa. Só que, com as dezenas de câmeras que captam as imagens dentro de um campo de futebol, é possível identificar e punir quem burla a norma. “Aqui não se faz isso. E deveria ser feito”, afirma o procurador de Justiça Fernando Capez, hoje deputado estadual paulista, que combateu a violência das torcidas organizadas.
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NO MEIO DA MASSA
A torcida em ação, na quarta-feira 20. No detalhe,
o momento em que o artefato foi disparado
No ano passado, na Argentina, onde também são proibidos sinalizadores, rojões e fogos nos estádios, três corintianos ludibriaram a segurança e entraram no estádio La Bombonera, na primeira partida da final da Libertadores entre Corinthians e Boca Juniors, com 50 pacotes de artefatos. Durante o jogo, porém, as câmeras captaram a luz suspeita e torcedores foram identificados pelos policiais. Encaminhados para a delegacia, eles se comprometeram a doar fraldas a um hospital e foram proibidos de frequentar partida de futebol em território argentino durante um ano. Por aqui, as autoridades têm insistido para que as organizadas denunciem o integrante que cometa algum ato de vandalismo, sob o risco de a torcida toda ser responsabilizada. Essa estratégia deu resultado no confronto entre Santos e São Paulo, no começo deste mês, quando um rojão foi lançado de um dos ônibus de torcedores do time da Baixada Santista e estourou ao lado de um dos policiais que faziam a escolta do veículo. De imediato, o ônibus foi parado para que, naquele momento, o autor se apresentasse. Do contrário a torcida inteira seria levada para a delegacia e correria o risco de sofrer uma eventual suspensão. É preciso tolerância zero com as torcidas organizadas nos estádios para que o futebol volte a ser um evento de diversão e não uma ameaça aos espectadores.
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Fotos: EFE/STRINGER; Juan Karita/ AP Photo
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/277873_ESTUPIDEZ+ORGANIZADA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Notícia da Semana Atualidades ( O Poder Paralelo no Vaticano)


O poder paralelo que abateu o Papa

Sucessão de escândalos, intrigas e disputa de poder levou o pontífice à mais radical das decisões: deixar o trono de Pedro para enfraquecer os traidores

por Débora Crivellaro
“A face da Igreja, às vezes, é desfigurada. Penso em particular nos golpes contra a unidade da Igreja, as divisões no corpo eclesial. Por isso, Jesus denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação...”
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A voz é fraca, instrumento de um homem fisicamente pequeno. Deveria sumir no ambiente imponente, construído para lembrar aos mortais a sua insignificância diante dos desígnios divinos. Mas do majestoso altar erigido sobre o local onde está o túmulo do apóstolo Pedro, fundador da Igreja Católica, ecoa uma mensagem retumbante. E com ela, o mirrado orador recupera sua grandeza. Dois dias depois de assombrar o mundo com seu pedido de renúncia, Bento XVI, o pontífice octogenário novamente surpreendia, ao sacramentar, em plena missa de Quarta-Feira de Cinzas, 13 de fevereiro, na monumental Basílica de São Pedro, em Roma, a existência de uma guerra de poder nas fileiras do Vaticano. Seu próprio pontificado seria uma vítima desse bíblico confronto.
Ainda assim, Joseph Ratzinger em nada lembrava o homem pálido, de olhar pesado e cansado dos últimos dias. Suas palavras decididas denunciaram o governo paralelo que insistia em se instalar dentro da Santa Sé. Com a boa condição física que demonstrou durante toda a cerimônia, revelou que a alegação oficial de falta de vigor físico não foi a razão para abdicar ao trono de Pedro. Mais do que um gesto de reconhecimento das suas próprias limitações, a renúncia foi um ato político. Isolado dentro do Vaticano, Bento XVI optou por sair para derrubar, junto com ele, seus traidores e, assim, tentar recompor a instituição. Na última celebração como papa na Basílica, ele mostrou que, às vésperas de despir-se das vestes que o tornam um ser quase divino, um representante de Deus na Terra, é um humano mais forte e lúcido do que se supunha – assim como é humana a vingança que seu gesto pode impor àqueles que o traíram.
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PROTESTO
Manifestantes pelas vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes,
em Los Angeles, neste mês: acusações contra a omissão de Bento XVI
O peso de sua retórica abalou os pilares do poder paralelo que agia à sua volta e fustigou as dezenas de car­deais presentes à celebração. “Ficamos sem palavras”, declarou o cardeal Giovanni Lajolo, estupefato logo após a cerimônia. Mas, certamente, as fortes declarações do sumo pontífice tiveram um destinatário preferencial: Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano e segundo homem na hierarquia do atual pontificado. Amigo pessoal de Ratzinger, foi um dos religiosos que se tornaram mais poderosos quando o cardeal alemão foi empossado papa, em 2005. Em vez de aliado, o italiano se converteu em líder do processo de esvaziamento de poder que levou à renúncia de Bento XVI, uma possibilidade real para o religioso alemão já há alguns anos, asseguram pessoas próximas a ele, inclusive seu irmão mais velho, Georg.
O pontificado de Ratzinger começou a ruir quando seus assessores diretos passaram a boicotar suas iniciativas. Como seu projeto de “limpeza moral interna”, por exemplo. O alemão chegou ao posto máximo da Igreja Católica com a intenção de promover uma varredura nos casos de abusos sexuais cometidos por religiosos, que vieram à tona às centenas pelo mundo desde o pontificado de João Paulo II. Mas suas decisões de punir os envolvidos com rigidez eram simplesmente ignoradas ou postergadas por anos. Exausto por não conseguir implementar suas iniciativas, o papa chegou a declarar que “havia muita sujeira na Igreja”. À frente do grupo de assessores dissidentes estava o cardeal Bertone. Um dos episódios mais eloquentes do modus operandi de Bertone foi o afastamento do cardeal Carlo Maria Viganò da Cúria Romana. Viganò tentou romper a lei do silêncio imposta por uma verdadeira máfia que desviava verbas, fraudava licitações e tramava complôs contra o pontífice. Em uma carta entregue ao papa em outubro de 2011, ele denunciava o esquema de corrupção no Vaticano. Em represália, foi afastado de Roma e nomeado por Bertone como núncio apostólico nos Estados Unidos. Para evitar o confronto direto, Bento XVI optava por não questionar seu segundo na hierarquia. Até que perdeu o controle da situação.
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Se é possível precisar uma data em que o pontífice tomou a decisão extrema de se tornar o primeiro papa renunciante da era moderna – quase um tabu teológico para o 1,2 bilhão de católicos do mundo –, esta seria o dia 17 de dezembro de 2012. Na ocasião, três dos mais antigos cardeais – o espanhol Julián Herranz, o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko – entregaram ao pontífice um novo relatório sobre o escândalo de vazamento de documentos oficiais do Vaticano, conhecido como Vatileaks. Após interrogar cerca de 30 pessoas sobre o caso, a seleta comissão informou ao religioso que havia na Cúria Romana uma grande resistência a mudanças e muitos obstáculos às ações pedidas pelo líder máximo para promover a transparência. Abatido, isolado e muito impressionado com o conteúdo dos relatórios, o alemão – que, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no pontificado de João Paulo II, era conhecido como “rottweiller de Deus” – preferiu deixar o trono do apóstolo Pedro. “O ato do papa foi encorajado pela insensibilidade de uma cúria que, em vez de confortá-lo e apoiá-lo, apareceu, por diversos de seus expoentes, mais empenhada em jogos de poder e lutas fratricidas”, afirmou em editorial o respeitado jornal italiano Corriere della Sera.
Nove meses antes do derradeiro relatório, quando passava férias na sua residência de verão, em Castelgandolfo, os mesmos emissários o haviam visitado em segredo. Então, descortinaram para Ratzinger a intrincada rede de roubo e vazamentos para a imprensa de documentos oficiais do Vaticano, um dos maiores escândalos da história recente da Igreja Católica. O responsável pelo vazamento era identificado como “corvo” – mais tarde soube-se que se tratava de Paolo Gabriele, 46 anos, o mordomo que servia ao papa, próximo a ponto de ser o responsável por vesti-lo em seus aposentos pontifícios. O teor dos documentos lançava suspeitas sobre complôs na Cúria Romana para esconder supostos desvios de recursos e malversação de fundos da Igreja, e tinha como alvo o cardeal Bertone. Bento XVI se via, então, diante de sua via-crúcis pessoal.
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Descoberto, Gabriele confessou o crime, foi preso, julgado pela Justiça do Vaticano e condenado a 18 meses de prisão, em 8 de outubro de 2012. O mordomo afirmou que resolvera roubar e divulgar os documentos por julgar que o papa não estava sendo informado do que se passava de errado na Santa Sé. Então, na véspera de Natal, o pontífice octogenário caminhou até o local onde seu antigo assistente pessoal cumpria pena. Sentou-se ao seu lado por quinze minutos e lhe concedeu o perdão. Pessoas próximas dizem que, com esse gesto, Bento XVI sinalizou saber que Gabriele não agia sozinho, era apenas uma peça auxiliar numa rede que desestabilizou seu pontificado.
O cardeal Bertone, um dos personagens do Vatileaks, está presente em quase todos os episódios que levaram ao derradeiro ato de Bento XVI, na segunda-feira 11 – apesar de ser ingênuo pensar que ele é o único ator desse grupo dissidente, que agiu nos bastidores eclesiais para enfraquecer o poder papal. Em 2009, por exemplo, o pontífice alemão nomeou o financista Ettori Gotti Tedeschi, ligado ao movimento conservador Opus Dei, como presidente do Instituto para Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano. O religioso havia decidido colocar em ordem, definitivamente, as finanças da Santa Sé. Tedeschi bem que tentou. Em 2012, elaborou uma documentação, na qual informava suas descobertas – contas escusas de políticos, construtores e altos funcionários do Estado. Até um chefe da máfia italiana havia colocado seu dinheiro nos cofres do IOR. Não demorou para que o financista de confiança do papa fosse destituído, no mesmo mês em que o mordomo Gabriele foi preso. A operação para derrubá-lo foi comandada por conselheiros do banco, com o aval de Bertone. Não satisfeitos em tirá-lo do cargo, elaboraram um dossiê que destruía Tedeschi pessoal e profissionalmente.
Se a poderosa e intrincada teia de intrigas formada por religiosos de alta patente é a razão para a situação de não governabilidade do 265º pontificado da história da Igreja Católica, a personalidade de Joseph Ratzinger explica a coragem para a renúncia. O maior teólogo da atua­lidade, pensador brilhante, de uma lucidez elogiada até por seus desafetos, o alemão sempre foi conhecido por ser extremamente racional e disciplinado. “Ratzinger é, sobretudo, um intelectual com uma sensibilidade especial para as ideias e a cultura e uma incapacidade e insatisfação para a gestão burocrática. E não é um homem midiático, ainda que se esforce para sê-lo”, afirma o vaticanista espanhol Juan Arias.
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Cardeal mais identificado com João Paulo II, o pontífice sempre teve consciên­cia de que foi eleito no calor da comoção da morte do polonês, quando ainda ecoavam os gritos de “Santo Súbito” na Praça de São Pedro. Intimidados, os cardeais votantes no conclave de 2005 preferiram, de alguma forma, manter a administração Wojtyla. Ao se retirar e forçar uma sucessão com o papa vivo, Bento XVI, exclui o componente emocional do luto, eximindo os votantes da continuidade. E ainda pode, como fez em seu discurso de renúncia e na homilia de Cinzas, sugerir pistas de como deveria ser seu substituto – mais novo e com perfil administrador (portanto, menos erudito e introspectivo, como ele próprio). Além de alguém que promova a “renovação verdadeira” na Igreja, algo como um Concílio Vaticano III, como conclamou num encontro com sacerdotes da Diocese de Roma, na quinta-feira 14.
Só um homem em pleno vigor de suas forças poderia tomar uma decisão tão revolucionária e enfrentar acusações como a do cardeal Stanislaw Dziwisz, ex-secretário de João Paulo II, autor da frase “da cruz não se desce” sobre a renúncia. Certamente, ao dizer isso, o cardeal polonês se lembrou de uma entrevista dada por Ratzinger a uma tevê italiana, durante o calvário de João Paulo II, que agonizou diante de seus fiéis. Na ocasião, o então prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé afirmou categoricamente que o papa não podia renunciar. “O Senhor é que dá a alguém a responsabilidade de ser papa. Não foram os cardeais que fizeram dele um papa, mas, sim, uma intervenção divina.” Ao proferir a frase que foi tão replicada nas redes sociais, Dziwisz pode ter pensado por que agora o religioso alemão havia mudado de ideia. Essa foi apenas mais uma censura sofrida ao longo de seu pontificado. Bento XVI foi duramente criticado por muçulmanos, que chegaram a compará-lo a Hitler, por exemplo. Também foi censurado quando associou o uso de camisinha ao vírus HIV na África. E sai de cena criticado pelas associações de vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes, que apesar de reconhecerem que ele ousou tocar na ferida e pedir desculpas publicamente, não o perdoam por não ter conseguido pôr fim aos casos.
A pontuar essa sequência galopante de disputas internas, escândalos e polêmicas está um religioso que já no seu primeiro discurso como papa combateu o que chamou de “ditadura do relativismo” da atualidade, sempre fez questão de deixar claro que prefere poucos, mas bons católicos e defendeu ferrenhamente a tradição, a doutrina e a moral cristãs, sem a mudança de um versículo sequer. Diante dessa política de gestão, a Igreja foi perdendo fiéis, principalmente na Europa e nas Américas. Mas esse, agora, é um desafio para o próximo papa. A voz frágil de Bento XVI, que ecoou como um grito ensurdecedor na Basílica de São Pedro na quarta-feira 13, tamanha a gravidade de seu discurso, já deu o seu recado.
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/276094_O+PODER+PARALELO+QUE+ABATEU+O+PAPA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Renúncia do Papa)


Papa Bento XVI vai renunciar no dia 28 de fevereiro

Líder da Igreja Católica alegou motivos de saúde para deixar o cargo

AFP e Terra
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O Vaticano confirmou na manhã desta segunda-feira que o papa Bento XVI vai renunciar ao posto de líder mundial da Igreja Católica no próximo dia 28 de fevereiro.

Em comunicado, o Papa anunciou que tomou a decisão por considerar que sua condição de saúde já não era adequada para continuar no cargo. 

"Após ter repetidamente examinado minha consciência ante Deus, eu tive a certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, não são mais ideais para um adequado exercício do ministério Petrino", disse o Papa em comunicado.
 
A decisão do Papa é uma grande surpresa para a comunidade católica e para a imprensa mundial, uma vez que, apesar de rumores, não havia sinais de que ele estava prestes a renunciar.
 
Na semana passada, um porta-voz do Vaticano disse que boatos de que Bento XVI renunciaria eram "criações infundadas de alguns jornalistas". 
 
Bento XVI, 85 anos, tornou-se Papa em abril de 2005. Ele substituiu João Paulo II, que morreu no mesmo mês.
 
O último Sumo Pontífice a renunciar foi Gregório XII, 1415.
 
Confira a íntegra do comunicado de Bento XVI:
 
Queridos irmãos,

Eu convoquei vocês para esse Consistório, não apenas para as três canonizações, mas também para comunicá-los de uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Após ter repetidamente examinado minha consciência ante Deus, eu tive a certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, não são mais ideais para um adequado exercício do ministério Petrino. Eu estou bem consciente de que esse ministério, devido à sua essencial natureza espiritual, deve ser realizado não só com palavras e ações, mas não menos com orações e sofrimento. Contudo, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de profunda relevância para a vida da fé, de modo a governar a casa de São Pedro e proclamar o Evangelho, ambas as forças mental e de corpo são necessárias, força que em mim nos últimos meses, deteriorou a um ponto que eu tenho de reconhecer minha incapacidade para cumprir adequadamente o ministério confiado a mim. Por esta razão, e totalmente ciente da seriedade do ato, com toda a liberdade eu declaro que renunciarei ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, confiado a mim pelos cardeais em 19 de abril de 2005, de maneira que, a partir das 20h do dia 28 de fevereiro, a Sé de Roma, a Sé de São Pedro, estará vaga e um Conclave para eleger o novo Sumo Pontífice deverá ser convocado por aqueles competentes para isso.

Queridos irmãos, eu os agradeço com muita sinceridade por todo amor e trabalho com o qual vocês apoiaram o meu ministério e peço perdão por todos os meus defeitos. E agora, confiemos a nossa Santa Igreja aos cuidados de nosso Supremo Pastor, nosso Senhor Jesus Cristo, e implorar que sua sagrada Mãe Maria para que ela ajude os Padre Cardeais com a sua solicitude materna na eleição do novo Sumo Pontífice. Em relação a minha pessoa, eu desejo também devotadamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro através de uma vida dedicada a orações.

Bento XVI

Fonte:http://www.istoe.com.br/reportagens/274965_PAPA+BENTO+XVI+VAI+RENUNCIAR+NO+DIA+28+DE+FEVEREIRO?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Notícia da Semana Atualidades (Tragédia em Santa Maria)


Santa Maria, rogai por eles!

A cidade que morreu com seus jovens busca uma razão para renascer nos sonhos dos que se foram e na luta dos heróis que evitaram um desastre ainda maior

Amauri Segalla, enviado especial a Santa Maria
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O engenheiro agrônomo Sylvio Henrique Bidel Dornelles acordou sobressaltado na manhã do domingo 27. Seu apartamento foi invadido pelo som de motores e sirenes de ambulâncias e carros de polícia. E, de repente, viu-se em um macabro camarote. De sua varanda, ele assistia aos veículos parando ali defronte, onde fica o Centro Desportivo Municipal de Santa Maria. Deles, um a um, eram desembarcados jovens sem vida. Foram 234 ao longo do dia. A tragédia o alcançou logo cedo e foi se aproximando cada vez mais, devastando-o cada vez mais. Logo ele ficou sabendo que os corpos vinham da boate Kiss, que a filha Clarissa frequentava até que o pai a proibisse, depois que ela presenciou uma briga no local. Nos rostos desesperados de quem chegava em seguida, à procura de notícias dos estudantes que saíram de casa na noite anterior para ir a uma festa e não haviam voltado, enxergava figuras conhecidas. “Alguns pais não tiveram coragem de reconhecer os corpos e me chamaram para ir junto”, diz Dornelles na quarta-feira 30, enquanto aponta, da varanda do apartamento, os galpões antes cheios de caixões e agora vazios. Ele tem dificuldade para falar sobre isso. Enquanto conversa, o som da voz sai baixo, quase inaudível, e as frases são curtas. Professor do curso de agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, ele convivia diariamente com 31 daqueles rapazes e moças mortos. Eram seus alunos. Dezoito, de uma mesma classe. Dornelles, como toda a Santa Maria, também tinha sido atingido. Também não dorme mais em paz. Também não consegue trabalhar. Também não sabe onde buscar forças para recomeçar. Sabe apenas que a cidade jamais será a mesma.
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Segunda-feira 28: a população de Santa Maria faz manifestação
um dia após o incêndio que enlutou a cidade
“Você precisava ver, antes disso tudo Santa Maria transbordava alegria”, diz. Na tarde daquela quarta-feira, as alamedas arborizadas da Universidade Federal de Santa Maria deveriam estar movimentadas. Em um dia normal, os prédios que abrigam cursos concorridos de agronomia, farmácia e veterinária, além de muitos outros, deveriam ressoar aquela excitação típica de um ambiente estudantil. Em um dia comum, haveria vida pulsante ali. A Federal parece ter sido abandonada às pressas, como se mísseis inimigos fossem desabar sobre ela. Não se vê uma mínima fração de seus 27 mil estudantes. Os 1,8 mil professores sumiram de vista. Não há ninguém nos laboratórios. Nem nas bibliotecas. As lanchonetes estão às moscas. As luzes, apagadas. A Universidade Federal de Santa Maria está deserta por um motivo óbvio: luto. Até a sexta-feira 1º, 103 de seus alunos tinham morrido em decorrência do incêndio na boate Kiss. Pelo menos outros 30 continuavam internados. Como a festa na Kiss foi promovida por diretórios estudantis, é provável que mais de 500 pessoas ligadas de alguma forma à instituição estivessem na boate na noite da tragédia. As aulas foram suspensas por uma semana, mas é certo que a dor vai durar muito mais. E não apenas ali. Santa Maria tem sete universidades frequentadas por 40 mil alunos. No verão, às 9 horas da noite ainda tem sol e as pessoas ficam na rua até tarde. Os índices de violência são baixos, não falta trabalho nas áreas rurais e o universo estudantil atrai professores e pesquisadores, que fizeram surgir, nos últimos anos, uma nova classe média. O paraíso não existe mais.
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Fábio José Cervinski, 26 anos, era um dos alunos do curso de agronomia da Universidade Federal de Santa Maria. Há três anos, o jovem estudante era só bom humor. Havia vencido a luta contra a leucemia, doença que o vitimou quando ele tinha apenas 17. Fábio passou seis anos doente, submeteu-se a tratamentos dolorosos, inúmeras sessões de quimioterapia, até, finalmente, receber o diagnóstico de cura. Desde então, não se cansava de festejar com a família. Durante a luta contra o câncer, o jovem disse aos parentes que, se morresse, gostaria de ser enterrado ao lado da sepultura do avô, na pequena cidade de Paim Filho, no interior do Rio Grande do Sul. Ninguém mais se lembrava disso. Afinal, o câncer era passado e Fábio tinha um futuro enorme pela frente. Mas o garoto que sobreviveu a uma luta de seis anos contra a leucemia não resistiu ao gás venenoso da Kiss.O incêndio trouxe o pedido de volta à memória dos pais e foi atendido. Fábio agora está ao lado do avô em Paim Filho.
Para fazer a foto desta reportagem, o professor Dornelles voltou à sala de aula da Federal de Santa Maria. Ele veste camiseta preta e tem nas mãos as provas que os alunos fizeram na manhã da sexta-feira 25. Pouco tempo depois, na madrugada de sábado para domingo, quatro desses estudantes morreram no incêndio da boate Kiss. Dornelles mal consegue olhar para os papéis. Ele os entrega ao repórter, depois pega de volta com cuidado e acaba por colocar tudo sobre a mesa. Então, motivado provavelmente por um instinto de proteção, abraça com força o material. “Vou ligar para os pais, porque agora isso pertence a eles”, diz. Uma das provas foi feita em papel rosa enfeitado com desenhos de borboletas coloridas. É da estudante do primeiro semestre de agronomia Rhaíssa Gross Curia, uma das vítimas fatais da Kiss. O professor Dornelles não consegue parar de pensar nela e em todos os outros. “Eu paguei R$ 15 pelo convite da festa na Kiss”, diz ele. “Fiz isso para ajudar os alunos. A menina que me vendeu o convite morreu.”
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A Kiss dilacerou muitas famílias e foi ainda mais cruel com a dona de casa Elaine Gonçalves. Aos 63 anos, ela enfrentou há dois anos a morte do marido e agora se depara com o desaparecimento dos dois filhos, Deivis e Gustavo Marques Gonçalves. Depois da perda do companheiro, os jovens eram a alegria de dona Elaine, os únicos capazes de preencher seus dias. “Eles saíram de casa juntos, bonitos e faceiros, para nunca mais voltar”, diz a mãe. O mais velho, Deivis, 33 anos, morreu na própria boate e foi enterrado na segunda-feira 28. O irmão, Gustavo, 21, passou três dias internado, mas não resistiu. Na terça-feira 29, Elaine recebeu a notícia da morte do segundo filho. “Deus estipulou um tempo certo para eles, então o que me resta é aceitar”, diz. Inconsolável, a dona de casa sabe que agora terá de enfrentar uma nova realidade. “Meu Deus, é um pesadelo, mas eu sei que é sem eu acordar. E agora minha casa vai ficar vazia.” Apesar da prostração causada pelas perdas irreparáveis, dona Elaine não está conformada. “Quero justiça”, afirma, enquanto mantém os punhos fechados.
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A morte inesperada é chocante sob todos os aspectos, mas ainda mais dramática para os pais. Nos cemitérios de Santa Maria, muitos deles não abandonaram o túmulo de seus filhos, mesmo dois ou três dias depois dos enterros. Na quarta-feira 30, Veleda Ames e João Carlos da Silva permaneceram um bom tempo imóveis, abraçados diante da sepultura do filho, Alexandre Ames Prado, 18 anos, estudante de jornalismo que tinha sido sepultado dois dias antes. “Não tenho mais objetivo na vida”, diz Veleda. A menos de 50 metros dali, aconchegados em um banco de cimento, estavam Sandra e Carlos Favarin, pais de Kell e Aline Favarin, estudante de direito que morreu aos 22 anos e que também havia sido enterrada na segunda-feira. “A médica disse que ela não sofreu”, afirma Sandra, tentando, de alguma forma, encontrar conforto, se é que é possível numa situação como essa. Nos cemitérios de Santa Maria , flores frescas estavam por toda parte e dava para ver até os coveiros, habituados à rotina da morte, com lágrimas nos olhos.
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Depois de sepultar os filhos, muitos pais preferem enterrar também a tragédia e postergar a longa despedida que vem pela frente – o desvencilhamento das roupas, dos objetos pessoais e das lembranças. Três dias depois da morte da filha Mirela, 21 anos, Helena Rosa da Cruz ainda não teve coragem de jogar a metade do lanche que a jovem havia deixado na geladeira de casa antes de ir à boate Kiss. Ela e o marido, Delçon, também resolveram fechar o quarto da jovem, e do filho, José Manuel, 18, que também perderam na tragédia. “Decidimos fingir que eles estão viajando. E vai ficar assim até termos coragem”, diz Helena, que foi dormir na madrugada do dia 27 tranquila, pois o casal de filhos cuidaria um do outro na balada, como sempre. Perto das 4h, tocou o telefone na casa de Helena. Era uma amiga dos irmãos avisando sobre o fogo na Kiss. O casal correu para o cenário da tragédia e logo percebeu que não encontraria seus filhos lá. Dividiu-se e começou a busca por hospitais. Era começo da tarde do domingo e Delçon e sua esposa, depois de ir e vir de todos os centros de saúde, ainda não haviam encontrado Mirela e José Manuel – os nomes não apareciam em nenhuma lista de feridos. Às 13 horas, o casal se encaminhou para o ginásio Farrezão, onde estavam as centenas de corpos. Os policiais chamavam de dez em dez nomes. Amparada em uma amiga, totalmente desorientada, Helena ouviu, apenas na quinta chamada, o nome de José Manuel. Ele era o corpo 62. Inerte diante do filho, a mãe se deparou com o de Mirela, ao longe. A partir daí, o casal enfrentou, assim como todas as famílias que lá estavam, dilaceradas com as perdas de seus jovens, uma série de filas: para a certidão de óbito e para conseguir caixões nas funerárias, entre outras. Até que Helena pôde ir para casa separar a roupa de seus meninos. Para José Manuel, que fazia parte de um grupo de danças típicas, bombachas, camisa branca, guaiaca, lenço vermelho, botas e boina. Já sua Mirela, vaidosa como ela só, rainha de Carnaval do clube e miss Santa Maria aos 10 anos, um vestido branco com brilhante na gola e um sapato de salto altíssimo. No enterro, todos choraram com e por Helena, que diante dos corpos dos filhos agradeceu a presença dos amigos e acrescentou: “Se eles foram pessoas tão maravilhosas, e se eu estou aqui agora, é porque vocês nos encheram de amor.”
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Janaína Portela, 19 anos, não era estudante universitária, nem estava na boate Kiss para se divertir. Moradora da periferia de Santa Maria, do bairro de Chácara das Flores, a jovem estava no epicentro de uma das maiores tragédias da história do País porque se ofereceu para substituir a mãe, Natalícia Moraes da Silva, que estava se sentindo mal, na função de lavar copos durante a festa. Não era a primeira vez que Janaína substituía Natalícia, empregada da boate. A jovem chegou a escapar do incêndio, mas entrou mais duas vezes na Kiss para auxiliar nos resgates de quem ainda sofria lá dentro. Na terceira vez, não conseguiu sair. Esforçada, queria ser veterinária, e era muito querida. Da Chácara das Flores, saíram vans, carros e um ônibus cheio de vizinhos para o enterro, na segunda-feira 28.
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É difícil encontrar alguém na cidade que não tenha sentido a tragédia de perto. O recepcionista do hotel diz que o melhor amigo está internado. Você está no restaurante e o dono pede uma salva de palmas para o sobrinho, que saiu ileso da danceteria. Os shoppings e as lojas de ruas colocaram fitas de luto em suas fachadas. Nos carros dos taxistas, uma faixa preta homenageia os mortos. Uma casa colocou um cartaz que pede justiça. No ônibus que faz o trajeto Porto Alegre-Santa Maria, as pessoas relatam o sofrimento de seus entes. Em choque, a cidade ficou paralisada. Na semana passada, o fórum permaneceu fechado. Médicos e dentistas cancelaram consultas. Supermercados não abriram. Santa Maria pareceu viver o delírio da música “O Dia em Que a Terra Parou”, de Raul Seixas.
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No meio desse cenário de luto permanente e dessa atmosfera de dor insepulta, brotam as histórias dos heróis anônimos da tragédia de Santa Maria. Se não fossem eles, garantem as pessoas que estavam presentes na angustiante madrugada do domingo 27, muito mais vidas teriam sido perdidas. E a imagem símbolo desses heróis, que correu o mundo, é a do estudante de educação física da UFSM Ezequiel Lovato Corte Real, 23 anos, carregando um homem nos braços pelas ruas de Santa Maria. O jovem acredita ter tirado pelo menos 30 pessoas da boate Kiss, só não sabe se todas elas estavam vivas. Ele estava muito perto do palco, com duas amigas, quando viu o vocalista da banda pegar o sinalizador e apontar para o alto. Viu, também, alguém, que ele não sabe quem, tentar usar o extintor, que não alcançou o forro e, em questão de segundos, o fogo alastrar-se pela espuma do teto. “Formou-se uma manta por cima de nós”, diz. Ezequiel conseguiu manter a calma e conduziu as duas amigas por um caminho alternativo até a porta de saída. No caminho, viu dezenas de pessoas serem pisoteadas e gotas grossas de espuma derretida cair sobre os frequentadores, que gritavam, desesperados. Com as colegas em segurança, Ezequiel, um ex-fisiculturista, não teve dúvida: tirou a camisa, protegeu seu rosto e voltou para o inferno de que havia acabado de escapar. Entrou e saiu da Kiss incontáveis vezes, ao lado dos bombeiros, mas não conseguia avançar mais do que cinco metros, por causa da fumaça espessa. Durante o resgate, a pele descolava do seu corpo. “Puxava os corpos pela parte que conseguia tocar, sem ver. Enquanto puxava um, sentia alguém me segurando. Tentei dar as mãos para dois ao mesmo tempo. Como iria escolher só um?” O estudante só parou sua busca quando constatou que não havia mais ninguém com vida lá dentro. Foi para casa, tomou um banho, descansou por cerca de uma hora e seguiu para o hospital, pois sentia o pulmão roncando. Desde o dia da tragédia, recebe agradecimentos pelo ato heroico. No peito, um sentimento de frustração por não ter conseguido salvar mais gente. “Não me lembro de nenhum rosto das pessoas que salvei. Só lembro o rosto de quem não salvei.”
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Como a tragédia afetou todo mundo, uma onda de solidariedade varreu a cidade. E ela começou com as próprias vítimas da tragédia. Muita gente foi salva pelo estudante de educação física Vinícius Rosardo, 26 anos. Tão bravo quanto Ezequiel, ele foi um dos primeiros a sair da Kiss, mas resolveu voltar à boate para ajudar no socorro às vítimas. Segundo relatos de pessoas que o viram em ação, Vinícius, de quase dois metros de altura e 130 quilos, tirou pelo menos 14 pessoas com vida que estavam presas no interior da Kiss, muitas vezes levando uma em cada braço. Não foi seu primeiro incêndio. Quando tinha 12 anos, ajudou o pai a debelar o fogo de uma casa vizinha, carregando baldes. “Se não fossem ele e muitos outros jovens que voltaram para ajudar, essa tragédia teria 500 mortos”, diz o pai do estudante, o gerente de eventos Ogier Rosardo, 51 anos. Em 2012, Vinícius havia se tornado voluntário da Apae e tinha começado a dar aula de dança a idosos. Com formatura prevista para este ano, Vinícius pretendia se mudar para São Paulo, onde queria se tornar lutador de MMA. Parentes contam que ele adorava festas, mas cancelava qualquer compromisso para ajudar um amigo. “Era um rapaz muito humilde. Nunca vi ninguém falar que não gostava dele”, diz o pai. “Brincava que ele era como uma baleia: grande, forte e doce.” Ele salvou muitas vidas, menos a sua. Foi encontrado desacordado dentro da boate e morreu a caminho do hospital.
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A solidariedade era vista em todos os lugares. Moradores doaram água e comida, empresários ofereceram veículos para o transporte dos feridos, profissionais especializados se dispuseram a trabalhar voluntariamente. Na tarde da terça-feira 29, a estudante de terapia ocupacional Kássia Flores, 19 anos, corria de um lado a outro dos corredores do Hospital Caridade, onde dezenas de feridos se recuperam. De luvas nas mãos, ela servia lanches e bebidas para os familiares das vítimas. Por que fez isso? Foram duas as razões. “Depois do que aconteceu, eu não podia ficar de braços cruzados”, diz Kássia. Mas havia outro motivo. “Meu primo-irmão morreu no incêndio e eu não consigo ficar em casa.” Os corredores e recepções de hospitais de Santa Maria pareciam, até quase uma semana depois do incêndio, verdadeiros centros universitários. Estavam repletos de jovens que pretendiam visitar irmãos, amigos, primos e namorados.
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Passeata no centro de Santa Maria, na noite da
segunda-feira 28, em memória das vítimas da tragédia
A operadora de caixa das Lojas Americanas Alessandra Mattos, 23 anos, não para de pensar nos cinco amigos que perdeu no incêndio da boate Kiss. Mas o que também não sai da cabeça de Alessandra é que ela foi salva pelo ciúme de seu marido. “Eu estava com o convite comprado, mas ele não me deixou ir”, diz. Foi por ciúme e pelo fato de o casal ter um filho de três anos. “Ele disse que era para eu ficar em casa e cuidar do guri. Fiquei com raiva, ameacei, mas não fui.”A corriqueira briga de casal que tanto a irritou, livrou a comerciária do horror daquela madrugada. Todos os seus colegas, com quem ela certamente estaria na casa noturna, morreram na tragédia. Alessandra perdeu os amigos Neiva Carina de Oliveira Marin, Odomar Gonzaga Noronha, Paula Rodrigues Costa e Sandra Victorino Goulart, além de Evelin Costa Lopes, que trabalhava em outra loja. “Tive uma dor no peito horrível quando soube, fui parar no hospital. Fico aliviada por estar viva, mas triste de não tê-los mais por perto”, diz a jovem, que viu seus amigos pela última vez no sábado 26, antes de sair do trabalho. “Eles me abraçaram, me beijaram. Ainda bem.”
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 Algumas pessoas tiveram o círculo de amizades praticamente destruído. A vendedora Luciane Seger, 27 anos, por exemplo, descobriu na segunda-feira 28 que 23 colegas tinham morrido no incêndio. Era a turma que trabalhava no principal shopping da cidade e que saía junto todo fim de semana. Luciane certamente estaria na festa do sábado 27 na Kiss, ao lado de seus amigos de todas as horas. Mas, no dia da tragédia, a vendedora não pôde ir à Kiss porque estava muito ocupada com os preparativos para um churrasco em família no domingo 27. Por causa disso, desistiu da balada, pois precisaria acordar muito cedo no dia seguinte. Não teria problema, o grupo estaria junto na segunda-feira 28, reunidos trabalhando no shopping, e nos próximos fins de semana, pensou ela, antes de ser assolada com as notícias.“É desesperador pensar no número de pessoas próximas que morreram”, diz Luciane.
A tragédia terá um impacto na teia social de Santa Maria. Novos vínculos afetivos terão que ser criados. Em cidades de pequeno e médio porte, isso é mais difícil. Não aparece tanta gente nova assim, a não ser no início dos anos letivos das universidades, quando levas de calouros chegam para preencher as vagas.
Além das universidades, as Forças Armadas também atraem para Santa Maria pessoas de lugares distantes. O primeiro-tenente do Exército Leonardo Machado Lacerda, 28 anos, foi transferido do Rio de Janeiro apenas 15 dias antes da tragédia. Na madrugada de sábado para domingo, ele quis ir à Kiss com seus colegas para comemorar sua transferência para o Sul. Ele estava muito feliz e animado com as novas perspectivas de carreira. Militar treinado, com físico ágil, Leonardo conseguiu sair com rapidez da boate no momento do incêndio. Mas, como tantos outros, num primeiro momento ele saiu ileso da fumaça que consumiu o teto da boate, mas resolveu voltar para tirar pessoas lá de dentro. Conseguiu salvar um oficial do batalhão em que servia. Com o colega a salvo, retornou para a casa tomada pela fumaça tóxica para tentar buscar duas amigas. Não conseguiu. Tornou-se outro herói e sua página na rede social Facebook está repleta de bonitas mensagens de condolências que lembram seu ato gigantesco.
Toda tragédia é triste, mas a de Santa Maria mexeu com as emoções mais profundas de brasileiros e estrangeiros porque suas vítimas são muito jovens. Até a quinta-feira 31, o número de mortos era de 236. Desses 176 tinham entre 18 e 26 anos. A faixa etária com mais óbitos é a de 18 anos, com 37 perdas, seguida pela de 20 anos (31 mortos) e 19 anos (28 mortos). Santa Maria sofreu ainda mais porque os desaparecimentos se deram no grupo que torna a cidade realmente especial, o de universitários. Os moradores garantem que não há, no Brasil, nenhum lugar que se equipare a Santa Maria na relação entre estudantes de nível superior e a população total.
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Eram 3h20 da manhã, apenas um minuto depois de o Corpo de Bombeiros da cidade receber a primeira ligação alertando sobre o incêndio na boate Kiss, quando os amigos da protética Michele Cardoso, 20 anos, receberam a mensagem no Facebook: “Incêndio na Kiss socorro.” Minutos depois, começaram as perguntas: “Tu está bem?” Outro texto questionava: “Como assim? Explica isso”; ou, então: “Sério, Miii?” Um outro parecia gritar: “Miiiiiiii.” Em vão. Michele, que já havia trabalhado na Kiss, foi encontrada morta na boate. Ela estava acompanhada da irmã, Clarissa Lima Teixeira, e do namorado, João Paulo Pozzobon, 20 anos, que também sucumbiram ao incêndio. João Paulo morreu porque, já fora da boate, e contrariando o apelo dos amigos, retornou à Kiss para tentar salvar Michelle, que havia pedido socorro pela rede. O casal havia se conhecido na casa noturna seis meses antes. Foi a primeira grande tragédia brasileira testemunhada e comentada em tempo real pelas redes sociais, principalmente pelos jovens, que se identificaram com as vítimas. O pedido de Michele permaneceu online. Assim como milhões de tuítes e posts relacionados à tragédia de Santa Maria, de todas as partes do mundo, de anônimos e famosos, que se multiplicaram durante a semana.

A faixa etária que frequentava a Kiss era tão baixa que a boate ganhou na cidade o apelido de “Kids.” Era comum ver menores de idade dançando nas pistas e consumindo bebidas alcoólicas. A Kiss também ganhou fama pela virulência com que os seguranças tratavam os frequentadores. Vários jovens disseram para a polícia que já tinham visto cenas de espancamentos motivadas por perda de comandas. Em 2011, a Kiss foi obrigada a pagar ao estudante Renato Michelon R$ 5 mil por agredi-lo na hora do pagamento da conta. “O Renato pagou R$ 100 em dinheiro, mas faltavam R$ 20”, diz a advogada Patrícia Michelon, irmã de Renato e responsável pelo caso. “Como o cartão dele não passou, os seguranças partiram para a agressão.” Renato levou um soco na boca e uma cotovelada no peito – tudo devidamente registrado por testemunhas.
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Apesar dos problemas, a Kiss lotava sempre e era a casa preferida dos jovens da cidade. Foi lá que Brady Adrian Gonçalves Rodrigues decidiu comemorar seu aniversário. Lotado na 13ª Companhia do Exército, em Santa Maria, ele fazia planos de retomar o último ano do curso de educação física e, quem sabe, seguir uma nova carreira. O incêndio destruiu suas ambições. Ele morreu ao lado da namorada, Ana Caroline Rodrigues, 19 anos, uma estudante do curso de tecnologia de alimentos da Universidade Federal. Ele tinha acabado de fazer 21 anos.
É manhã de sexta-feira e as alamedas arborizadas da Universidade Federal continuam vazias. Santa Maria, rogai por eles! 
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/272795_SANTA+MARIA+ROGAI+POR+ELES+?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

domingo, 11 de novembro de 2012

Notícia da Semana Atualidades ( A Reeleição de Obama)


A vitória do homem bom

A reeleição de Barack Obama tranquiliza o mundo. A presidência da mais poderosa nação seguirá com um líder empenhado em manter o crescimento do país, gerar empregos, amparar a população afetada pela crise e respeitar os direitos civis

Por Tatiana Bautzer, enviada especial a Orlando, Flórida
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FORÇA
“Michelle, nunca te amei tanto como agora”
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diz: Barack Obama No palanque da vitória, em Chicago, Michelle 
abraça Obama. Ele disse que se orgulha da popularidade da esposa
O mundo respirou aliviado graças ao trabalho de gente como Natasha Williams. Negra, de classe média, 50 anos, Natasha tirou folga no departamento de polícia do condado de Orange, onde é funcionária, para lutar por Barack Obama como voluntária do Partido Democrata. Sua tarefa era a mesma de um batalhão de advogados que os democratas espalharam pelos cantos empobrecidos e populosos da Flórida, o Estado multicolorido onde, talvez, os Estados Unidos mais se pareçam com o resto do planeta. Natasha estava empenhada em garantir que eleitores, principalmente negros e hispânicos, tivessem o direito de votar. E foi desse jeito que veio a vitória. Barack Obama acabou reeleito presidente pela força da nova base política que se impõe no país, formada por latinos, negros, mulheres e jovens com menos de 30 anos. A ameaça de um revés conservador, que o mundo inteiro temia, passou. O Partido Republicano, sempre ávido por guerras, amante da ortodoxia econômica e cada vez mais insensível aos problemas sociais, sucumbiu ao voto.
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Desde as sete da manhã da terça-feira 6, Natasha Williams deu plantão na igreja adventista Bethel, num bairro pobre de Orlando. Com o celular conectado ao comitê local da campanha de Obama, ela resolvia casos como o da cozinheira Jaimie Martyn, que, embora vizinha da igreja, tinha recebido um documento mandando-a atravessar a cidade para votar em outro lugar. “Esta carta não faz sentido e eles têm que permitir que você vote aqui”, explicava Natasha enquanto escoltava Jaimie até a longa fila na porta da igreja. A exclusão de eleitores vindos de minorias, que em 2000 marcou a eleição de George W. Bush, foi brecada na marra. Na Flórida, 23% dos eleitores são hispânicos; 16,5%, negros; 51%, mulheres. Quase dois milhões de habitantes têm entre 18 e 30 anos.
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Depois de uma longa e acirrada campanha, a reeleição do presidente Barack Obama foi comemorada por multidões nas ruas das maiores cidades americanas. Acompanhado da mulher, Michelle, e das duas filhas, Sasha e Malia, Obama foi ovacionado no estádio em Chicago onde fez seu discurso de vitória, depois da uma da manhã de quarta-feira 7. “Mais quatro anos!”, gritavam os eleitores, repetindo o refrão dos comícios. Obama homenageou com carinho a mulher e as filhas e agradeceu o envolvimento dos voluntários democratas que estimularam o comparecimento dos eleitores. “Tenha eu merecido seu voto ou não, ouvi sua voz”, disse. “Aprendi com vocês e voltarei à Casa Branca mais inspirado do que nunca.” Desta vez, sem prometer o impossível, fez um pronunciamento pragmático e pediu pela união do país.
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Os quatro anos de presidência de Obama foram duros e lhe custaram um naco de popularidade. Quando assumiu, em janeiro de 2009, o mundo estava submerso numa crise de dimensão histórica. A maneira como enfrentou os obstáculos, contudo, garantiu a Obama uma imagem suficientemente sólida para a reeleição. O caso da indústria automobilística é um dos melhores exemplos. As montadoras americanas pareciam destinadas ao sumiço. Numa medida impopular, a primeira de outras tantas que os analistas políticos condenaram, Obama socorreu as gigantes Chrysler e General Motors (GM) com empréstimos de emergência. Em contrapartida, exigiu o corte de custos trabalhistas e a revisão de seus modelos de negócio. O Partido Republicano foi contra. Mitt Romney, o candidato derrotado dos republicanos, chegou a escrever um artigo para o jornal “The New York Times” intitulado “Deixem Detroit quebrar”. Quatro anos depois, Obama venceria em Ohio, no meio-oeste, onde se concentra boa parte da indústria automobilística americana. Ele era o “salvador” de mais de um milhão de empregos. Seu adversário, o candidato dos ricos. “Se Romney for eleito, os milionários vão controlar o governo”, dizia Matthew Szymanski, de 51 anos, que acompanhou, na semana passada, o último comício de Michelle Obama num parque perto do aeroporto de Orlando. Ex-militar, dono de uma imobiliária que quebrou com a crise na Flórida, Szymanski sente que os republicanos “querem voltar aos anos 50”.
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À revelia da oposição, durante seu mandato Obama também aumentou os controles do mercado financeiro, reduzindo as brechas que levaram à crise de 2008. Com ele, a interferência do Estado cresceu e isso acabou sendo fundamental para reaquecer a economia. Assim, não apenas nos Estados Unidos, mas por todo o mundo, Obama firmou-se como o maior porta-voz da agenda da ação governamental em oposição à austeridade ortodoxa. O pacote de estímulos de mais de US$ 800 bilhões que aprovou foi importante para injetar ânimo no mercado e investimentos em infraestrutura. A taxa de desemprego recuou para abaixo de 8% faltando dois meses para as eleições e a previsão é de que o Produto Interno Bruto avance 2%. Para Marty Linsky, professor de políticas públicas da Universidade de Harvard, os americanos gostariam que a economia estivesse melhor. “Mas, por outro lado, eles sabem que as coisas estão melhorando, mesmo que seja tão lentamente”, disse Linsky à ISTOÉ.
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No discurso da vitória, Obama tratou de preparar os americanos para dificuldades que o país terá pela frente. Enfrentando uma feroz batalha sobre o déficit público com a Câmara dos Deputados, que continua sob controle republicano, Obama prometeu negociar. “Quero trabalhar nos próximos meses com os líderes dos dois partidos para enfrentar os desafios que só podemos resolver juntos, como reduzir o déficit, reformar o sistema tributário, mudar as regras de imigração e livrar-nos do petróleo estrangeiro”, afirmou. O primeiro teste será a capacidade de fechar um urgente acordo sobre os limites de endividamento no País para evitar um corte drástico (de US$ 600 bilhões) nos gastos públicos. Dois dias depois de pedir conciliação, Obama já recebeu sinais de que os republicanos aceitam negociar para dosar o corte.
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A opção de Obama pelo multilateralismo como peça central de sua política externa é outro ponto que tranquiliza a comunidade internacional. O presidente que caçou o terrorista Osama Bin Laden, para o regozijo dos americanos, foi prudente quando se deparou com novas ameaças. No momento em que os levantes da Primavera Árabe ganharam força na Líbia no ano passado, por exemplo, ele liderou uma intervenção no país para frear a ofensiva do regime de Muamar Kadafi contra os rebeldes. Mas só fez isso depois de apoiado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, pela Otan e a pedido da própria Liga Árabe, o que era impensável até algum tempo atrás. Em relação ao Irã, acusado de fabricar bomba atômica, Obama também atuou junto à ONU para negociar sanções a Teerã, que incluem o veto ao fornecimento de armamentos pesados e tecnologia nuclear. Romney passou a campanha inteira sugerindo medidas mais drásticas.
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O tom raivoso do Partido Republicano despontou como marca contundente na campanha eleitoral, o que ajuda a entender o alívio global experimentado com a eleição de Obama. A última administração republicana, com George W. Bush, representou um colossal fracasso, coroado por duas guerras (Afeganistão e Iraque) e um crash global gerado na permissividade que foi ofertada aos financistas de Wall Street. A esse desastre, surpreendentemente, o partido respondeu com a magnificação do Tea Party, sua falange mais hidrófoba, conservadora e estridente. Essa guinada à direita, temperada pelo fundamentalismo religioso e fanatismo fiscal, acabou revelando-se desastrada: o Tea Party perdeu força no Congresso, amargando derrotas de algumas de suas principais estrelas. O resultado da eleição mostrou que republicanos ignoraram a mudança demográfica que ocorreu nos Estados Unidos, confiando no público de sempre – homens brancos, acima de 40 anos, cuja participação no total do eleitorado vem caindo. Um de seus principais equívocos foi a mudança de posições sobre imigração. Nas épocas de forte crescimento econômico, ainda que isso não ficasse explícito publicamente, os republicanos viam a chegada de imigrantes como uma maneira de evitar pressões por aumentos salariais em setores que usam muita mão de obra. Nessa campanha estrilaram por linha dura, numa cruzada contra os imigrantes ilegais. A réplica das urnas foi clara: mais de 70% do eleitorado latino, que ganha relevância nacional com participação de 10% no total, votou em Obama, apesar das críticas que vinha fazendo à timidez de seu governo sobre o tema. Agora, a reforma migratória vai virar ponto central do novo mandato dos democratas.
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Na questão dos direitos civis, o precipício que separa conservadores e liberais parece ainda maior do que o abismo fiscal que desafia Obama. Os republicanos, tradicionalmente contra o aborto (legal nos Estados Unidos desde a década de 70), vêm elevando o tom de suas críticas ao procedimento. Alguns de seus candidatos mais religiosos passaram a rejeitar o aborto até em caso de estupro. O governador da Flórida, Rick Scott, colocou na cédula desta eleição uma proposta – que acabou rejeitada pelos eleitores – para eliminar recursos públicos dirigidos à prática do aborto. Os republicanos fizeram ainda diferentes sugestões de limitação ao uso de contraceptivos e defenderam leis que proíbem direitos às uniões de pessoas do mesmo sexo. Enquanto isso, eleitores de três Estados, Maine, Maryland e Washington, aprovaram casamentos gay e o Colorado passou a aceitar o uso recreativo da maconha. Num cenário desses, Obama reforçou a imagem de tolerância dos democratas ao dizer em seu discurso que todos têm a chance de ter sucesso nos Estados Unidos, sejam eles “brancos, negros, asiáticos ou indígenas, jovens ou velhos, saudáveis ou deficientes, gays ou heterossexuais”.
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Não é difícil entender por que a página editorial do “Wall Street Journal”, um dos mais tradicionais bastiões do conservadorismo nos Estados Unidos, fez um editorial depois da derrota de Romney afirmando que o Partido Republicano não sobreviverá sem adaptar suas posições à nova demografia do País. “Os republicanos viraram o partido de um número declinante de eleitores mais velhos e brancos, concentrados no sul ou em comunidades rurais e pequenas cidades”, afirmou o jornal. Isso é visível em qualquer reduto republicano. Num local de votação de um bairro de alta renda em Orlando, um casal de mais de 60 anos, que preferiu não se identificar, explicava que votaria em Romney “porque Obama apoiava coisas proibidas pela ‘Bíblia’”, como o aborto ou o casamento gay. No comitê central de campanha de Mitt Romney em Orlando, que ocupava uma loja de um shopping a céu aberto, o voluntário Dale Smith, de 67 anos, veterano da guerra do Vietnã, dizia que a eleição de Obama feria liberdades econômicas e garantias fundamentais da constituição, como a de portar uma arma. “Defendemos nossa liberdade contra o socialismo que Obama quer implantar”, bradou, reclamando dos gastos em programas sociais e da alta dívida do país. Smith passou 15 minutos explicando por que a jornalista brasileira deveria assistir a um documentário do comentarista politico Dinesh D’Souza, recheado de teorias conspiratórias sobre a influência da família e infância de Obama em suas convicções políticas. Mais impressionante foi a reação do comentarista conservador Rush Limbaugh, um dos mais agressivos críticos do presidente, em seu programa de rádio no dia seguinte à reeleição. “Não consigo entender como não elegemos um homem tão bom como Romney”, afirmava Limbaugh. Sua teoria para explicar a derrota era simplória: “É impossível ganhar a eleição do Papai Noel”.
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Colaborou Mariana Queiroz Barboza
Foto: Robyn Beck/AFP PHOTO
Fotos: Cheryl Senter/The New York Times/Latinstock; Jeff Haynes/Reuters/Latinstock
Fotos: Seth Wenig e ROGERIO BARBOSA/AP Photo
Fotos: Jewel Samad/AFP PHOTO; Scott Olson/Getty Images/AFP
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/252947_A+VITORIA+DO+HOMEM+BOM?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

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